É preciso estourar a bolha: confira entrevista exclusiva de Djamila Ribeiro ao portal

Entrevistas

Edson Capoano

 

Djamila Ribeiro, que participou do debate sobre jornalismo e direitos humanos na ESPM-SP, em novembro. (foto: arquivo pessoal/Instagram)

Vivemos em um mundo onde o machismo, racismo, homofobia ainda existem e as visões das minorias são, muitas vezes, negligenciadas pelo jornalismo e suas realidades abafadas no mundos off-line e online, por comentários como “eu acho que...” e pelo o discurso de ódio que não é freado nas plataformas digitais. Por causa disso, Djamila Ribeiro (feminista negra, pesquisadora e ex-secretária adjunta dos Direitos Humanos) aponta que existe a necessidade dessas minorias se empoderarem, ou seja: pensarem coletivamente como criar estratégias e alianças para combater as estruturas que fazem esse sistema excludente permanecer.

Ela explica ao Portal sobre a urgência para os comunicadores se munirem de informações que representem o ponto de vista das minorias e por isso, devem procurar pessoas e fontes que entendam o assunto e de preferência vivenciem ele. Dessa maneira, a mídia conseguiria transmitir essa realidade para as pessoas entenderem e refletirem sempre sobre essas questões. Afinal, 'não se deve apenas pensar na mulher em março e no negro em novembro", segundo Djamila.

A reportagem entrevistou a pesquisadora, ativista e feminista negra sobre empoderamento feminino pelo jornalismo, a resistência nos ambientes acadêmico e de trabalho e sobre as visões da ex-secretária-adjunta sobre o futuro de São Paulo, em relação aos direitos humanos.

Em uma matéria para a Carta Capital, você escreve sobre o empoderamento feminino e a influência do nosso ambiente de trabalho para espalhar o empoderamento para outras mulheres. Quais seriam as formas de uma jornalista empoderar uma outra mulher, seja através do trabalho, do que ela escreve ou do que ela produz?

Se for jornalista, tem que procurar fontes de mulheres que possam falar sobre os mais variados temas e não só sobre o feminismo. Se ela é diretora de redação, como ela pode influir na contratação de outras mulheres e como criar ações que alguns veículos muitas vezes criam com universidades ou alguns institutos, e como essas criações se dão e se esses temas são trabalhados. Eu acho que existem várias formas para além do escrever. O escrever a gente acha que não tem força, mas tem muita! As vezes sobre o que a gente escreve e o modo pode influenciar e transformar muitas mentalidades.

A gente vive em um período em que a pesquisa acadêmica é muito desestimulada pelo o governo e sofre muitos cortes. Além disso, a gente sabe que o ambiente do mundo acadêmico, de trabalho e da pesquisa é muito machista e racista. Então, como você pode dizer sobre a sua resistência e o que você aconselharia para alguém que está começando a passar por isso.

Não é fácil estar nesse ambiente. É se perceber sozinha muitas vezes e sentir que nem sempre a sua presença vai ser bem-vinda. É o que eu sempre falo, o modo de resistir é resistir coletivamente: é você encontrar meios de se organizar com outras pessoas, criar coletivos e redes. Lá na UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo), a gente criou grupos de estudos, fazíamos debates, pressionávamos a universidade em relação a bolsas e a permanência estudantil. Eu acho que o único modo é se organizar coletivamente e não pensar que sozinho você vai fazer alguma coisa, porque não é só você que está passando por isso. Coletivamente a gente ganha mais força para pressionar.

A Secretaria de Direitos Humanos na qual você foi adjunta durante a gestão anterior, passa agora por muitos problemas, sobretudo com a questão da cracolândia e dos direitos humanos, que fez a antiga secretária, Patrícia Bezerra, se demitir. O que você enxerga para o futuro da cidade de São Paulo, em função da questão dos direitos humanos e da nova gestão?

Eu acho que o futuro vai se dar pela resistência e pela militância de quem está de fora. Infelizmente dentro da secretaria a gente já viu que várias políticas já foram desmanteladas e não existe de fato o interesse político em mantê-las, porque é outra perspectiva ideológica. Então, eu acho que a gente pode continuar pressionando, resistir de fora e fazer esse trabalho de base, conversando com as pessoas para a conseguir em numa próxima eleição, talvez ter um resultado diferente.

Infelizmente terminou a secretaria de igualdade racial, de mulheres e eram secretárias que não tinham equipamentos próprios. Sobre direitos humanos, a gente viu como foi tratado em relação a cracolândia ao demolirem um prédio com uma pessoa dentro. A gente sabe qual é a visão de direitos humanos que essas pessoas têm, e não é de valorização ao humano de fato. A gente precisa continuar pressionando e se organizando cada vez mais.

Por Sofia Nunes (2º semestre)

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