A Banalidade do Mal

Edição 14 - Lute Como uma Garota

Portal de Jornalismo

por Paula Jacob

Desde que os aparelhos celulares ganharam câmeras, as mensagens de texto se tornaram populares e as redes sociais foram criadas, o assédio virtual virou um comportamento comum dos usuários. No início, muito pelo fato de que existia uma persona virtual e outra real, uma sensação de anonimato generalizada.

Segundo o site Cyberbullying.org, o assédio virtual “é uma prática apoiada no uso de tecnologias de informação e comunicação para dar vazão aos comportamentos deliberados, repetidos e hostis praticados por um indivíduo ou grupo com a intenção de prejudicar o outro”. Contudo, para além de xingamentos imaturos e polarização política – temos bons exemplos disso, considerando o ano de eleições no Brasil –, o assédio virtual se tornou uma prática muito comum em casos de relacionamentos abusivos, com o “revenge porn” (vídeos e/ou fotos íntimas vazadas sem o consentimento da vítima), e a perseguição de pessoas por motivos ideológicos quaisquer, tornando a mulher o alvo da difamação online em 95% dos casos, como estima a ONU.

Em fevereiro de 2018, Lucila Longo, RP da Moleskine, sofreu assédio moral via redes sociais após um email seu enviado à blogueira do #Deu Ruim ir a público. Nele, ela explicava à blogueira literária que um de seus colaboradores havia mencionado “Moleskine” incorretamente – de acordo com as normas internacionais da empresa, é função dos funcionários de comunicação esclarecer que qualquer caderno não é um Moleskine e vice-versa, porque quanto mais pessoas fizerem essa associação errônea, menos direitos sobre o próprio nome a companhia tem. Anexou o termo global da marca, mas, em poucas horas, a destinatária postou o print do que lhe foi enviado na página do blog no Facebook, com mais de 300 mil seguidores, sem preservar a identidade de Lucila. A imagem acompanhava a descrição: “Quanta arrogância da Moleskine!!! Confesso que peguei ranço, viu? Mas agora farei questão de comprar caderno, caderneta, agenda, e nunca mais Moleskine. Pq marca arrogante eu não faço a menor questão de ter”. Em poucos instantes, a publicação viralizou nos diversos grupos de comunicação do Facebook.

– Vaca.
– Burra.
– Ignorante.
– Que Deus leve essa menina.
– Me dá a sua vaga.
– Moleskine me contrata.

“90% desses xingamentos foram feitos por mulheres”, comenta Lucila, enquanto os lê em voz alta. E então suspira: “É… ódio gratuito”. Por menor que possa parecer hoje para ela, “são apenas comentários no Facebook”, na época, a pressão psicológica causada afetou a sua rotina, autoestima e vivacidade. “Fiquei sem comer por dias. Vivia apenas de cigarros, café e água.” O buraco dentro do estômago, que ela descreve como primeiro sentimento ao ver aquele post, a consumiu durante as duas semanas seguintes. “É o famoso ciclo vicioso do pensamento negativo. Meu próprio corpo vai se comendo. Já eu, não tinha fome.”

Enquanto o telefone das agências que Lucila havia trabalhado não paravam de tocar, a busca pelo seu nome no Linkedin aumentou 162% naquele período. Eram mensagens de ódio na caixa de entrada do email e nos perfis nas redes sociais – “só não me marcaram no Twitter, porque não tenho um, mas o assunto virou trend topic do dia” –, ao passo que amigos, colegas profissionais e familiares surgiram como conforto. “A única coisa que pedi para os que vinham falar comigo era para não se envolverem nas postagens, não me defenderem nos comentários, porque não queria que aquilo se estendesse para outros lados”, explica. A Moleskine, por sua vez, se posicionou a favor de sua funcionária e o coordenador internacional de comunicação de Nova York perguntava constantemente sobre o estado físico e mental de Lucila.

Eram dez anos de experiência no mercado que pareciam escapar pelos dedos da jornalista. “A internet dá um poder para as pessoas que jamais foi imaginado. Elas não conseguem enxergar um ser humano atrás da tela, somos todos tratados como máquinas. Eu deixei de me ver como profissional. Me senti um peão no jogo da vida e, hoje, ainda trabalho no automático, com medo de alguma coisa ruim como essa acontecer novamente. Isso mexe com a gente.” Para evitar futuros desdobramentos, a coordenadora da marca achou de bom tom trocar o contato de trabalho de Lucila para um mais genérico: comunicacao@moleskine. E, em casos específicos, pediu para que a assinatura fosse retirada do conteúdo do e-mail. “Preciso voltar a acreditar em mim, minha identidade foi retirada sem a minha autorização”, reflete. “E me espanta também ver que, mesmo com o aumento do número de pautas em torno do assédio virtual em veículos de grande alcance, as pessoas seguem com esse tipo de comportamento. Parece que nada é o suficiente, as pessoas não leem mais.”

