Da internet para os livros, youtubers buscam o sucesso como escritores

Fernanda Giachini

Gabriela Oliveira

Rafaela Andrade

Taísa Luna

 

»»»Entre gritos desesperados por um autógrafo e com uma câmera na mão, Kéfera Buchmann lançou seu livro na Bienal do Livro do Rio de Janeiro. Na ocasião, fãs enfrentaram todo tipo de obstáculo para ficar cara a cara com a youtuber: levar injeção de glicose por ficar sem comer durante horas, chegar de madrugada para conquistar um lugar privilegiado na fila e quase perder  a voz de tanto gritar. Kéfera é proprietária do segundo maior canal brasileiro do Youtube,  tem mais de 8 milhões de seguidores e é uma das protagonistas de um novo fenômeno na literatura – o dos blogueiros-escritores, campeões de vendas.

Bienal do Livro Rio

 

No último ano, com a forte crise econômica que atingiu o país e as editoras de livros, somada à ascensão da internet, os blogueiros ganharam espaço no mercado editorial. De acordo com Marcos da Veiga Pereira, presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros, 2016 será um ano difícil para o setor. Assim, o universo da literatura, que antes era dominado por escritores conhecidos do grande público, abriu espaço para que celebridades da internet tivessem lugar também fora dela.

O casamento de interesses foi perfeito: as editoras encontraram um perfil de escritor latente e os blogueiros acharam uma maneira de popularizar ainda mais seus conteúdos.  “As editoras, enquanto instituições legitimadoras do mercado, certamente se alimentam do sucesso dos blogueiros e, num ciclo de interesses, tornam a alimentá-los”, explica o doutorando em Estudos Literários Wagner Lacerda.

Para a professora de literatura Marisa Petcov, o fenômeno é compreensível sob a ótica contemporânea. “É preciso considerá-los como fazedores de uma literatura moderna. Blogueiros são atuais, descartáveis, e é isso que interessa ao público”, conta.

O público busca novidades, e tudo aquilo que é constante e inflexível deixa de ser atrativo. Os blogueiros trazem esse frescor que as pessoas tanto buscam. Eles se renovam, criam e, quando um se torna cansativo, surgem outros nomes. Os personagens digitais são a cara da modernidade.

Kéfera Buchman é um exemplo sólido da manifestação dos blogueiros no mercado editorial. De acordo com o PublishNews, a youtuber ocupa o quinto lugar na lista dos nacionais mais vendidos, na categoria não-ficção. Kéfera ultrapassou personalidades como Augusto Cury e fica atrás somente de Padre Marcelo Rossi, Jojo Moyes e Rezendeevil – outros profissionais na arte de vender livros.

Esse fenômeno não repercutiu somente no âmbito mercadológico da literatura. Ele está trazendo uma linguagem nova para as publicações das editoras. “Os blogueiros estão transferindo para os livros o linguajar da internet”, aponta o jornalista e escritor Leão Serva.

Há quem diga que personalidades da internet e literatura não combinam. O linguajar e a falta de complexidade dos conteúdos produzidos por blogueiros seriam incompatíveis com a potência que grandes autores trazem para a literatura.  Porém, o doutorando Wagner Lacerda tem uma visão otimista sobre o fenômeno. “Não existe leitura boa ou leitura ruim. O que existe é ler e não ler. Simples assim. E ler é sempre a melhor opção. Claro que existem níveis de complexidade diferentes nas mais diversas formas literárias, mas não significa ser melhor ou pior”, argumenta.

BLOGUEIROS

O sucesso das figuras da internet vai muito além dos blogs. Elas são a personificação do que muitos sonham ser: suas contas no Instagram tecem um estilo de vida fascinante e distante da monotonia; seus vlogs no Youtube narram viagens e compartilham experiências. E tudo isso acontece sob os olhares de milhares de indivíduos que são espectadores de suas vidas.

Ana de Cesaro começou a fazer vídeos para o Youtube sobre seu mochilão pela Europa, em 2010, e hoje é dona do blog Tá e Daí?. Ficou famosa pela sua hashtag #ProjetoAnaGostosa, através da qual mostrava sua rotina saudável, e arrecadou mais de 100.000 inscritos em seu canal e mais de 30.000 seguidores no Instagram. Os tópicos que aborda são: cultura pop, culinária saudável, feminismo e causas sociais, viagens e motivação.

