Coronelismo na imprensa interfere na veiculação imparcial das notícias

direitoshumanos - edição 05 - direitos humanos

Da Redação

ISABELA SOUZA | CLÁUDIA COSTA | DAVID FRARE

»» Os jornalistas brasileiros são expostos a perigos físicos diariamente. A ONG internacional Repórteres Sem Fronteiras considerou em 2013 o Brasil o país mais mortal do hemisfério ocidental para os profissionais de mídia, cargo antes ocupado pelo México.
Cilene Victor da Silva, professora da Faculdade Cásper Líbero, sofreu ameaças de morte após criticar as declarações da âncora do SBT Rachel Sheherazade. Cilene conta que ficou “chocada” com as declarações da apresentadora sobre a ação de “justiceiros” no Rio de Janeiro. No dia 31 de janeiro um grupo com cerca de 30 homens espancou e amarrou a um poste um adolescente de 15 anos. Em seu comentário sobre o episódio, Sheherazade diz que a ação foi “compreensível” devido à omissão do Estado, à polícia desmoralizada e à justiça falha. Para Rachel, a opção que restaria ao “cidadão de bem”, nesse cenário, é se defender. No final da declaração, de aproximadamente um minuto, ela sugere “aos defensores dos direitos humanos que se apiedaram do marginalzinho preso ao poste” que façam um favor para o país e “adotem um bandido”.
Cilene da Silva considerou o comentário criminoso. “Ela [Sheherazade] defende o fim do estado democrático de direito, que na verdade anula todo o processo pelas vias civilizatórias, de um julgamento, uma condenação, uma prisão. Então, ela faz uma incitação à violência. Aí é o segundo crime praticado por ela”, afirma. Após publicar suas críticas no Facebook, Cilene foi verbalmente agredida por mais de 60 pessoas. “A Rachel havia feito uma postagem no Facebook dela pedindo que seus seguidores entrassem no meu perfil”, relata. Na manhã seguinte à postagem, Cilene recebeu duas ligações com ameaças de morte. Aparentemente eram adolescentes, diz a professora. “Uma das ligações dizia: ‘Na frente da estação Butantã eu te dou um tiro na testa’.”

Protestos em São Paulo, marcados pela violência contra a imprensa | Marcelo Camargo / Agência Brasil
Protestos em São Paulo, marcados pela violência contra a imprensa | Marcelo Camargo / Agência Brasil

ANDI
A Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi) considera as ameaças aos profissionais da mídia como um dos mais graves atentados à liberdade de expressão no país. A Andi “repudia, problematiza e denuncia qualquer tentativa de limitar o livre exercício da profissão, cobrando e apoiando políticas de defesa dos direitos desse e de outros grupamentos vulneráveis da população”, diz Suzana Varjão, gerente de qualificação da ONG.
Em relação ao estudo da ONG Repórteres Sem Fronteiras, Suzana afirma que “ainda é difícil para determinados setores aceitar o trabalho de uma imprensa livre, vigilante, que denuncia violações, expõe desigualdades, acusa opressões. E a resposta é a tentativa de intimidação, por meio de ameaças, atentados, violências várias cometidas contra os profissionais do campo”.
Para ela, a discordância em relação ao trabalho do jornalista deve se manter no planos das ideias, sendo benéfica, e até imprescindível, dentro de um regime democrático. “Ou seja, criticar os jornalistas, pode. Ameaçar é inaceitável.”

Liberdade de Imprensa
Segundo o World Press Freedom Index (WPFI) 2014, do Repórteres sem Fronteiras, políticos regionais também são donos de veículos de comunicação no Brasil, o que é considerado o maior obstáculo para uma mídia plural e independente. O relatório destaca o sistema arcaico do coronelismo ainda existente no Brasil. “Os coronéis possuem e controlam as mídias locais, como jornais e estações de rádios.” De acordo com a ONG, no âmbito nacional dez famílias controlam a mídia, limitando a diversidade de opiniões.
Mas as ameaças à liberdade de expressão não vêm apenas da concentração de mídia, diz o relatório. O crime organizado e sua infiltração nos aparelhos do Estado ajuda a obstruir o trabalho midiático e atrapalha investigações de crimes. A posição dos jornalistas em países como o Brasil é frequentemente enfraquecida por causa da falta de status e de solidariedade dentro da profissão e pela submissão da mídia aos centros de influência e poder político.

