Evento estreia programa Cartas na Mesa, com o Observatório da Imprensa

Geral

Paulo Ranieri

Texto: Umberto Mannarino e Luiz Felipe Mihich (1º semestre)

Foto: Taynah Silva (2º semestre)

Na última quarta-feira (9), a ESPM-SP, em parceria com o Observatório da Imprensa, apresentou o programa Cartas na Mesa, sobre jornalismo. Foto: Thaynah Silva.

O programa Cartas na Mesa, projeto do Observatório da Imprensa em parceria com a ESPM-SP, teve seu lançamento oficial no último dia 9 de maio. Após dois meses de gravações, os temas dos seis debates foram anunciados na cerimônia de abertura, que contou com a presença de jornalistas importantes como Pedro Varoni, editor do Observatório, e Ângela Pimenta, presidente do Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo (Projor), órgão por trás do Observatório da Imprensa.

Na cerimônia de abertura, foi feita uma mesa redonda com jornalistas que tornaram possível a concretização do projeto. Foram chamados para a conversa Pedro Varoni, editor do Observatório da Imprensa e idealizador do programa, Rodrigo Flores, diretor de conteúdo do UOL, Cristina Zahar, secretária executiva da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), Cíntia Gomes, repórter e editora da Agência Mural, e a professora e jornalista Heidy Vargas, diretora do programa. Na plateia, junto com os alunos da ESPM, também esteve presente Ângela Pimenta, do Projor.

Já no início da conversa, ficou clara a importância dos temas tratados no programa, assim como a preocupação dos presentes em combater o cenário atual de desinformações e meias-verdades: a proliferação das chamadas fake news (notícias fraudulentas) põe em xeque a credibilidade do jornalismo, e, se nada for feito, a tendência não é parar por aí. A poucos meses das eleições, os jornalistas precisam correr contra o relógio se quiserem vencer a batalha contra essas mentiras disfarçadas que se espalham pela rede como uma doença contagiosa.

Sobre esse tema, Rodrigo Flores brincou que, de dez palestras sobre jornalismo a que ele vai, nove são sobre fake news, o que mostra quão grave é a situação. “Nos moldes atuais, é uma guerra perdida”, disse ele, sublinhando que é crucial ao jornalismo se reinventar nesse contexto e criar novas formas de combater a inverdade. Ao final da conversa, quando os alunos da plateia puderam fazer perguntas, ele foi questionado sobre a frase na qual, na sua opinião, era a melhor forma de prevenir o “contágio”. Com um ar otimista, Flores comentou que já sente uma melhora por parte da população, que vem aos poucos se conscientizando da importância de checar os fatos antes de compartilhar uma notícia. Em outro momento, Heidy Vargas lembrou do jornalista Ricardo Kotscho, que gravou o programa sobre Imprensa e Campanhas Políticas com o colega Clóvis Rossi. À máxima de Kotscho, “repórter bom é o que vai para a rua”, Vargas acrescentou: “Leitor bom é o que checa”.

Outra solução para combater as fake news, segundo Flores, seria endurecer as leis de responsabilidade para punir os culpados, mas ele mesmo admitiu que há uma linha tênue entre cortar notícias falsas da rede e usar essas leis para regulamentar a censura. Ângela Pimenta concluiu dizendo: “Combater fake news é como varrer as ruas. É um trabalho contínuo e intensivo”

Um tema que surpreendeu alguns alunos da plateia foi a existência do programa CrossCheck, na França, no qual veículos concorrentes entraram em acordo para trabalharem juntos no combate às fake news. Maior surpresa ainda foi saber que no Brasil um projeto similar vai entrar em vigor ainda para as eleições deste ano, no qual plataformas grandes como UOL, Folha de S. Paulo, Estadão, Aos Fatos, Agência Lupa e revista Piauí, com o apoio do Google, unirão forças para minimizar a influência das notícias fraudulentas na mente do eleitor brasileiro. “O combate à desinformação é para elevar o nível do jornalismo”, afirmou Pedro Varoni.

No campo das fake news, a recíproca também é verdadeira: assim como informações falsas podem moldar a decisão das pessoas, omitir verdades tem o mesmo poder. Nesse sentido, Cristina Zahar apontou que grande parte dos pedidos de remoção de conteúdo das redes sociais vem de políticos que não concordam com as ideias expostas (e, desses, dois terços dos pedidos são aceitos pelo Judiciário). “Nosso papel é vigiar”, disse Zahar. Rodrigo Flores acrescentou que a missão número um do jornalismo é lançar luz nessa área tão nebulosa que é a política.

“O jornalismo ficou mais complexo”, prosseguiu Zahar, dando como exemplo novos campos do jornalismo como a investigação de bancos de dados. Esta exige um bom conhecimento de linguagens de programação, ainda não muito comum entre profissionais da área, o que a torna um campo promissor para jornalistas jovens.

A necessidade de lidar com dados cada vez mais volumosos é uma tendência natural, porque hoje há um canal muito mais direto entre fontes de informação e o público: com um clique, pode-se acessar fatos relativamente simples, como decisões pontuais do governo, nas próprias plataformas sociais da prefeitura, do Estado ou da Presidência da República. Agora, como aponta Flores, “o jornalista não é mais só um reverberador”. Para ele, é imposta a necessidade de produzir conteúdos cada vez mais densos de análise e de interpretação, não mais apenas uma exposição seca.

O Cartas na Mesa é gravado em forma de programa de TV e publicado no Observatório da Imprensa e no Portal de Jornalismo da ESPM: durante meia hora, uma dupla de jornalistas debate sobre temas relevantes e atuais no campo do jornalismo, como Ética, Desinformação e Campanhas Políticas. O diferencial: não há um mediador, e a conversa segue um caminho muito mais próximo de um bate-papo, em que entrevistado e entrevistador se alternam, que efetivamente um debate. Em cada um dos programas, seis cartas contêm perguntas referentes ao tema central. Os jornalistas, então, leem a pergunta em voz alta e trocam ideias e pontos de vista sobre a questão, com a liberdade para escolher quando passar para a próxima carta.

A professora Heidy Vargas, diretora do programa, mostrou-se bastante satisfeita com o resultado, em especial com a dinâmica que a ausência de mediador permitiu. “Eles estão batendo um papo entre amigos no programa. Eles, inclusive, se provocaram. Em vários programas, não sei se vocês perceberam, um provoca o outro e isso foi gostoso”. E completou: “Quando você tira o mediador, você deixa livre para que eles coloquem suas próprias impressões e falem o que sabem sobre o tema e colaborem um com o outro”. Por fim, concluiu, em recado aos alunos de Jornalismo da plateia: “Precisamos discutir esses temas, porque eles já fazem parte da vida de vocês”.

Confira o cronograma de veiculação dos programas:

  • 9 de maio: “Imprensa e Campanhas Políticas”, com Ricardo Kotscho e Clóvis Rossi
  • 16 de maio: “Jornalismo Digital”, com Natália Mazotte e Adriana Garcia
  • 23 de maio: “Desinformação”, com Caio Túlio Costa e Ricardo Gandour
  • 30 de maio: “Jornalismo e Democracia”, com José Hamilton Ribeiro e Humberto Pereira
  • 6 de junho: “Jornalismo Ativista e Investigativo”, com Cíntia Gomes e José Cícero da Silva
  • 13 de junho: “Ética”, com Eugênio Bucci e Carlos Eduardo Lins da Silva

Deixe Seu Comentário

*Preenchimento obrigatório.