Aprendizado ecumênico

Laura Stabile

»»» Desde a primeira reunião de pauta, o tema desta edição da Plural nos pareceu bem interessante – e complexo. A cada um de nossos encontros às quintas-feiras, a religiosidade se mostrava uma questão mais fascinante. Entrar de cabeça nesse mundo com múltiplas vertentes que não conhecíamos foi instigante, e fé foi a palavra de ordem das nossas pautas e de todo o processo de produção da Plural.

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Bastidores da realização da foto que ilustra a matéria sobre mulheres e religiões, em que a aluna Uly Campos posa com adereços de diversas religiões | fotos Bianca Gomes

Fiquei encarregada de cobrir os bastidores desse processo. Parecia fácil, eu o vivi todo de perto. Mas logo me vi com  um desafio: como passar para o papel esses quatro meses de trabalho?

Pauta definida, hora de começar. Cada repórter, com sua matéria, partiu em busca de entrevistas para enriquecerem o conteúdo. Parecia fácil, afinal, quase todo mundo tem uma religião, certo?  Mais uma vez, apenas parecia.

Fernando Turri exemplificou a dificuldade que tivemos para falar com as fontes. “Para o texto sobre o estado laico, eu e a Marina Guazzelli precisávamos conversar com o deputado federal João Campos. Ficamos três semanas seguidas ligando quase todos os dias para o seu assessor, que nos pedia para retornar depois. No total, foram mais de 20 ligações e muita paciência”, disse.

Além disso, cada um de nós enfrentou outros obstáculos. Marina Cassiolato contou que escrever o perfil de Joseph Campbell foi seu maior desafio pessoal. “Não tinha conhecimento de sua história e ideias”, afirma. O texto só saiu depois de muita leitura e pesquisa.

Percebemos que religião é um assunto delicado. Algo tão pessoal que houve quem não gostasse de responder perguntas profundas. Por outro lado, muitos se identificaram com suas respectivas religiões e conversaram com a gente por muitas horas sobre esse assunto.

A aluna Bianca Gomes de Carvalho contou que uma de suas entrevistas durou duas horas. “No começo do semestre li um livro de Cremilda Medina, chamado “Entrevista: o diálogo possível”. Achei o livro fantástico e tentei trazê-lo para as minhas entrevistas da Plural. Funcionou. Estabelecer um diálogo com os entrevistados deixa tudo mais rico”, pondera a aluna.

Acho que nós todos aprendemos isso neste semestre. Quando o jornalista realmente se entrega para o momento da entrevista, suas perguntas acabam surgindo mais naturalmente e a construção da matéria fica muito mais atraente. Quando conversei com Mário René, estudioso de religiões e coordenador do novo curso de Ciências Sociais e do Consumo da ESPM-SP, nem percebi os primeiros 30 minutos se tornarem uma, duas horas. No começo pode parecer tempo demais, mas falar sobre religião com quem realmente entende do assunto é algo cativante.

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EXPERIÊNCIAS

“Acho que o que eu mais gostei, em todos esses meses, foi a visita a um terreiro de Umbanda. Foi interessante perceber o preconceito que está infiltrado  em nós”, disse Bianca. “Fomos com uma ideia totalmente diferente do que encontramos”, reforçou Turri, que também visitou um terreiro.

Os dois acreditavam que iriam para um terreno baldio e escuro, mas se depararam com uma casa iluminada, com estátuas de santos, enfeites e pessoas vestidas de branco. “Conversar com o pai de santo foi uma experiência diferente para mim.  Eu estava acostumado com rituais da Igreja Católica, mas ver aquele outro tipo de manifestação me fez repensar muita coisa”, contou Turri.

Nossa experiencia foi assim, incerta, mas ao mesmo tempo fascinante.  O que ficou para todos nós foi a certeza de que no final tudo dá certo e de que, com fé, tudo se alcança. Nós tivemos fé nesta edição da Plural e esperamos que você também se sinta atraído por ela.

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