Crianças e adolescentes adotados ganham nova chance de integrar uma família

Família comemora em Brasília o Dia Nacional da Adoção | Foto Antonio Cruz/Agência Brasil

Família comemora em Brasília o Dia Nacional da Adoção | Foto Antonio Cruz/Agência Brasil

 

Isabella Sarafyan
Laura Stabile
Marina Cassiolato
Renata Mendes

 

»»» Eduardo estava classificado como inadotável. Em um abrigo para crianças de até quatro anos de idade, o menino era o único com 13. Além da idade, o fato de ser negro agravava a sua situação. O tempo estava contra ele: a cada dia que passava, diminuía a oportunidade de encontrar uma família.
Mas sua história, que parecia destinada a um final infeliz, mudou em dezembro de 2014, quando a enfermeira Márcia Vieira, de 52 anos, foi até o abrigo Cantinho da Meimei, em São Bernardo do Campo, para doar pertences de seus filhos mais velhos. Então ela soube da existência de Eduardo e reacendeu o antigo sonho de adotar uma criança. “Já era uma ideia que eu tinha quando eu estava casada, que quando os meninos estivessem mais velhos, eu adotaria uma criança”, lembra.
Uma semana depois, levou seus filhos Cyro e Beatriz, de 25 e 21 anos, respectivamente, até o abrigo para que conhecessem Eduardo. Era para ser apenas um primeiro contato entre todos eles, ainda não havia uma ideia concreta sobre a adoção, mas a conexão foi imediata. Márcia lembra que, ao final do encontro, perguntaram a Cyro como ele se sentia. “Ah, é meu irmão, né? ”, teria dito, segundo relato da mãe, com lágrimas nos olhos.
O irmão mais velho se recorda do primeiro momento com o caçula. “Quando a gente se conheceu, eu vi que ele gostava de videogame e futebol, então a gente já começou a conversar”, conta. Apesar de tímido, Eduardo logo abraçou Cyro e deu risada. “Ele sempre foi muito quieto, mas eu sempre tive afinidade com criança, então sempre tentei deixar tudo o mais leve possível. Queria deixar bem claro que, para mim, ele sempre vai ser um irmão. É como se ele tivesse nascido da minha mãe”, conta o mais velho.
A partir de então, Eduardo foi se reencontrando com a esperança. O processo da mudança do antigo para o novo lar foi rápido, mas gradual. Como era matriculado em uma escola em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, o menino passou a conviver com a família apenas aos finais de semana.
Assim que sua guarda provisória foi oficializada, em abril de 2015, Eduardo ganhou uma nova família e a chance de construir um futuro melhor. Caso permanecesse no abrigo, ele teria que ir embora ao completar 18 anos ou, na melhor das hipóteses, conseguiria um emprego dentro do próprio lar. Agora, em sua nova escola, na qual tem uma educação de qualidade, Eduardo tem muito mais oportunidades pela frente.
A falta de esperança e de estímulo também influenciava na vida escolar. O menino, enquanto cursava a sexta série do Ensino Fundamental público, mal sabia escrever e apresentava muitas dificuldades em matemática. “Quando chegou na nossa casa, ele já não ligava para a escola e não fazia mais os deveres, porque não tinha ninguém que olhasse”, conta Márcia.
Hoje, depois de sete meses, com a ajuda de um professor particular e de uma psicóloga, suas notas vêm evoluindo, assim como ele. E agora já sonha: Eduardo quer ser engenheiro. Junto com Márcia, Cyro e Beatriz, o mais novo dos Vieira está completando algumas lacunas que, até então, não conseguia preencher.

Portas
No abrigo, Eduardo dormia com mais 20 bebês e crianças de até 4 anos. Ao chegar à nova casa e perceber que teria um quarto só para ele, a primeira coisa que fez foi entrar e fechar a porta. Em 13 anos, era a primeira vez que poderia fazer isso, era a primeira vez que ele tinha sua própria porta. Com isso, a privacidade foi sua primeira descoberta.
Tudo o que imaginamos ser tão simples, tão corriqueiro e tão parte do cotidiano, para ele era uma surpresa. O garoto também não sabia ao certo o que era um elevador, desconhecia inúmeros tipos de comida e jamais pisara em um cinema. Outras portas se abriram: Eduardo também aprendeu a usar o computador e ganhou seu primeiro celular.
Todos os dias ele vem descobrindo o mundo e a si mesmo. Está conquistando, a cada dia, independência e confiança próprias. Ele vai e volta sozinho da escola. “Ele vai à padaria comprar as coisas. Antes, não sabia nem como pedir, agora ele já sabe, a gente ensinou”, relata a mãe.
Com o passar do tempo, Eduardo começou a entender que aquela era, de fato, sua própria casa, sua própria vida e sua própria família. O que antes ele conhecia como coletivo, agora é singular. Passou do abandono para ser querido. E, além das descobertas materiais, hoje ele conhece também outros sentimentos. Eduardo se apropriou do conforto, da liberdade, do pertencimento e da afinidade, sensações que ele nunca havia experimentado com muita profundidade.