Violência
A centralização dos veículos de comunicação em poder de poucas famílias foi uma das motivações dos protestos ocorridos em junho de 2013 em todo o país. De acordo com o WPFI, as manifestações levantaram “questões sobre o modelo de dominância da mídia e enfatizaram os violentos métodos ainda utilizados pela Polícia Militar desde o tempo da ditadura. Durante os protestos, ao menos 100 jornalistas foram vítimas dos atos de violência, dos quais dois terços foram atribuídos à polícia”.
O estudo associa as mortes de jornalistas ao alto nível de violência no país e à ocupação do crime organizado em determinadas regiões, fazendo com que a cobertura de temas como corrupção, drogas e tráfico seja muito arriscada para os jornalistas.
Em debate sobre Comunicação, Cultura de Paz e Direito à Cidade promovido pelo Instituto Pólis, foram discutidos temas relacionados a direitos humanos e à importância da comunicação como um direito.
Para o sociólogo Hamilton Faria, não é possível ter uma formação democrática sem uma mídia democrática no Brasil. “O que acontece hoje nas nossas mídias é uma violência na produção da informação, não apenas a direta, mas também uma violência simbólica, cultural, estrutural”, relata.
João Paulo Charleaux, jornalista e coordenador da área de Comunicação da ONG Conectas, de direitos humanos, comenta sobre a questão da imposição da paz. “Você tem as organizações que trabalham nas guerras, como a Cruz Vermelha, e aquelas que são contra ela, que são completamente pacifistas, como a ONU, mas que paradoxalmente usam a força militar para impor a paz”, afirma ele. Para Charleaux, isso força um congelamento das contradições dessas sociedades. O jornalista, então, deixa a pergunta: “Em que medida nós e o jornalismo devemos militar em favor da paz?”
Sobre a falta de pluralidade na mídia brasileira, o professor do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC) e jornalista Igor Fuser conta que, quando ingressou na área, as redações eram palco de “tremenda diversidade”, com esquerda e direita, jovens e mais velhos, e que as empresas não se preocupavam com a ideologia ao contratar jornalistas. “Isso tornava as redações um ambiente muito mais rico, mais estimulante”, lembra.
“A mídia funciona como uma lente de aumento em alguns aspectos da realidade e de diminuição sobre outras, ou até uma lente preta que omite outros fatos. Sempre a mesma opinião sobre assuntos políticos, não existe um contraponto”, declara o professor.

Jornalismo brasileiro
Cilene da Silva, da Cásper Líbero, acrescenta ao debate o problema do despreparo dos jornalistas. A professora diz que o jornalismo no país não está preparado para cobrir, por exemplo, os movimentos sociais. “Aqui, a imprensa continua chamando manifestante de vândalo.” A jornalista diz que não vê as manifestações como uma forma de aprendizagem. O que, na verdade, vai ensinar a fazer jornalismo é o próprio jornalismo, ou seja, “para retratar a realidade é necessário conhecer esta realidade”.
Ela exemplifica que não é possível falar da periferia sem nunca ter pisado nela e que muitos jornalistas hoje, dentro dos grandes veículos, tiveram excelente formação cultural e experiências fora do país, entretanto não tiveram experiências dentro do Brasil. “O jornalismo só vai melhorar no Brasil quando nós conseguirmos agregar à essa formação cultural de qualidade um pouquinho de realidade para o aluno de jornalismo”, afirma. Cilene acredita que o jornalista só poderá fazer um trabalho verdadeiro quando sair das redações e colocar o pé nos lugares mais afastados.

Jornalistas brasileiros assassinados em 2013

» A Internacional Press Institute (IPI) é uma rede global de profissionais de mídia dedicados à proteção, ao direito à liberdade de expressão e ao livre fluxo de notícias e informações.
O portal mantém uma lista atualizada de jornalistas mortos em todas as partes do mundo. Em 2013, um total de 120 jornalistas foram mortos. Confira quem foram os jornalistas assassinados no Brasil.

Renato Machado Gonçalves
8 de janeiro de 2013

» Radialista da Rádio Barra FM, do Rio de Janeiro. Segundo as investigações, dois homens de moto se aproximaram do jornalista e fizeram ao menos quatro disparos. Renato estava voltando de uma festa de família. Foi socorrido com vida, mas morreu no hospital horas depois.

Mafaldo Bezerra Goes
22 de fevereiro de 2013

Radialista na cidade de Jaguaribe, no Ceará, foi morto por causa de suas denúncias sobre tráfico de drogas e grupos criminosos locais. Dois homens em uma moto dispararam ao menos cinco vezes contra Bezerra. O jornalista estava andando de sua casa até o trabalho.

Rodrigo Neto
de Faria

8 de março de 2013

Jornalista foi morto com três tiros em Ipatinga, em Minas Gerais. Neto estava investigando as ligações entre a polícia e o crime organizado do estado mineiro. Alessandro Neves Augusto, e o policial civil Lúcio Lírio Leal foram indiciados pelo assassinato do jornalista.

Walgney Assis Carvalho
14 de abril de 2013

Repórter fotográfico. Morto em Coronel Fabriciano, em Minas Gerais. Um homem de moto teria se aproximado e disparado contra as costas de Carvalho. O assassinato ocorreu 37 dias após a morte de Rodrigo Neto, colega de Carvalho. Não se sabe se as mortes têm ligação.

José Roberto Ornelas de Lemos

11 de junho de 2013

Diretor do jornal Hora H em Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro. Ornelas levou mais de 40 tiros de arma de fogo enquanto estava em uma padaria na cidade. A hipótese é de que ele foi morto em represália a denúncias que eram publicadas contra a polícia e políticos locais.

Claudio Moleiro de Souza
12 de outubro de 2013

Diretor da Rádio Meridional em Jaru, cidade do estado de Rondônia. O estúdio foi invadido por um homem armado. Claudio foi morto por um disparo de arma de fogo. Um radialista foi atingido no braço, mas sobreviveu. Nada foi roubado da rádio. Não se sabe a motivação do crime.

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