Aplicativos se transformam em espécie de memorial de pessoas já mortas

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Da Redação

NATALIA PICANÇO

»»»É impossível negar que as mídias sociais fazem parte das nossas vidas, mas você já parou para pensar o que acontece com o perfil virtual de um indivíduo depois que ele morre? Pode parecer uma pergunta estranha, mas, na verdade, ela é cada vez mais atual: hoje, em vez de armazenar recordações fisicamente dentro de nossas casas, fotos, vídeos e cartas foram digitalizados.

O homem sempre sonhou com a vida eterna, e as redes sociais tornaram esse desejo possível.

Diversos aplicativos e programas prometem solucionar, atualmente, o dilema dos que querem manter vivo um perfil pós-morte. Eles repassam sua conta para herdeiros, permitem que sejam divulgados vídeos e recados previamente gravados e dão a opção de o perfil continuar ativo ou ser deletado.

O mais popular atualmente é o aplicativo do Facebook If I Die. De acordo com Erez Rubinstein, do departamento de marketing da empresa, o aplicativo é o único desse gênero e já conta com mais de 150 mil usuários e é esperado que até o final do ano o número chegue a 2 milhões. Ao ser instalado em sua conta, o programa,  permite que seja repassada uma mensagem somente após sua morte. Para tal, é necessário que sejam escolhidas pessoas de confiança que confirmarão sua morte. Rubinstein conta que há cerca de 5 mil brasileiros que já usam o aplicativo.

A ideia surgiu depois que um casal de amigos do criador do aplicativo,Eran Alfonta, sofreu uma experiência de quase morte. Alfonta percebeu então que a morte poderia vir em qualquer lugar a qualquer hora, e para isso, as pessoas deveriam se preparar previamente, deixando recados e instruções para familiares e amigos.

Lápide no cemitério Santo Amaro, na zona sul de São Paulo | Foto: Natalia Picanço
Lápide no cemitério Santo Amaro, na zona sul de São Paulo | Foto: Natalia Picanço

 

Outra opção é o deathswitch.com. Com o lema “Superando a morte”, a empresa possui um programa que periodicamente faz check-ups para ver se o usuário está vivo. Caso o indivíduo não responda e um conhecido seu, previamente estabelecido, o confirme como morto, serão liberados dados para seus destinatários específicos. Essa empresa, que se apresenta como uma “seguradora de informação”, preza para que arquivos críticos de trabalho e contas bancárias possam ser acessados após a morte do indivíduo.

Também podem ser deixadas mensagens de últimos desejos, segredos, instruções para o funeral, entre outros.

O tema vem se tornado tão comentado, que já existe até mesmo um livro sobre o assunto. Escrito por Evan Carroll e John Romano, o livro “Your Digital Afterlife: When Facebook, Flickr and Twitter are your Estate, What’s your Legacy?”(ainda não traduzido para o português) visa que seus leitores e usuários de redes sociais já considerem o que ocorrerá com seus perfis virtuais após sua morte,  dando recomendações para assegurar seu patrimônio virtual. O valor do livroé U$15,50.

 

Reprodução da página do Facebook do aplicativo If I Die
Reprodução da página do Facebook do aplicativo If I Die

 

Forma de conforto

Existe também a opção de o perfil de um falecido nas redes sociais ser apagado. O Facebook, rede social mais utilizada, possui duas opções: o perfil pode ser deletado  ou se tornar um memorial. A família, ou amigos, sob pena de perjúrio, declaram o óbito da pessoa e podem decidir o que farão com a conta.

A ideia do perfil memorial é a que se tornou mais popular. “Quando alguém querido nos deixa, ele não deixa de existir na nossa memória nem nas nossas redes sociais. Como reflexo dessa realidade, criamos a ideia do perfil “memorial” como um lugar em que as pessoas podem guardar e dividir suas memórias de quem faleceu”, escreve Max Kelly, chefe do departamento de segurança, no blog oficial da empresa.

Com a transformação do perfil em um memorial, algumas informações do falecido são removidas, e a conta fica bloqueada para quem não está na lista de amigos. O mural do Facebook se torna um mural de recordações.

Muitos acham certo conforto nesse tipo de escolha. Luana Medina e Danielle Goldich, ambas estudantes de 20 anos, perderam um amigo em 2008 em um acidente de carro. “Escrever no mural dele era muito confortante. Eu nunca acreditei que ele estaria lendo, mas era um jeito de eu descarregar tudo o que eu queria dizer para ele. Quando alguém morre, você fica pensando se falou tudo que queria ter falado para ela, e eu escrevia para de algum jeito compensar por tudo que não foi dito”, conta Luana.

Para Danielle, era como se ele conseguisse ouvir a dor e a saudade que ela sentia. “Acredito que era um meio de  me comunicar, rezar e mostrar o meu carinho por ele. Poder ver suas fotos me confortava, pois assim eu parava para pensar como ele viveu intensamente.”

De acordo com o professor e pesquisador na área de psicologia do desenvolvimento e de psicologia da morte Aurélio Melo, tornar o perfil um memorial é um jeito de lidar com a realidade, virtualmente. “Talvez seja em parte algo novo, mas isso lembra muito a lápide ou o jazigo da pessoa querida, que, depois de enterrada, recebe homenagens de tempos em tempos. Nas redes sociais seria algo semelhante: as pessoas podem visitar o perfil, relembrar a pessoa e deixar mensagens.” Melo acredita que esta é uma maneira de conforto e de manter um vínculo com a pessoa morta, minimizando a dor e a saudade.

Para o professor, manter o perfil ativo do falecido pode ser  benéfico ou prejudicial, dependendo do indivíduo. “Há pessoas que podem se apegar exageradamente, agravando o luto. Para outras, isso pode ajudá-las a superar aos poucos a perda”, comenta.

Danielle conta que recentemente o perfil de seu amigo, morto aos 20 anos,  foi apagado: “Eu não sei o porquê, mas isso me incomodou muito. Para mim, era uma forma de “ver” ele sempre que eu sentia saudades”.

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