José Paulo de Andrade fala ao Portal de Jornalismo da ESPM-SP

Por Ludmila Candal (3 semestre)

“Bons profissionais sempre terão espaço nesse mercado tão atraente e concorrido”. É o que pensa sobre os futuros profissionais da comunicação o jornalista José Paulo de Andrade, âncora do programa “O Pulo do Gato” e “Gente” na Rádio Bandeirantes, que gentilmente conversou com o Portal de Jornalismo da ESPM-SP.

Com 54 anos em rádio, que mudanças em linguagem, conteúdo e público no rádio você percebe ao longo dos anos?

Quem mudou mesmo, nessas quatro décadas, foi o ouvinte. Anos 70, eram “anos de chumbo”, de ditadura, de censura, de poucos arroubos, tanto dos profissionais como dos brasileiros em geral. Era a “geração do medo”, da autocensura, muitas vezes pior do que a censura oficial, porque tolhia a criatividade e inibia a reação. No surgimento do programa, “ousávamos” com reclamações de ouvintes, sobre problemas pontuais, que interferiam na sua rotina de vida, foi  assim que surgiu a coluna “Boca no Trombone”, a vez e a voz dos que não tinham instrumentos para suas manifestações. Claro que a política ficava de fora. Desde sempre, a linguagem foi bem direta, a comunicação em rádio exige isso, para evitar que se perca o conteúdo. Procurei sempre acompanhar as mudanças, assimilando modismos e introduzindo palavras de ordem que se mantém até hoje, como “dia de batente, pulando da cama, gente”, “Olha a aula, olha a hora”, “falta pulso” (às autoridades de traseiros flácidos), e assim por diante. Para fechar, o ouvinte, que era contemplativo, hoje é muito, mas muito participativo, um crítico de tudo…

Como você enxerga o jornalista dos anos 60/70 e o de hoje?

Ouve-se de profissionais mais antigos que “naquele tempo é que era bom”, sobre o nível, o preparo dos jornalistas, a cultura geral, e de fato, analisando a formação  de alguns, notava-se a influência de uma boa escola, especialmente pública, impensável hoje com a universalização. Mas, os tempos mudaram e atualmente, para suprir deficiências de aprendizado, temos uma gama de recursos proporcionados pela Internet, desconhecidos na época. O bom profissional de hoje se iguala e até supera os de “antigamente”…

O que espera da futura geração de jornalistas que vêm chegando ao mercado?

A prática da democracia muda tudo, e as novas e futuras gerações se inserem num contexto diferente, em que se juntam contestação, cobranças, posições agressivas, acompanhando as insatisfações e desejos da sociedade. Estamos sujeitos aos maus políticos que dominam a vida pública brasileira, cargos que exercem ainda hoje temores reverenciais, é preciso romper o tênue limite entre respeito e subserviência, que marcam essas relações. As novas gerações, com a inquietude própria da juventude, têm todas as condições para romper essas amarras, levar adiante bandeiras que os mais experientes conseguiram levantar. Lembre-se a máxima do jornalista e pensador Millôr Fernandes, “jornalismo é oposição, o resto é armazém de secos e molhados”.

O horário em que seu programa vai ao ar influencia no tom de noticiar fatos mais “pesados”? Como dialogar com diferentes públicos logo às 6h da manhã?

É uma boa questão essa do horário do programa “O Pulo do Gato” (5:30 às 7:00). Há sim um cuidado em não “assustar” o ouvinte logo cedo, com vociferações e linguajar mais duro, é sempre bom acrescentar reportagens sobre temas mais leves, usar uma dose de bom humor, incutir otimismo, em relação ao dia que está começando, evitar que o ouvinte levante mal-humorado, xingando os familiares e chutando cachorros. Não é a mesma linguagem do outro programa de que participo, o “Gente”, das 8 horas, aí cabem assuntos e comentários mais “hard”. Há sim preocupação quanto à forma de comunicação, embora o conteúdo seja o mesmo de outros horários.

Recentemente, voltou-se a falar muito sobre censura aos meios de comunicação. Você já sofreu algum tipo de censura? Se sim, como reagiu?

O programa foi criado no auge da ditadura militar, governo Médici, de censura exagerada e descabida, não só aos órgãos de comunicação, mas a artistas em geral, era difícil a vida artística. Então, de censura entendemos. Havia a resistência possível. No caso do rádio e TV, concessões públicas, o cuidado era redobrado, qualquer coisa que pudesse ser interpretada como contestatória ao regime, poderia levar à suspensão, e até ao fechamento da emissora, ameaçando o emprego de colegas de outros departamentos não ligados diretamente ao jornalismo. Era um grande risco. Eu e meus colegas de Bandeirantes fizemos algumas “visitas” à Polícia Federal, por motivos que hoje consideramos risíveis, mas nada que tenha implicado em sanções mais drásticas. A emissora chegou a ficar fora do ar, certa vez nos anos 80, por ter noticiado uma greve de protesto. Para entender a estratégia para contornar proibições, usávamos várias vezes entrevistas com o então Secretário de Segurança Pública de São Paulo, coronel Erasmo Dias, que era boquirroto, como fonte de informação aos ouvintes. Regimes totalitários não aceitam a liberdade de imprensa, recentemente, houve um esboço de censura, com a proposta de criação de um Conselho de Jornalismo, anunciado como preventivo contra “ofensas, calúnias e falsas notícias”. Não prosperou. É bom desconfiar sempre de expressões como “democratização dos meios de comunicação”, porque, no fundo, está embutida a ideia de dominação por facções. Eu rechaço sempre essas ideias, repto seus defensores a apresentar um regime comunista ou socialista, que pratique a liberdade de imprensa. NÃO À CENSURA!

Para você, é aceitável que um jornalista se posicione politicamente no exercício do seu trabalho?

Com a abertura democrática, é aceitável, e até desejável, que o jornalista assuma publicamente suas posições políticas. Na maior democracia do mundo, a norte-americana, isso acontece. O que não se deve aceitar é a desonestidade profissional, posições político-partidárias estipendiadas, como jornalistas de alguns “blogs”, pagos para dizer o que o “senhor” manda. No meu caso, sou conservador, mas não reacionário, o que me baliza é que vivemos AINDA, sempre ressalto isso, num regime capitalista e, portanto, rechaço qualquer pregação que não seja no sentido de aperfeiçoá-lo, como a rançosa conversa de esquerda, cujos pregoeiros ocultam suas reais intenções de alcançar o poder discricionário, quase descambamos por esse rumo. Qual regime socialista permite livre manifestação em favor do capitalismo? Vicente Leporace, uma referência jornalística, em seu programa “O Trabuco”, da Rádio Bandeirantes, nos anos 60, proclamava, alto e bom som “…corintiano e ade marista…” . E foi uma das grandes audiências de rádio, o que mostra que revelar-se é até um bom “truque” para cativar plateias.

Como o jornalista pode ser atingido pela Lei da Terceirização?

A terceirização, como aprovada pela Câmara Federal, é um grande risco para o trabalhador, não só para o jornalista. Abre brechas, que maus empresários poderão aproveitar para precarizar ainda mais as relações de trabalho, já tão prejudicadas em razão da retração econômica. O jornalista já convive com a “pejotização” (abertura de firma própria), cada vez mais praticada, que preserva alguns dos direitos trabalhistas, importante para aqueles que não têm vínculos diretos com nenhum de seus contratantes, os “freelancers”. Bons profissionais sempre terão espaço nesse mercado tão atraente e concorrido.

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