Entrevista com Pedro de Santi: “Ter que estar bem o tempo todo é esmagador”

edição 11 - opressão - opressão

Renato Essenfelder

Por Camilla Santos, Débora Sá e Vivian Lusor

»»»Ser feliz tem deixado de ser um desejo para se tornar uma obrigação cultural. A felicidade alcança esse grau de obsessão impulsionada, entre outros fatores, por um mundo vidrado nas redes sociais e nas selfies. Nele, a tristeza é rejeitada e uma completa inabilidade para lidar com ela fica exposta. “Ser feliz passou a ser uma questão de técnica. O sentido da vida no mundo moderno passou a ser visto como uma forma individual, dentro do qual a felicidade é a prioridade de cada um. Trata-se de um mundo que deixa de ser guiado pela religião, pelo coletivo, e deixa de ter uma verdade única”, diz Pedro de Santi, psicanalista, professor de psicologia na ESPM, mestre em filosofia e doutor em psicologia clínica pela PUC-SP.

De Santi é ainda o editor convidado desta edição da Plural sobre opressões na sociedade contemporânea.

Nesta entrevista, ele conta um pouco sobre as questões que muitas vezes nos levam a viver por meio de uma “felicidade laboratorial”, conquistada com analgésicos e antidepressivos que tragam soluções mágicas aos problemas pessoais – pois não se pode falhar e as pessoas tentam cada vez mais esconder suas imperfeições. “Mas isso pode não apontar uma solução para nossos dramas porque o individualismo não é compatível com a convivência. O convívio é feito de negociação e de renúncia.”

Leia a seguir a entrevista que de Santi concedeu durante visita ao Centro Experimental de Jornalismo (CeJor) da ESPM.

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O psicanalista Pedro de Santi | Foto: Roberto Braga/NIS-ESPM

Ser feliz se tornou uma obrigação?

A gente desdobrou aquilo que era um anseio por felicidade em um imperativo esmagador: ter que estar bem o tempo todo, não ter lugar para a tristeza, para a solidão, para estar com pouca energia... Eu tenho que estar legal o tempo todo, e todos têm que estar na mídia social assim. E eu, que escolho minhas melhores fotos para postar, esqueço que o outro fez a mesma coisa, e mordo a isca dele quando vejo uma foto e penso “nossa, ele está naquele lugar tão legal, e eu, não”, e passo a ficar arrasado por isso. A contramão, a sombra projetada pelo imperativo da felicidade, é a grande depressão que a gente vive, a impressão de ser esmagado pela ideia de que a gente não é o que deveria ser. Isso se torna uma depressão cultural, que não é clínica ou psiquiátrica, é cultural, tendo como sintomas essa falta de sentido, de tesão, de vontade, que vai se expandindo pela sociedade como um todo.

Você acha que essa felicidade é para todos? Todos merecem ser felizes? Todos podem ser felizes?

Felicidade é uma sensação. Nós possivelmente podemos ser muitas vezes felizes, e a felicidade passará e novas felicidades virão. A gente aprende que existe a “Felicidade” com F maiúsculo e que ela será absoluta e eterna quando vier. E como ela nunca vem, eu falo “por que para mim não veio?”

Eu idealizo o que o outro tem e eu morro de inveja porque eu acho que o outro tem essa Felicidade que eu não tenho, mas ele também não tem lá com ele, e eu fico achando que a Felicidade existe, e a crença nessa tolice me esmaga e me faz sentir em dívida para com esse ideal.

Como você acha que as pessoas reagem a esse dever, a essa necessidade de buscar a felicidade?

Da mesma forma que a gente vê nas mídias sociais, com a publicação dos melhores momentos já editados da minha experiência. A foto do Instagram, o post do Facebook, aquele momento que eu espero que as pessoas tomem a parte pelo todo. Fica parecendo o primeiro episódio da terceira temporada de “Black Mirror” [série de televisão britânica, disponível no Netflix, que aborda o lado obscuro da relação da sociedade moderna com as novas tecnologias], em que todo mundo fica se fazendo de feliz o tempo todo e assim que não tiver ninguém olhando, um pode xingar o outro com plena felicidade, porque finalmente não é mais necessário fingir que está feliz.

Essa felicidade forjada do sorriso no rosto, da autoajuda (acorde e diga bom dia para o dia), é uma falsa felicidade. Isso é uma casca de felicidade que não tem um pingo de sustentação e ela acaba sempre se resolvendo na queda, na depressão.

E por que você acha que as pessoas têm essa sensação de precisarem estar felizes o tempo inteiro?

Aí existe uma operação dupla. Ou seja, ao longo de séculos no mundo moderno, no ocidente, ser feliz foi se tornando a finalidade da vida. [A finalidade da vida] já foi criar os filhos, já foi chegar aos céus, já foi ter uma sociedade justa, já foi muita coisa, e a busca é sempre do que é bom para mim. Numa sociedade muito individualista, a felicidade individual passa a ser a meta egocêntrica e autorreferente de cada um. Com tudo isso, nós temos, de uns 30 anos para cá, um discurso muito tolo tido como psicologia ou como neurociência, mas é só de autoajuda mesmo, de que você é aquilo que fizer de você e que você pode ser o que você quiser. Junta a primeira coisa com a segunda e temos “todo mundo é livre para ser feliz” e “se eu sou livre para ser feliz, por que eu não seria?”. Se você não é feliz, você passa a ver você mesmo, ou quem não seja, como um doente que tem que ser curado, porque todo mundo quer e pode ser feliz.