No ano de 2015, De Cesaro publicou seu primeiro livro, com título igual ao nome do blog, no qual conta sua história e como superou problemas pessoais. O que a motivou foi ampliar o conteúdo que publica na web. “Com certeza a ideia passou a ser eternizar o meu trabalho de uma forma diferente da internet. Até porque no livro há histórias que nunca contei no meu canal”, explica.

A publicação de um livro também pode ser uma ferramenta para agregar prestígio à imagem de um blogueiro. Ana considera que lançar um livro é sinal de trabalho satisfatório. “No mundo da mídia, blogs e outros meios digitais ainda são vistos como secundários. Ter um livro publicado é ter o respaldo de que o que você fala realmente importa”, diz.

A questão comercial também é clara para  a blogueira e não deve ser deixada de lado. Segundo sua visão, tudo isso é um fenômeno puramente comercial. As editoras perderam muito espaço para o mercado digital e os blogueiros, youtubers e influenciadores são uma aposta segura de vendas.

Ana de Cesaro é um exemplo entre muitos. Nomes de peso como Kéfera Buchman, Bruna Vieira, Mica Rocha e Isabela Freitas também resolveram endossar suas imagens e conteúdos com livros publicados. Entre os mais vendidos estão Muito Mais que 5 Minutos, de Kéfera, Dois Mundos, Um Herói, de Paulo Afonso Rezende e Authenticgames – Vivendo Uma Vida Autêntica, de Marco Túlio. Os assuntos mais comuns tratados pelos blogueiros e que, consequentemente, geram livros atrativos são games, moda e comportamento. São tópicos sedutores que envolvem principalmente o público jovem.

 

PÚBLICO

Que as gerações mais jovens recusam um livro em troca de uma tela de celular muitos já sabem. Com tantas inovações tecnológicas ao redor fica difícil atrair crianças e adolescentes com passatempos mais artesanais. Eles gostam da instantaneidade e se cansam rapidamente de tudo o que é mais demorado e complexo. O interesse por livros físicos sofreu uma queda significativa e, para cativar novamente esse público específico, as editoras lançam mão dos blogueiros.

O público jovem é mais fácil de ser fisgado e a nova safra de escritores cumpre bem o papel de levar os jovens para dentro das livrarias novamente. Os blogs dão oportunidade para que o público conheça o escritor de seu livro antes mesmo de ele ser lançado. Primeiro, o leitor se torna fã e depois ele efetua a compra do livro, facilitando o processo de envolvimento dos consumidores. “Antes de eu ler o livro A Menina que Colecionava Borboletas, da blogueira Bruna Vieira, eu já acompanhava o seu blog e o canal no Youtube. Isso me fez conhecer o livro. Senão, eu não saberia”, conta a estudante Isabela Frasinelli.

Amanda Lisboa também é estudante e leu dois livros de Bruna Vieira. Para ela, a linguagem acessível desse tipo de livro pode fazer com que mais jovens adquiram o hábito de leitura e tenham seus ídolos na cabeceira da cama.

Os blogueiros, porém, podem não ser um ímã de leitores com 100% de eficácia. Há um efeito colateral vindo da atração compulsiva por esses livros – o objetivo da compra acaba não sendo a leitura em si, mas adquirir um artigo de uma figura adorada. A blogueira Ana de Cesaro reconhece esse efeito. “Muitos adolescentes que compram livros dos seus ídolos, os compram como objeto de coleção. O objetivo é ter mais alguma coisa com a carinha do seu amado e a leitura fica em segundo plano”, reflete.

O estudante Enrico Ribeiro adquiriu o livro Dois Mundos, Um Herói, de Paulo Afonso Rezende e, apesar de acompanhar o seu canal, Rezendeevil, no Youtube, não ficou satisfeito com a qualidade da leitura. “Eu gosto bastante do canal do Rezende e comprei o livro por esse motivo. Mas, infelizmente, eu não achei o livro tão legal quanto eu imaginava”, lamenta.

A escritora Eunice Tomé pensa que a parceria pode injetar ânimo nas editoras e acredita que o legado dos livros nunca passará. “Acho que há espaço para todos e os livros não irão morrer, como pensam alguns apocalípticos. Assim como há leitores para grandes romances e biografias, há leitores para diferentes escritores, inclusive para os blogueiros”, conclui.

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