As tendências da Moda Sustentável

Edição 15 - Consumo Consumismo

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Se por um lado o desenvolvimento da moda é um fenômeno sociocultural, já que, conforme o estudo The Pulse of Fashion 2017 feito pelo Global Fashion Agenda (GFA), 60 milhões de pessoas estão empregadas na cadeia produtiva e a receita gerada por ela é de 1,5 trilhão de euros. Sob outro ponto de vista, a indústria têxtil pode acabar com o ecossistema, uma vez que são diversos os impactos negativos que ela causa, indo desde a contaminação dos lençóis freáticos até o desmatamento e à prática de trabalho escravo.

A moda sustentável, resumidamente, preza pelo respeito tanto ao meio ambiente quanto à sociedade, valorizando as pessoas que trabalham no processo e sempre incentivando o consumo consciente. Com essa proposta, as marcas optam por reutilizar materiais descartados por algum motivo ou adotar matérias-primas que inicialmente não seriam pensadas para produzir algo no mundo da moda como transformar garrafas pet em tecido. Segundo o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), os principais nichos da moda sustentável são a produção com fibras naturais (algodão orgânico, linho, lã, cânhamo) ou com tecidos alternativos, como pet ou de fibra de bambu ou, também, reaproveitamento de rejeitos de tecidos, couro ou materiais sintéticos descartados pela indústria.

Segundo pesquisas do The Boston Consulting Group (BCG) de 2017, o processo de produção e extração de matéria-prima é responsável por 16% dos inseticidas, 7% dos herbicidas e 4% dos fertilizantes de nitrogênio usados no mundo. Tais produtos químicos, quando utilizados excessivamente, atingem os lençóis freáticos e contaminam a água, proporcionando uma queda no nível de oxigênio dela.
Além da contaminação, a grande quantidade de água utilizada na produção têxtil é preocupante. É estimado que a indústria utilize 79 bilhões de metros cúbicos de água, esse número equivale a 32 milhões de piscinas olímpicas. Surpreendentemente, nos próximos 12 anos, o consumo desse bem ainda deve crescer 50%. De acordo com pesquisas do BCG e do GFA, países que possuem maior cultivo de algodão, como China e Índia, terão de escolher, daqui alguns anos, entre continuar com a produção ou reservar a água limpa para beber.

No processo de malharia e fiação, quando as fibras se transformam em tecidos, o impacto ambiental é enorme e visível, já que as máquinas gastam uma grande quantidade de energia elétrica e há grande emissão de gases, como o gás carbônico. Segundo o estudo The Pulse of Fashion 2017, esses problemas estão altamente atrelados ao aquecimento global e ao efeito estufa. Desmatamento e grande utilização de petróleo também estão na lista dos pontos negativos da indústria têxtil. O levantamento mostra que o poliéster, por exemplo, que é a fibra sintética mais usada na indústria têxtil, gasta 70 milhões de barris de petróleo para ser produzido, além de demorar cerca de 200 anos para se decompor. A viscose, outro tipo de tecido feito da celulose, provoca a derrubada de 70 milhões de árvores anualmente.

Iniciativa brasileira

Preocupados com o meio ambiente e o ecossistema, algumas marcas foram criadas com propósitos sustentáveis. É o caso da loja Joaquina Brasil, que utiliza excesso de tecidos descartados por grandes fabricantes e matéria-prima com pequenos defeitos que não comprometem a qualidade das peças. Além disso, a representante de mídias sociais da loja Harumy Yamaguchi, diz que eles procuram se tornar uma marca zero waste, ou seja, que não produz nenhum lixo, com a missão de reaproveitar todo e qualquer retalho na fabricação.

“Hoje em dia, muitas marcas praticam o greenwashing, se apropriando de propósitos para que possam crescer e fazer sucesso, mas a sustentabilidade na moda tem de englobar todos os processos da empresa, e não apenas o midiático”, diz Harumy. Cálculos do The Pulse of Fashion Industry 2017 mostram que os investimentos em sustentabilidade aumentam a lucratividade e que não tomar nenhuma ação reduzirá as margens de ganho. Ainda assim, é comum que empresas digam que tomam atitudes sustentáveis – uma vez que há pressão social quanto ao tema – e mantenham o sistema de produção inalterado.

A loja de calçados e acessórios Insecta Shoes também tem em pauta a questão da reciclagem de materiais. No último ano, a empresa reutilizou 6640 garrafas plásticas, 391,69 metros quadrados de tecido e mais de 2 mil quilos de borracha. Fundada em 2014, por Barbara Mattivy, a Insecta Shoes possui a essência de ser vegana, ecológica e enaltecer a brasilidade, com isso a marca possui diversos certificados.

