Cartas na Mesa: Adriana Garcia e Natália Mazotte debatem jornalismo digital

Geral

Paulo Ranieri

Texto: Clara Guimarães (3º semestre), João Gabriel Freiria e Yasmin Salem (1º semestre) de Jornalismo

Fotos: Thales Kunsch e Caroline Panachão (1º semestre) de Jornalismo

 

“Jornalismo digital” é o tema do segundo programa da websérie Cartas na Mesa, que vai ao ar nesta quarta, dia 16 de maio. A ESPM-SP, em parceria com o Observatório da Imprensa, recebeu as jornalistas Natália Mazotte e Adriana Garcia em 15 de março, no programa Cartas na Mesa para discutir o tema Jornalismo Digital. Elas conduziram o programa em uma conversa que abrange as mudanças na profissão ao longo do tempo, big data, problemas da atual grade dos cursos de jornalismo, fact-checking e startups.

Mudanças da profissão

No início da conversa, Adriana Garcia destacou que na era pré-tecnológica as notícias eram entregues por poucos jornais, ou seja, o acesso ao conteúdo era restrito e, em sua maioria, pago. As mudanças com o surgimento da internet foram bruscas e causaram uma falha no plano de negócios.

A partir do momento em que a oferta de notícias aumentou, o preço pago por elas diminuiu, chegando aos dias atuais, em que não é preciso pagar para ter acesso a informações. Isso obrigou muitos jornais a procurarem diferentes soluções para sobreviverem. Segundo Adriana, além de cobrança de assinaturas por material jornalístico, outra saída adotada pelas empresas é a realização de eventos com um componente de conteúdo online.

“Hoje você vê as empresas de mídia no ambiente digital trabalhando a questão da publicidade, mas indo muito mais a uma proposta de valor ligado a assinaturas para tentar valorizar seu trabalho com os paywalls e tentando captar valor talvez até em meios offlines”, disse Adriana, sobre o novo modelo de negócios que empresas midiáticas começam a seguir.

Fact-checking

Além da mudança do plano de negócios, a era digital trouxe a necessidade de criação de uma nova área jornalística: a de checagem de fatos. Adriana afirmou que após a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, em 2016, ficou cada vez mais evidente a necessidade de um jornalista focado em analisar o que é verdade ou não.

Na enchente de notícias online, diferenciam-se aquelas que possuem um valor de credibilidade maior. Para a jornalista, desenvolver a sua marca, sem quebrar a confiança do seu leitor, é a chave para competir com o mar de informação produzidos diariamente. Por essa razão, as marcas tradicionais de empresas jornalísticas ainda persistem na sociedade.

Jornalismo de dados

Durante a entrevista, foi abordado o termo big data e sua utilização no meio jornalístico. ”O big data é uma fonte de dados de várias outras que temos e se torna relevante para o jornalismo com termos como jornalismo de dados, a partir do momento em que a forma que você vive na sociedade digital é uma dinâmica de produção de dados”, resumiu Natália Mazotte.

Não é novidade que jornalistas tenham blogs com suas matérias e opiniões no meio digital, mas o uso da internet ainda pode ir mais além. A utilização dos dados disponíveis no big data pode fazer com que o jornalista desenvolva melhor as suas matérias com uma análise concreta das informações lá presentes. Esse tipo de conhecimento inova e facilita a profissão.

Natália encontra ainda na profissão uma dificuldade dos jornalistas em se adaptarem a esse momento, como assimilar novas fontes de conhecimento e acrescentar matérias mais atuais, como a própria programação, na grade do curso de jornalismo. Segundo a jornalista, não é possível fazer frente à quantidade de acontecimentos atuais sem uma inovação na profissão de jornalista. Atuar com programadores ou ser seu próprio programador precisa começar a fazer parte do dia a dia do jornalista. Assim será possível aproveitar ao máximo todos os dados que estão disponíveis.

Jornalismo nas redes sociais

No clima de mudanças, as empresas jornalísticas precisam encontrar um meio de se encaixarem na internet; e a única forma de fazer isso é mudando a estratégia de negócios e posicionamento.  “Com o atual modelo das plataformas nas mídias sociais, e a migração dos meios publicitários para elas, cabe às empresas amplificar sua informação e gerar lucro por meio das plataformas”, disse Adriana Garcia. Ela citou ainda a centenária revista The Economist, que está renovando seu público após criar páginas em redes sociais. Ela citou também os jornais The Guardian e The New York Times, que segundo ela têm uma boa estratégia de divulgação nas redes sociais, o que ajuda em seu alcance em nível internacional.

As direções que o jornalismo vai tomar no futuro ainda não são possíveis de prever, mas Adriana afirmou que a necessidade de adaptação do meio jornalístico ao tecnológico é inevitável. “As redes sociais estão aí, mas pode não ser por elas, necessariamente, o futuro da divulgação de informação. Podem ser por outros meios ainda inexistentes”, afirmou. O que acontecer no futuro não muda o fato de que hoje em dia as redes sociais são um dos principais meios de disseminação das notícias.

Startups

Continuando na fase de adaptação aos meios digitais, é necessário para o jornalista a observação de um todo, disse Adriana Garcia. Participar junto com outros profissionais da elaboração, produção e monetização da notícia faz parte dessa nova era jornalística.

A antiga forma de fazer notícias, na qual o jornalista não participava de todo o processo, já não se encaixa na demanda do mercado. Por isso é necessária a aplicação do profissional para aprender sobre as novas ferramentas disponíveis no mercado, tanto para empreender quanto para exercer sua função em um grande veículo de comunicação, destacou a jornalista.

Em ambos os casos é visível que as metodologias ágeis de startups são aplicáveis para qualquer tipo de corporação. Elas agem de certa forma em conjunto com estudo e aplicação de métodos científicos para conferir se aquele modelo de negócios pensado é válido na prática. “É estabelecer uma hipótese de necessidade de mercado, ir a campo pesquisar e testar essa hipótese de maneira rápida, voltar para o laboratório e pesquisar mais e ajustar o modelo, de acordo com o que indicou a pesquisa de campo”, resumiu Adriana, relacionando a prática à criação de novos produtos jornalísticos.

Natália comentou que o fato de poderem testar diferentes planos de negócio e mudar de estratégia são algumas das vantagens das startups e das iniciativas de jornalismo independente, na comparação com as empresas tradicionais de comunicação, que têm menos agilidade da tomada de decisões à prática.

Acesso à informação

Pegando como gancho o caso recente de um secretário municipal da administração de João Doria na Prefeitura de São Paulo, que pediu a sua equipe que dificultasse o acesso de uma jornalista aos dados da prefeitura, Natália comentou sobre como a cultura do sigilo afeta negativamente o jornalismo. Ela avaliou que falta transparência, às vezes por questões políticas. Segundo a jornalista, a discussão da transparência dos dados vai muito além de divulgar processos e notícias. É importante que exista também uma transparência em relação ao algoritmo utilizado.

“Você tem hoje um algoritmo, por exemplo, que distribui os processos do STF, e você não sabe como esse algoritmo funciona. E existe uma questão que o algoritmo nunca é neutro, ele está sempre sujeito à subjetividade de quem programa”, explicou, citando o sistema do Supremo Tribunal Federal. Esse algoritmo citado por ela faz com que um caso seja processado mais rápido do que outro e não é possível entender a razão disso, a não ser que exista transparência.

 

 

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