Com o declínio de instituições como o estado ou a igreja, que norteavam a construção de verdades (e de felicidade) para a sociedade, quem passou a impor referências para que vivamos sob algum tipo de padrão?

Antigamente tivemos como referência a família, ou alguém que esteve no poder, ou uma referência espiritual, ou intelectual e afins. Mas há cerca de 20, 30 anos, ostensivamente é a própria mídia que cria essas referências, e quem oferece esse padrão são as celebridades. Artistas famosos ou youtubers mirins passam realmente a ditar para um certo grupo de pessoas o que é certo e o que é errado. É uma cultura de celebridades.

É muito difícil falar de padrão e de opressão hoje sem mencionar as redes sociais. Como elas mudaram essa relação com a felicidade?

É uma dupla face. De um lado, qualquer pessoa em sua singularidade encontrará pares nas redes sociais. Desde o velho Orkut, nas questões das comunidades, você encontrava uma banda superesquisita e você achava no mundo mais dez pessoas que gostavam dela, então tem um uso muito bacana das mídias sociais que é sobre uma pessoa que está isolada poder encontrar pares, longe de sua casa, no mundo. Então ela vai pertencer a um grupo, o que é muito importante. Outra coisa é o danado do algoritmo, que faz com que uma certa informação dominante seja replicada até que se torne uma nova norma opressiva. Cada um de nós no seu feed de notícias recebe basicamente mais do mesmo, cada vez mais gente que pensa a mesma coisa. E a gente se vê, é claro, influenciado pelo grupo, tendendo a aderir àquilo que se apresenta como dominante. É a dupla face da internet. É lugar para achar gente diferente, o que é ótimo. Mas é também um novo lugar para a massa se instalar como cultura de massa e criar inclusão e exclusão.

Quais são as maiores formas de opressão que um indivíduo sofre hoje em dia?

Basicamente, a ideia de opressão significa um jogo de forças. Cada pessoa e cada sociedade é composta por vetores de forças, e cada pessoa, cada ideia, é uma força que tenta se manifestar e que tenta se impor. Em determinados momentos, algumas forças se impõem como dominantes, como norma. Se hoje ela é dominante e se hoje ela é norma, tem-se com isso uma relativa exclusão de quem, nesse dado momento social, não faz parte daquele grupo. Hoje existe uma grande força econômica e política das mulheres e dos grupos LGBT, e eles conquistam cada vez mais um lugar de proeminência e mudam o jogo de forças que existia antes. No lugar onde estava o oprimido, hoje está o opressor, porque há um rebalanço das relações sociais, constituindo um novo conceito de dominador e dominado. Esse tipo de jogo dificilmente pode deixar de existir.

É comum ouvir sobre quadros de depressão, muitos deles sendo medicados. O que você acha dessa medicalização para atingir a felicidade?

Como a felicidade virou essa tarefa de aparências, vai deixando de existir espaço para outros sentimentos, sobretudo os de tristeza. Então essa mesma mentalidade técnica que diz “todo mundo pode ser feliz” quer resolver a felicidade de uma forma também técnica, oferecendo, em vez de uma vida melhor, uma substância que faça você sentir a felicidade, mesmo que ela não tenha lastro. A gente vive uma época de superdiagnóstico de doença, porque se esse “ser feliz” é um dever, qualquer coisa que não seja felicidade passa a ser doença, o que é uma loucura.

Qual a relação disso com a indústria farmacêutica?

Existem duas coisas: uma é a sensacional indústria farmacêutica que hoje trata doenças que pareciam incuráveis décadas atrás, e precisamos ser muito gratos a ela. Outra coisa completamente diferente é uma cultura que toma a vida como uma doença e usa mal os remédios. O remédio é sensacional, de fato, mas eu passo a usar o remédio antidepressivo do doente depressivo porque eu estou triste porque tomei um pé na bunda, por exemplo. Esse mal uso da medicação é que vai dizer que a vida é técnica. Há uma ciência da felicidade, tem gente que vende essa bobagem, e faz parte dessa ciência pensar que, se a vida é técnica, eu posso usar substâncias para induzir os sentimentos.

Você acha que os calmantes também são uma maneira de “medicar a tristeza”?

Drogas são em grego “fármaco”, a mesma palavra que denomina remédios denomina drogas. E um e outro servem para aparar uma dor, para esconder ou para retirar uma dor. Viver dói, a gente está acostumado a viver com dor, mas disseram para a gente que não precisa mais viver com dor... Então ok, cadê o remedinho? Legal ou ilegal.

Você acha que estaria em um mesmo patamar quem procura um livro de autoajuda, que é uma coisa relativamente simples, e quem chega a procurar um medicamento de alguém que sofre de depressão realmente?

O que há em comum entre os dois recursos, a autoajuda e o remédio? A ideia de que a vida humana é um problema técnico, o princípio de lidar com a vida como se a gente fosse um rádio a ser montado e desmontado. Eu trago a mentalidade técnica para a vida e eu vou agora ver onde estão as peças quebradas para consertar. O princípio da autoajuda é você ser livre para fazer da sua vida o que quiser. Use uma boa técnica que você será feliz. Se você errar é porque a sua vontade foi fraca, mas a técnica é boa. E o remédio é a técnica em operação, diretamente no seu sistema somático, e aí quem está tomando o remédio antidepressivo está dizendo basicamente “eu desisto”. Quem toma o remédio está dizendo “eu desisto de consertar a minha vida, eu não consigo. Eu preciso de uma ajuda química para isso”. Tomar o remédio antidepressivo é basicamente desistir da própria vida para quem está fazendo uso errado – mas por favor não confunda isso com quem está usando direito, por uma necessidade.

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