B.O., perdas e medo : Jovem relata experiência de lidar com perfis falsos

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Edson Capoano

O convívio no mundo online pode trazer pessoas que utilizam perfis falsos. (Foto: Pixabay)

Desde 2015, já são mais de cem milhões de brasileiros com acesso à internet, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), dado divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ao mesmo tempo que o mundo online traz benefícios e vantagens, ele também possui elementos perigosos.

Exemplos claros disso são os casos da advogada Ana Lucia Keunecke, estuprada por uma pessoa que conheceu no Tinder, e o da jovem Kelly Cristina Cadamuro, morta depois de combinar de dar carona para um estranho.

Os incômodos também podem acontecer no mundo online com pessoas que utilizam perfis falsos. Utilizando-se de identidades que não são as deles, há pessoas que tiram vantagem disso. Um médico veterinário, que prefere não ter seu nome revelado na reportagem, enfrentou alguns dos problemas que um chamado fake pode causar quando uma pessoa criou um perfil com o nome e fotos dele.

Usando o nome e a imagem dele, mandava mensagens de baixo escalão, ofensas e insinuações constrangedoras para outras pessoas: “O perfil parou depois que eu fiz um B.O. (Boletim de Ocorrência), mas não sei se ela soube disso. Pode até ser que fosse uma pessoa próxima a mim. No começo nem ligava, mas depois ele passou a abordar muito mais gente e com bastante agressividade”, relata o veterinário.

Nas redes sociais, as pessoas podem não se mostrar como realmente são. Foi o que descobriu uma jovem estudante, que contou seus problemas em um post na internet que teve uma significante repercussão em uma grande universidade de São Paulo. Em entrevista ao Portal, ela prefere ficar anônima devido aos problemas acarretados pelo seu caso:

 

Portal: Como conheceu seu perseguidor virtual?

Uma menina falou comigo no Facebook, ela disse que fazia Letras e que tinha material de estudo e fiquei interessada. Ela disse que os resumos estavam com um amigo dela e eu precisava adicionar essa pessoa. Eu adicionei esse amigo dela que me passou os resumos e começamos a ficar amigos, eu estranhei que na época a menina começou a sumir, a gente passou a se falar bem pouco, mas eu não liguei muito.

Portal: Quando os problemas começaram?

A gente se falava muito porque na época eu estava isolada das amigas, estudando para o vestibular. Quando entrei na Poli, conheci outras pessoas, e ele ficou ciumento, a gente até saiu juntos, mas não erámos namorados. Mandou eu parar de falar com eles. Então eu o bloqueei, ele pediu desculpas, mas ignorei. Aí ele disse que iria falar mal de mim. Com um perfil falso abordou minhas amigas, no geral ele criava perfis de meninas orientais. Recebi mensagens de várias pessoas relatando terem recebido histórias, todas inventadas, isso me afetava na faculdade e comecei a me sentir mal, porque ele falava com gente de lá. Ele falou com mais de cem pessoas.

Portal: Ele fez perfis com a sua identidade?

Fez. Os perfis fakes também falavam com as minhas irmãs e primas. Uma prima achava que era eu quem falava com ela, porque havia minhas fotos minhas. Aconteceu várias brigas entre eu e minhas irmãs porque era todos os dias com mensagens, comentários nas fotos, pedindo para voltarmos a falar, minha irmã do meio me culpava por isso.

Portal: Tentou pedi para que ele parasse?

Já conversei com o menino. Ele pedia desculpas, eu dizia que perdoava, mas que erámos para seguimos nossas vidas em separado, mas ele entendia que havia uma chance de voltarmos a ser amigos. Amigos meus, meu antigo namorado, que recebiam mensagens do cara, diziam para ele parar, mas ele não dava ouvidos.

Portal: Falou com a família dele?

Eu tinha aberto o primeiro B.O nessa época. Uma amiga tinha uma mãe de direito que me ajudou, embora fosse de outra área. Ela quem intermediava minhas conversas com a família dele. No começo a mãe do menino ficou assustada, concordava que o filho estava errado, mas ela foi mudando, até dizer que eu precisava resolver pessoalmente com o menino. Que estava atormentando eles, que já tinham problemas, a irmã dele é cadeirante, enfim, não queriam mais dialogar.

Portal: O menino tinha algum problema psicológico como dito no post?

Ele falou algumas vezes que tinha esquizofrenia, mas que era leve, não era algo agudo. Que de vez em quando tinha umas paranoias, mas nada grave, e pontual. Também disse que tinha dificuldades de socializar, na época que saímos como amigos, quando passávamos por alguém do cursinho, ele se escondia, mas eu não perguntava nada. Ele disse que aconteceram problemas no ensino médio, mas não esclarecia o que tinha ocorrido. Falava que eu era a única amiga dele em vários anos.

Portal: Ele tinha acesso ao seu e-mail?

Sim, eu passei para ele para que me mandasse os resumos de literatura. Ele usou esse e-mail depois que o bloqueei no Facebook. Bloqueei ele nesse e-mail, mas ele descobriu o que eu usava para a Poli. Precisei criar um terceiro e-mail. Depois ele descobriu meu antigo Hotmail. Também ligava para mim, mandava mensagens, ligava dez vezes seguidas, precisava desligar ele de noite.

Ele mandava meu telefone para grupos de chat do Uol e Facebook e pedia para me mandarem mensagens. Tinha vezes que eu falava com as pessoas e elas diziam que eu tinha passado meu contato, ou seja, ele se passava por mim. E me cadastrava em coisas de relacionamentos e jogos, criou várias contas no Twitter com meu nome, apaga-los foi bastante trabalhoso. Também fazia fakes das minhas amigas, das minhas irmãs, e eram menores de idade na época.

Portal: Como isso continuou?

Ele passou a dizer que ia entrar na Poli, achava que era blefe, pois ele queria medicina, mas entrou. Dizia que faltaria nas aulas dele para ir até mim. Ele sabia que eu ia prestar um processo seletivo, e apareceu lá. Não que ele necessariamente fosse fazer algum mal, mas eu não queria ficar perto dele.

Abri outros dois boletins de ocorrência, mas eu não dei continuidade, precisava de alguém para acompanhar o inquérito. Eu precisava de ajuda. O garoto foi intimado, mas negou tudo. Recentemente precisei fazer um laudo psicológico.  Só agora que estou dando andamento, e está lento.

Portal: Quando falou disso na internet?

Eu fiz um post ano passado em um grupo feminista falando da minha situação. Uma moça perguntou se podia compartilhá-lo. Ela postou meu relato, deixei no meu mural, mas foi denunciado. O garoto até se gabou, porque o post foi apagado este ano. Fiquei com raiva e compartilhei o post na minha timeline de madrugada e público. Quando acordei, vi que a repercussão foi grande.

Portal: Como o caso está agora?

Minhas amigas de ensino médio pararam de falar comigo, mas as da faculdade e outras ficaram compadecidas. Na minha família somos um tanto distantes, não conversamos muito sobre isso, mas meus pais pagam meu tratamento psicológico. Quem me apoia muito é o meu namorado. Eu tinha vergonha porque achava que era culpa minha, confiei demais no menino e na menina da internet, que no final era o garoto esse tempo todo. Expus minha vida. Foi com umas amigas que eu vi que isso acontecia com muitas meninas. Eu achava que as pessoas iriam me julgar, que iriam acreditar nas mentiras dele e não em mim. Vou trancar a faculdade também, ajeitar as coisas. Agora que o expus na internet, tenho um pouco de paz.

Por Walter Niyama (4o semestre)

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