Cartas na Mesa: Cíntia Gomes e José Cícero da Silva debatem jornalismo ativista e investigativo

Geral

Paulo Ranieri

Texto: Anna Victória, Heloisa Freitas e Luiz Felipe Mihich (1º semestre de Jornalismo)

Fotos: Guilherme Santiago (1º semestre de Jornalismo) e Íris Brito (3º semestre de Jornalismo)

Cíntia Gomes, repórter e editora da Agência Mural, e José Cícero da Silva, fotógrafo e videomaker da Agência Pública, são os convidados do quinto programa da websérie Cartas na Mesa, que vai ao ar nesta quarta, 6 de junho. Eles participaram da gravação do programa no dia 8 de março, na parceria do curso de Jornalismo da ESPM-SP com o Observatório da Imprensa. Na ocasião, Cíntia e José Cícero debateram o tema “Jornalismo ativista e investigativo”. Eles discutiram assuntos como o jornalismo e a periferia nas grandes mídias, o ativismo e a censura.

Voz das minorias

Ambos os jornalistas tentam trazer em seus trabalhos uma nova visão sobre as minorias. Buscam fazer uma abordagem com um olhar diferenciado e não estereotipado. “A grande mídia acaba se pautando muito no factual”, afirmou Cíntia. E completou: “A gente traz a voz do morador, porque muitas vezes a gente vê na grande imprensa que as pessoas são estereotipadas”. José Cícero disse que é uma responsabilidade muito grande dar essa voz aos lugares que normalmente não são ouvidos. Ele falou sobre casos que ocorreram em suas reportagens sobre pessoas que sempre disseram não ser ouvidas, como em uma matéria que produziu na Agência Pública chamada Amazônia Resiste. “As pessoas, querendo ou não, depositam uma certa fé que você vai trazer o problema para ser resolvido, resumiu José Cícero”.

Ativismo

Os profissionais também debateram sobre o jornalismo e o ativismo. Os jornalistas não se consideram ativistas. Eles diferem o ativismo de um jornalismo que fecha os olhos para o que acontece. “É difícil classificar o jornalismo como jornalismo ativista. Pode ser benéfico em algumas perspectivas, mas em outras não. Por exemplo: na questão política pode, por um lado ser bom, mas por outro cegar”, afirmou José Cícero. Cíntia completou.  “Eu defendo o jornalismo de qualidade. Produzir conteúdos de qualidade, buscar informações de qualidade. Às vezes, ao entrar no ativismo você pode perder isso e não dar a informação completa e necessária”, disse. Cícero se preocupa com o quadro político do país, já que às vésperas das eleições para a Presidência não há candidatos confirmados. “Vai ser uma eleição catastrófica.  Se você fizer um jornalismo ativista nesse momento, ficar defendendo bandeira de partido, é um pouco problemático”, afirmou Cícero.

Censura e perseguição

Para os jornalistas, a censura e a perseguição durante reportagens investigativas podem ser combatidas com uma boa apuração e tendo cuidado com as histórias que serão contadas. José Cícero exemplificou citando quando grandes empresas aparecem envolvidas em irregularidades. Segundo ele, nessas situações, são necessárias provas concretas, grande embasamento e apoio judiciário. “Por mais que venham situações em que as empresas queiram processar depois ou queiram censurar, dificilmente terão como fazer isso, pois você já está calçado. Agora, se estiver mal apurado ou a história não está embasada, existe uma chance maior da empresa querer processar”, explicou José Cícero.

Cidadania

“É fundamental entender o quanto o jornalismo contribui para a formação não só da cidadania, mas também das pessoas, das opiniões sobre determinados assuntos”, declarou Cíntia quando o assunto foi a formação da cidadania e do jornalismo. A jornalista ressaltou novamente sobre o quesito da qualidade da informação e exemplificou com as eleições, destacando a importância de fazer o leitor se informar e saber realmente o que é melhor para seu bairro.

Jornalismo de soluções

O jornalismo de soluções foi debatido a partir de visões diferentes. Para José, isso é perigoso. “Qual solução você vai propor para o outro? Pensando na perspectiva que eu trabalho, que é a violação dos direitos humanos, qual solução você vai propor para o outro? Você nem sabe se aquilo que está fazendo vai surtir efeito”, questionou. Já Cíntia relatou um caso de um colega que fez uma matéria sobre os buracos e enchentes da rua e após publicação procurou a prefeitura para avaliar a situação, o que solucionou o problema. Ou seja, para Cíntia, algumas vezes isso é possível. “O papel fundamental não é fazer isso, mas em algumas situações acaba contribuindo”, disse.

Flexibilidade do jornalista

Cíntia e José Cícero discutiram a importância de o jornalista ter aptidão para atuar em áreas diversa. Para eles, é preciso estar apto a mudanças. O ofício requer uma maior flexibilidade de quem vai atuar na área e maior disposição para atuar em diferentes vertentes do jornalismo.  “Os jornalistas acabam se especializando em algo, mas atuam em todas as áreas. Acho complicado se rotular”, resumiu Cíntia.

 

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