O que vi e vivi na maior favela da África: do choque inicial ao carinho hospitaleiro

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Juliana Aguiar

Viagem voluntária no Quênia (Jul/2018). Foto: Juliana Aguiar.

É difícil imaginar uma maneira de como ajudar tanta gente. Mas já tinha uma missão traçada por ali: ajudar o grupo Wamama Sacco, meninas que ficaram grávidas muito novas e, portanto, tiveram que abandonar a escola e toda a sua educação para, sozinhas, cuidarem de seus filhos. Iniciaram precocemente suas vidas profissionais, mesmo sem formação no ensino médio e, por isso, tem bastante dificuldade em conseguir emprego.
A sensação quando se chega a Kibera, comunidade do Quênia, é de choque pelo mau cheiro e as condições de extrema miséria. Quando vi a falta de estrutura, esgoto a céu aberto e toneladas de lixo por toda parte, só conseguia pensar como dois milhões de pessoas moravam ali.
O local é considerado a terceira maior favela do mundo, com cerca de 2,5 milhões de habitantes, que vivem com uma renda de menos de U$1,00 por dia, e expectativa de vida de apenas 45 anos.
Segundo dados da Wikiwand, este assentamento informal é o lar de um quarto da população da capital Nairóbi e é composta de 12 municípios que são flagelados pelos mesmos problemas de pobreza, sanitarismo precário, falta de coleta de lixo, saneamento básico, saúde ambiental, “construções temporárias” e HIV/Aids.
A Volunteer Vacations aponta meninas de 14 a 20 anos de idade, que não possuem, em sua maioria, estrutura familiar. Precisam ser empoderadas com ferramentas e habilidades de gestão para que possam ter negócios mais bem estruturados, mais duradouros e que de fato forneçam uma renda mensal substancial e enxergam no empreendedorismo a melhor solução para terem uma fonte de renda.
Dessas mulheres, uma chamou a atenção. Rose tem 23 anos e vendia cebolas perto de sua casa. Sem aporte, as cebolas ficavam no chão. No último dia em que distribuímos dinheiro para que conseguissem estruturar um pouco dos seus negócios, ela comprou um carrinho e sacolas plásticas para colocar o produto, e, por incrível que pareça, gastou menos do que lhe foi dado.

Viagem voluntária no Quênia (Jul/2018). Foto: @0nelegend.

Ela já morou na rua, passou fome e recitou um poema sobre quando estava nessa situação. Sempre estava à frente das outras, chamando a atenção por sua espontaneidade. Ao ser perguntada sobre seu maior sonho, respondeu que era por seus dois filhos na escola.
Alguns voluntários ficaram emocionados com a sua história e se dispuseram a ajudar na educação de seus filhos. Dois resolveram “apadrinhá-los”, ou seja, pagar sua escola até a conclusão do ensino médio. É uma linda ação, o que torna mais possível ainda pelo valor. Custam 100 dólares para financiar uma criança na escola durante o ano todo. E, mesmo assim, as mães não conseguem pagar.
A principal intenção era explicar a melhor forma de educar e formar uma criança, já que muitas delas foram mães ainda quando crianças. Apesar dos contratempos de uma favela cercada de pobreza, o sorriso prevalecia no rosto daquelas meninas mulheres, que usavam a dança como válvula de escape. No começo, foi o choque, mas, depois de três dias, já me sentia em casa. O povo africano é hospitaleiro. Como diz em swahilli, a língua local do Quênia, Nakupenda (saudades).

Viagem voluntária no Quênia (Jul/2018). Foto: @0nelegend.

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