Débora Martins é estudante e adepta da moda ecológica. Diz que seu interesse por esse estilo de produção aumentou por causa da mão-de-obra escrava que muitas marcas ainda mantêm. “Comecei a pensar antes de comprar, não ajo mais por impulso, só compro aquilo que realmente preciso e sei que vou usar”, diz. Conforme a Pesquisa Akatu 2018, 70% dos consumidores brasileiros preferem um estilo de vida sustentável, o que reflete na indústria da moda diretamente.

Segundo Harumy Yamaguchi, o mundo está cada vez mais antenado e preocupado e, cada vez mais, a forma como consumimos tende a se tornar obsoleta. “Muitas pessoas estão mudando o olhar para a forma de consumir, e estão optando por comprar marcas que tenham um compromisso com o meio ambiente e com a sociedade”, completa a representante de mídias sociais da Joaquina Brasil.

Pesquisas apontam que o consumo consciente passa por quatro etapas: questionamento; busca por marcas com responsabilidade socioambiental; bom uso do produto; descarte adequado. “Qualquer esforço é válido, mesmo que você compre uma peça de roupa que não seja de uma marca ecológica você consegue fazer com que ela se torne sustentável tanto pela boa utilização do produto quanto pelo descarte dela”, fala a consumidora de moda sustentável Débora.

São inúmeras as opções de se descartar uma peça que não se utiliza mais, como o Projeto Gaveta que consiste em um clube de troca de roupas e o aplicativo Enjoei, no qual pessoas colocam à venda produtos que não utilizam mais. Outras maneiras de ser sustentável e estar na moda também se tornaram válidas quando o assunto é ajudar a melhorar o ecossistema.

Brechós, locais onde se vendem peças usadas por um valor menor que o vendido na loja, ganharam vários adeptos, incluindo a atriz Julia Dalavia, que em uma entrevista para Pure People contou: “Acho legal procurar mais roupas em brechós, afinal, as peças vão continuar rodando pelo mundo por alguns anos. Dá para montar looks bem descolados”. Há vários tipos de brechós, indo desde aqueles com peças com preço mais acessível até os de luxo, que possuem somente produtos de marca.

Armário-cápsula

A jornalista Sílvia Henz é adepta do armário-cápsula e em uma entrevista ao programa Mais Você disse que não há regras rígidas quanto ao número de peças, desde que você tenha poucas e ótimas roupas, que sejam versáteis, que combinem entre si e que representem o que você é. O conceito armário-cápsula, criado em 1970 por Susie Faux e consolidado pela estilista Donna Karan, consiste em uma coleção de peças básicas e atemporais que, aliadas a peças de estação, deixariam a pessoa sempre bem vestida e atual. Com a popularidade do conceito, foi lançado o Project 333 que propõe a montagem de um guarda-roupa com somente 33 peças para serem usadas durante três meses.

Tal conceito pode ser considerado uma técnica que preza por escolher uma quantidade limitada de peças para vestir durante um tempo determinado, sem comprar nada novo, apenas criando combinações com as peças existentes. “Roupa não é descartável, com o armário-cápsula aprendemos a repetir e a inovar com o pouco que temos”, disse a jornalista. É importante ressaltar que, nesse número restrito de peças de roupa, incluem-se também os acessórios como bolsas, lenços e sapatos.

Além de prezar pelo ecossistema e não incentivar o consumismo, outro valor agregado a esse conceito é uma produção mais humanizada, sem exploração de quem os confecciona, proporcionando um salário mais justo. Harumy, representante das mídias sociais da loja Joaquina Brasil, conta que a marca emprega mulheres em situação de vulnerabilidade social, detentas e ex-detentas, acolhendo, oferecendo resgate de autoestima, profissionalização e geração de renda.

“A ideia da marca veio com a insatisfação da fundadora Roberta Negrini com a realidade da moda. Apesar de não trabalhar com isso, sua indignação começou ao assistir um documentário de moda que falava sobre condições análogas à escravidão, após isso, quis saber mais e quis fazer diferente”, conta Harumy sobre a criação da Joaquina Brasil.

Trabalho artesanal

De acordo com um levantamento do Sebrae, a sustentabilidade na moda tem crescido e conquistado espaço devido ao trabalho de ateliês, cooperativas e oficinas, que, muitas vezes, se localizam em comunidades carentes. Assim, proporcionando uma visão que a moda sustentável não se resume somente à preocupação com o meio ambiente, mas também com a sociedade que vive nele. Isso mostra que a sustentabilidade pode ser resumida como o compromisso de estabelecer o equilíbrio entre o sucesso econômico, progresso social e preservação ambiental.

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