Conheça Zilda Arns: a missionária que dedicou sua vida à ajuda ao próximo

direitoshumanos - edição 05 - direitos humanos

Da Redação

CARLA FERNANDEZ | FERNANDA BOTTEGHIN | MARINA AYUB

“Zilda lutou pela construção de um mundo melhor que começa na construção do ser humano. Ela contribuiu extraordinariamente à saúde, educação e bem-estar das mães e das crianças carentes”, escreve a irmã de Zilda, Otília Arns, formada em letras e autora do livro “Zilda Arns – A Trajetória da Médica Missionária”.
Zilda Arns Neumann nasceu em 25 de agosto de 1934, em Forquilhinha, Santa Catarina. Pediatra e sanitarista, iniciou os seus trabalhos na área humanitária em 1959, quando formou-se em Medicina pela UFPR, sempre com o objetivo de diminuir a mortalidade infantil.
Em 1982, James Grant, então diretor-executivo da Unicef, procurou o cardeal Dom Paulo Evaristo Arns solicitando que a Igreja ajudasse a salvar a vida de milhares de crianças no mundo. Dom Paulo levou o pedido à sua irmã Zilda.

 

Foto: arquivo Agência Brasil
Foto: arquivo Agência Brasil

 

Fundação
Em 1983, Zilda fundou a Pastoral da Criança em conjunto com o cardeal Dom Geraldo Majella Agnelo, presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) na época. A Pastoral da Criança é uma organização comunitária de atuação nacional que tem o seu trabalho baseado na solidariedade e na partilha do saber, como afirma Otília Arns em seu livro.
“O seu objetivo é promover o desenvolvimento integral das crianças pobres, da concepção aos seis anos de idade, em seu contexto familiar e comunitário, a partir de ações preventivas de saúde, nutrição, educação e cidadania, realizadas por mais de 240 mil voluntários capacitados”, completa Otília.
Para demonstrar o quanto a missão de ajudar crianças carentes era importante para sua irmã, Otília relata que Zilda rezou para o Espírito Santo e pediu inspiração. Uma vez que a médica pensava que o trabalho feito pela Igreja deveria ser altamente replicável, barato, atraente e impulsionado pelo amor fraterno, ela reorganizou na mente todas as suas experiências vividas até então.

 

Foto: divulgação/Pastoral da Criança
Foto: divulgação/Pastoral da Criança

 

Ícone
Fernando Franco Braga Talarico, professor e doutorando em História Social pela FFLCH-USP, afirma que a missionária pode ser considerada um importante ícone dos direitos humanos no Brasil. “O humanismo de Zilda, bem como o de seu irmão, Dom Paulo, beneficiaram a Igreja Católica.”
O historiador também comenta que Dom Paulo dialogou com o rabino Henry Sobel e muitas outras lideranças religiosas, em um ecumenismo raras vezes obtido, e contribuiu decisivamente para a derrota da ditadura civil-militar. “Não é preciso dizer mais que isso.”
De acordo com dados do quarto trimestre de 2013 fornecidos pela Pastoral da Criança, no Brasil todo são 1.251.923 crianças e 70.891 gestantes acompanhadas mensalmente pela ONG. Ainda segundo os dados do quarto trimestre de 2013, são 200.926 voluntárias atuantes nacionalmente.
Para Aparecida Gonçalves de Jesus, coordenadora da Arquidiocese de São Paulo (à qual a Pastoral da Criança é ligada), Zilda Arns “faz muita falta”. “Ela era como uma mãe, muito carinhosa, e toda a metodologia criada por ela continua sendo seguida da mesma forma”.
Aparecida ressalta que Zilda tinha um olhar muito carinhoso pelo voluntariado e sempre incentivava os atos humanistas. “Todas as vezes que pensávamos em desistir, pensávamos nela.”
Em novembro de 2004, a médica fundou e coordenou a Pastoral da Pessoa Idosa, tendo como objetivo auxiliar os idosos no controle de vacinação e na identificação de doenças por meio do trabalho de líderes e voluntários.

Projeto
“Estamos implantando um novo projeto em São Paulo. Antes, trabalhávamos mais com a criança desnutrida e hoje buscamos nos aprofundar também na criança obesa, devido ao aumento do índice de sobrepeso infantil”, conta Aparecida Gonçalves.
A formação do voluntariado se dá através de apostilas e cursos que o preparam para acompanhar e orientar as famílias. Cada voluntária observa, no máximo, quinze crianças até os seis anos de idade, uma vez por mês. “Caso observem algum problema, a instrução é encaminhar para uma entidade especializada no assunto.”
Zilda Arns recebeu diversos prêmios e distinções por seu trabalho. Dentre eles, destacam-se: o Opus Prize (EUA), no ano de 2006; “Heroína da Saúde Pública das Américas”, concedido pela Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) no ano de 2002; Prêmio Social da Câmara de Comércio Brasil-Espanha em 2005.
A médica faleceu em 12 de janeiro de 2010, em Porto Príncipe, no Haiti. A cidade havia sido atingida por um terremoto. Zilda estava na capital para apresentar o trabalho da Pastoral.
O final de seu último discurso dizia: “É a solidariedade e a fraternidade aquilo que o mundo precisa mais para sobreviver e encontrar o caminho da paz. Como os pássaros que cuidam de seus filhos ao fazer um ninho no alto das árvores e nas montanhas, longe dos predadores, ameaças e perigos, e mais perto de Deus, deveríamos cuidar de nossos filhos como um bem sagrado, promover o respeito a seus direitos e protegê-los”.

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