Lembranças
Apesar do presente feliz, Eduardo carrega consigo o fardo do passado. Com um pai alcoólatra e agressivo, ele e seu irmão autista foram deixados também pela mãe. Sua avó, que era a única capaz de ajudá-lo, estava sempre doente, até que o levou ao abrigo.
Enquanto conviviam com os pais biológicos, ele e seu irmão eram alvo de violência física pelo próprio pai. O irmão era quem mais apanhava, mas Eduardo também sofria, pois estava lá para ver tudo. Hoje, com os mesmos olhos que enxergavam a violência, o menino tímido de São Bernardo consegue vislumbrar uma família completa que proporciona carinho e afeto.
Quando surgiu a possibilidade de ser adotado, houve muita pressão em torno dele. Márcia conta que no próprio abrigo diziam: “Esta é sua última chance, não dê problema, não faça nada de errado”. Tudo parecia, então, ser muito assustador para uma criança que, durante toda a sua vida, vira amigos sendo devolvidos ao abrigo após adoções fracassadas. Algo realmente pavoroso.
Afeto
A psicóloga Denise Maia, especialista em crianças, afirma que hoje em dia percebe-se cada vez mais a importância do vínculo afetivo, seja por parte da figura dos pais ou dos cuidadores em lares adotivos. É essencial que a criança se sinta acolhida desde a barriga da mãe, uma vez que a construção dos laços afetivos acontece desde o primeiro momento da criança durante a vida uterina. Entretanto, essa é uma situação idealizada. A realidade é que, atualmente, cerca de 36 mil crianças brasileiras vivem em abrigos, segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), sem contar os incontáveis casos de crianças vítimas de violência doméstica.
Denise explica que uma criança adotada já traz dentro de si um sentimento de rejeição, de abandono, independentemente da situação que levou ao abandono. Entretanto, esse trauma pode ser diminuído quando a criança é adotada por uma família afetiva, que a entenda e a acolha. Normalmente, essas são crianças com necessidade de acompanhamento psicológico, assim como suas novas famílias, que precisam de orientação durante o processo de adaptação. Os pais adotivos precisam estar disponíveis e atentos à criança.
Quando adotada, a criança passa a perceber e aceitar que apesar do fato de ter sido rejeitada pelos pais biológicos, teve pais “de coração”, que a escolheram. Esse é o primeiro passo em direção à reparação. O trabalho psicológico e uma escola adequada também são fundamentais para a superação do trauma.
Por outro lado, a psicóloga esclarece que às vezes, mesmo em um abrigo, alguma cuidadora acaba desenvolvendo um laço afetivo especial com uma criança. Assim ela se sente olhada, escutada, atendida e cuidada, e é isso que a ajuda a se fortalecer para ser capaz de lidar com os vínculos futuros, e principalmente com essa rejeição inicial.
Sem se sentir acolhida, a criança pode ter dificuldades na escola, no estabelecimento de vínculos e na autoestima. Entretanto, Denise afirma que a criança possui mecanismos para lapidar todo o sofrimento pelo qual passou e lidar com o trauma do abandono. Apesar de um modelo e da presença da família serem fundamentais, a criança não terá necessariamente uma personalidade igual à dos pais biológicos.
Em relação à situação dos lares adotivos, o ideal, dentro do possível, é que se possa orientar melhor os cuidadores para que sejam bem formados, diz a especialista, e incentivar que olhem para cada criança individualmente. Isso porque elas costumam ser muito sensíveis e empáticas, uma vez que trazem uma ferida psicológica. Em uma situação de convívio com várias crianças em abrigos, podem ser cuidadoras umas das outras, pois se encontram em posição de semelhança.
Caminho
Cada dia é um passo novo na adaptação à nova vida. A mãe conta que Eduardo chegou bastante limitado, era tímido, retraído e carregava muitos medos. Com afeto, toda a família o ajuda a reconstruir e reestabelecer suas relações pessoais. “Ele sabe que teve um passado, mas a gente está vivendo assim: daqui para frente”, diz Márcia.
O contato com os irmãos é mais natural, porque, até então, Eduardo considerava todas as crianças do abrigo como sendo seus irmãos. Já com a mãe, a construção da intimidade é mais vagarosa. “A gente está se conhecendo, sem tentar forçar nada”, conclui a mãe.
Para o futuro, a expectativa de Márcia é que Eduardo supere os traumas do passado e seja feliz, tenha sua própria família. A mãe quer garantir ao filho mais oportunidades para poder sonhar. As pessoas que convivem com a família costumam dizer que Eduardo deveria ser grato a eles, mas Márcia garante que o filho dá muito mais do que recebe. “A minha palavra para ele é gratidão”, confessa, emocionada. Ela viu a experiência da adoção como uma oportunidade para melhorar como pessoa, deixando de lado a possibilidade de ter uma vida superficial. Eduardo chegou à casa nova com um saco de lixo contendo algumas peças de roupa. Tudo o que ele tinha de material cabia ali. Com o tempo, esse saco fica cada vez mais cheio, não só de pertences, mas de novos planos para o futuro. Existem muitos Eduardos no Brasil. O dessa história reencontrou a esperança. “Parece que já era para ser”, diz o irmão mais velho.

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