Bastidores: a equipe da Plural se deparou com incríveis histórias do ano de 1968

1968, 50 anos depois - edição 12 - 1968, 50 anos depois

Giovanna Lunardelli

Por Fernanda Baddini

»»»A indignação se misturava com uma tristeza, que era acentuada por um nó na garganta, capaz de paralisar até a respiração. Durante uma entrevista, a repórter Ana Teresa Guida, do 4º semestre de jornalismo, inspirou forte, tentando controlar o choro. A entrevistada, sem entender o que acontecia, achou que a aluna ria e interrompeu o trabalho, indignada. A cena aconteceu durante o relato de um estupro sofrido por Rosemeire Nogueira durante a ditadura militar.

A gente sabe do golpe militar brasileiro. A gente sabe da violenta repressão que se instalou no Brasil. A gente sabe que muitos se levantaram e lutaram contra a ditadura – e quão caro pagaram por isso. Mas não entendemos esse drama de verdade até ouvi-lo sendo contado, olho no olho, pela boca de uma sobrevivente.

Precisávamos de fontes que realmente viveram o ano de 1968. A procura por nomes começou em secretarias de universidades e depois migrou para sites especializados no período. O “Memórias da Ditadura” foi um deles. A partir desse canal, contatamos várias fontes, e Rosemeire Nogueira – ou Rose, como costuma ser chamada – respondeu com gentileza. “Parabéns pela escolha do tema”, dizia seu e-mail de resposta, acompanhado de seus telefones de contato e seguido de um “se te interessar, lembrei-me de muita coisa que aconteceu naquele ano na imprensa até chegar ao Ato 5, em 13 de dezembro de 1968”.

Marcamos o encontro cinco dias após a ligação. Nos encontramos na casa dela, em uma terça-feira à noite. A conversa aconteceu no sofá da sala: quatro alunas, ela e a jornalista de cultura Elisabeth Lorenzotti, amiga íntima de Rose. Depois o papo seguiu para a cozinha, onde foi servido, carinhosamente, um lanche. Em momento algum havia sido citada a palavra “tortura”.

Próximos às 22h, perguntamos sobre a violação que Rose sofreu no período em que permaneceu presa. “Podemos marcar para amanhã? Estou um pouco cansada e esse assunto é muito pesado e mexe comigo.” Claro. Voltamos no dia seguinte.

Na quarta-feira não erámos mais em quatro, mas em cinco. O lanche também nos esperava, mas desta vez sem a presença de Elisabeth. A conversa se estendeu por quatro horas e pode ser caracterizada por uma única palavra: intensa. Em determinado momento tocou o telefone. Rose atendeu. Não prestamos muita atenção no papo, até que ela desligou e veio a surpresa: “Conhecem a Clara? É a viúva do Marighella, muito minha amiga. Se quiserem, podemos marcar uma entrevista com ela”. Mariguella foi um dos líderes comunistas mais perseguidos pelo regime militar, foi torturado e morto. Infelizmente o prazo de fechamento da revista não permitiu que agendássemos um encontro com Clara.

Conhecer Rose foi uma lição de cidadania, fé, esperança e resistência. Nossa despedida foi marcada por um abraço forte e por uma frase que para sempre vou levar comigo: “Como a ditadura me tirou o direito de ter uma filha, eu saio caçando filhas por aí. Sintam-se em casa e voltem sempre que quiserem”. Ela, de fato, marcou minha vida.

Arquivo vivo
Na mesma tarde do primeiro encontro com Rosemeire, a repórter Marcella Stewers, do 3º semestre do curso de Jornalismo, se surpreendia com a quantidade de identidades falsificadas de José Luís Del Roio. O encontro aconteceu na praça da Sé, no prédio da Unesp.

Depois de mostrar a Marcella a sala em que Monteiro Lobato realizava suas reuniões, e logo em seguida contar que possui um cartaz original da Revolução Russa pregado na parede de sua casa, ele desceu alguns lances de escada e abriu uma caixa. “Eu usava muitos nomes porque era dirigente
e fundador da Aliança Libertadora Nacional (ALN), então em cada Estado eu mudava de nome”, contou, enquanto tirava dezenas de RGs falsificados do arquivo.

Esses e outros documentos sobre o período de ditadura que Del Roio adquiriu – sem nos revelar como – ficam guardados em cofres.

Repórter do século
Enquanto Marcella folheava a memória da ditadura, um grupo de repórteres proseava com a memória do jornalismo.

Em uma ensolarada tarde de outubro, os alunos-repórteres Peter Frontini e Catarina Bruggeman, acompanhados do cinegrafista Leandro Vieira e do editor da Plural, Renato Essenfelder, tiveram a oportunidade de encontrar um dos maiores mestres do jornalismo brasileiro: José Hamilton Ribeiro.

O repórter, vencedor de inúmeros prêmios, que se notabilizou pelo trabalho na histórica revista Realidade – onde, entre outras pautas, cobriu a Guerra do Vietnã , perdeu um perna no front de batalha e escreveu memorável reportagem –, recebeu a equipe da revista em sua própria casa. Durante mais de uma hora, falaram sobre o ano de 1968, a ditadura militar, e, claro jornalismo. “Entrevistar o Zé Hamilton foi uma experiência profissional muito boa, porque afinal de contas sou um jornalista com oito meses de conhecimento e ele tem mais de 60 anos de trajetória”, pondera Peter Frontini.

Produção da capa da Plural, feita em uma Vandercook, impressora tipográfica do ano de 1969. Na foto, Érico Padrão monta o processo de impressão, realizado pela gráfica Carimbo Letterpress | Foto: Catarina Bruggemann

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