Entre os colegas que a auxiliaram no primeiro momento do caos, uma amiga sugeriu o contato de um advogado especializado em causas de redes sociais. “A internet virou uma terra sem lei. Os usuários que atacam o fazem porque ninguém os pune; os usuários que são atacados temem expor e piorar a situação. No meu caso, eu tive medo de afetar a minha carreira. Eu era a vítima e estava me culpando de coisas que não deveria. Estava questionando a minha própria experiência profissional, a minha capacidade intelectual, a minha formação”, desabafa.

O advogado, após recolher todos os prints que Lucila tinha salvo, confirmou que o comportamento era de abuso moral, exposição e difamação online, e o material serviria como base para o processo. Até o presente momento, a vítima não entrou com o recurso, porque quer esperar deixar o cargo na empresa, considerando que, desde o começo, a briga não foi entre a blogueira e a Moleskine, mas entre a blogueira e a Lucila pessoa física. “A partir do momento que o problema tem um rosto, as pessoas vão falar mal. Não importa o tanto que batam na Coca-Cola, ela é uma marca, ela continua sendo o refrigerante com o maior número de vendas. Eu sou a Lucila Longo. Eu não dormi por dias lendo os comentários às 4 da manhã. Eu não comi por duas semanas. Eu não sou a Coca-Cola, eu sou um ser humano”, pontua ela. “A internet tem um potencial imensurável para espalharmos mensagens positivas, formarmos grupos de auxílio entre mulheres, mas ainda não chegamos lá. Estamos vivendo momentos de marcação de alvos. Temos que estender as mãos umas para as outras e não nos atacarmos.”

Do ponto de vista legal

Pensando nas mulheres vítimas do assédio virtual, tal como Lucila Longo, a ONG Think Olga e o Facebook lançaram no primeiro semestre deste ano o Conexões que Salvam. A plataforma em prol da saúde mental das vítimas conta com diversas informações sobre o que é o assédio virtual, como identificá-lo e como proceder quando você é a vítima. Indica, em forma de passo a passo, para quem ligar, quando ligar, como reagir e a quem recorrer em horas como essa. Lembre-se, você não tem culpa da violência no rodapé do hotsite.

Além de dados sobre delegacias da mulher espalhadas pelo país, o Conexões que Salvam disponibiliza também o contato do Coletivo de Juristas Feministas. Ao serem contatadas para a elaboração desta reportagem, as organizadoras da página encaminharam o telefone de Mariana Valente, advogada, membra do coletivo, diretora e pesquisadora do InternetLab, “centro independente de pesquisa interdisciplinar que promove o debate acadêmico e a produção de conhecimento nas áreas de direito e tecnologia, sobretudo no campo da Internet”, como descrito no site.

“Não acredito que chegou a esse ponto”, exclama ela ao saber que a jornalista foi até xingada de “puta” e “vaca”. “O problema da internet não é a falta de lei, porque ela existe e ela pune as pessoas que cometem os crimes online. O grave é chegar nas autoridades para tentar abrir um B.O. e ver a vítima ser minimizada pelo assédio ter acontecido na internet. Já escutei de tudo, inclusive que bastava fechar o computador que tudo se resolveria – a gente sabe que não é bem assim.”

As consequências de assédios morais, sexuais e difamação na internet são reais, mas o abusador não tem o contato direto com a vítima, o que o dá a sensação de poder. “As pessoas não fazem isso porque acham que não tem lei, elas fazem isso porque não há um contato físico com a vítima, elas não estão vendo no rosto do outro as reações aos seus comentários. Dificilmente uma pessoa que xingue e humilhe a outra nas redes sociais faria isso pessoalmente. E não adianta dar a velha desculpa do ‘anonimato digital’, porque hoje em dia todo mundo coloca foto e nome na internet. É a potencialização da experiência descorporificada, a mediação da tela deixa tudo mais ‘fácil’”, explica a advogada.

No caso de Lucila, Mariana afirma que é possível fazer a denúncia e processar as pessoas que causaram a difamação, mas ressalta que existem outras questões envolvidas, como o custo de um processo e a demora para a resolução do mesmo. “É triste pensar, mas até a Justiça parece não ser a melhor coisa nessas horas. O que fortalece a minha crença de que precisamos discutir cada vez mais publicamente os efeitos concretos desses ataques”, diz.

Apesar de o cenário brasileiro não ser dos mais otimistas, Mariana Valente aponta para uma direção na qual a internet também ajuda. “Da mesma forma que a plataforma permite que exista esse tipo de pessoa, ela também mostra uma menor tolerância em relação aos assédios, portanto, um aumento nas denúncias de casos como esse ou assédios sexuais e morais. A internet dá espaço para o fortalecimento das pautas de aceitação, acolhimento e sororidade. A exposição de problemas ameaça o status quo e ele reage de forma agressiva”, completa a advogada.
Injúria e difamação são considerados crimes de menor potencial ofensivo, com penas baixas, e tratados no Juizado Oficial Criminal. “A ideia é punir por outros meios, porque não precisamos de mais presos, mas isso é uma outra discussão”, alerta Mariana. Prestação de serviços à comunidade e indenização monetária são as penas mais comuns em casos como o de Lucila Longo.

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