Alunos vivem experiência intensiva de reportagem

– Crise de representação? Será que isso vai dar certo?

Todos receberam o tema da nova edição da revista Plural com apreensão. Entre professores, questionava-se se os alunos teriam maturidade para lidar com uma questão tão complexa. Entre os alunos, o tema parecia distante. O que aquilo significava?

Mas o editor da revista, professor Renato Essenfelder, insistiu no projeto. O tema estava presente no dia a dia do brasileiro, por conta das manifestações iniciadas em junho, e não poderia passar batido por nós. Teríamos a chance de narrar a história do presente, como verdadeiros jornalistas.

A aluna Catharina Obeid cobre manifestação | foto Renato Bonfim

A aluna Catharina Obeid cobre manifestação | foto Renato Bonfim

 

No dia 16 de agosto, os alunos do terceiro semestre interessados em participar da produção impressa se reuniram na Agência de Jornalismo da ESPM-SP. Inicialmente, 22 pessoas se candidataram à tarefa de produzir o quarto número da revista Plural. As pautas foram decididas em conjunto, e os grupos foram divididos para tocarem nove temas propostos.

Nossa primeira tarefa foi cobrir uma manifestação. No 7 de Setembro, seis alunos foram às ruas acompanhar as particularidades do protesto iniciado no Masp, na avenida Paulista. O objetivo era capturar imagens e entrevistas. “Ainda no Masp, gravei alguns depoimentos, fotografei e conversei com algumas pessoas”, conta o aluno-repórter Douglas Clementino, 24 anos.

Nossas pautas demandavam fontes que, sabíamos, seriam difíceis de contatar. Adeptos da tática Black Bloc, por exemplo. Conquistar a confiança dos entrevistados não foi tarefa fácil. “Abordávamos eles e as respostas eram sempre as mesmas: como posso confiar em você? Como vou saber que vocês não irão manipular a matéria?”, lembra Douglas.

A estudante Giovanna Hueb, 19 anos, explica que era preciso ficar atento a detalhes na hora de abordar personagens das manifestações. “Tudo ali contava. A roupa, os objetos, o modo de falar, tudo isso poderia influenciar no modo como éramos vistos pelos integrantes. Mas no fim deu tudo certo”.

As dificuldades para conseguir entrevistas também estiveram presentes na pauta sobre o MPL (Movimento Passe Livre). “Escolhi essa matéria justamente porque eu conhecia alguns envolvidos do movimento e achei que seria fácil entrar em contato”, afirma Lara de Oliveira Santos, 19 anos. No entanto, as conversas com os integrantes do grupo foram canceladas diversas vezes. “Ficamos por mais de um mês contatando inúmeras pessoas do MPL. Entrevistas foram desmarcadas e fomos ignoradas várias vezes. Até que o Marcelo Hotimsky finalmente conseguiu nos atender”.

Medo

Ir às manifestações, para Giovanna Hueb, foi uma dessas experiências que trazem ao mesmo tempo receio e aprendizado. “A sensação de ouvir bombas de efeito moral estourando é angustiante, e não saber onde essas bombas vão cair é mais ainda. Mas tudo aquilo precisava ser relatado, e a câmera fotográfica era a nossa maior arma”, relata.

Após pouco mais de três meses de trabalho e agora com 17 integrantes, podemos concluir que a Plural nos proporcionou experiências inéditas e reforçou a ideia de que a persistência é um dos principais atributos para um bom jornalista. Persistência que esteve presente desde o início, quando defendemos um tema julgado complexo demais, até os momentos em que insistimos em entrevistas e na participação em manifestações para entender melhor o fenômeno.

 

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