Conheça mais sobre a Umbanda, uma fé de origem mestiça como o Brasil

edição 07 - faces da fé - faces da fé

Da Redação

Bianca Gomes de Carvalho
Beatriz Medaglini

»»» Um terreno vazio, onde os rituais são feitos à noite. Uma fogueira no centro, com pessoas em forma de círculo envolta dela. Homens e mulheres com roupas coloridas, em estilo havaiano. Mulheres com saia de palha. Música forte. Assim é um terreiro de Umbanda, segundo a estudante de odontologia Isabela Lopes.

Frequentadores e rituais de Umbanda em terreiro de São Paulo | fotos Fernando Turri
Frequentadores e rituais de Umbanda em terreiro de São Paulo | foto Fernando Turri

Uma sala branca no fundo de uma casa. Imagens de santos, de homens negros e de índios. Os que participam da reunião, efetivamente, estão vestidos de branco. Mulheres de saia de pano e homens de calça. Os que só assistem vestem roupas do dia a dia e permanecem sentados em um banco na mesma sala. Uma música ao fundo é produzida por três jovens que tocam, em ritmo contagioso, a trilha do culto. Este é o cenário que compõe uma gira no terreiro de Umbanda do pai de santo Aurélio, na região sul de São Paulo.

No Brasil, a visão sobre o que é a Umbanda é distorcida. O preconceito não se limita ao gênero, idade ou classe social. Ele se perpetua há anos no território e não corresponde em nada ao que verdadeiramente é a religião. “macumba”, “coisa do mal”, “magia negra”, são alguns dos estereótipos pensados quando se fala em Umbanda.

Apesar dos preconceitos, a Umbanda pode ser vista como um dos grandes símbolos do Brasil. Embora muitos acreditem que a religião tenha origens exclusivamente africanas, ela nasceu em território brasileiro, sendo influenciada pelas principais religiões trazidas pelas matrizes que ocupavam o Brasil colonial. Dos índios herdaram o espiritismo, dos africanos, o candomblé, e dos portugueses, o catolicismo.

foto Fernando Turri
foto Fernando Turri

Ela nasce no começo do século XX, como filha do sincretismo religioso do Brasil. Tem sua “anunciação” no Rio de Janeiro, num contexto de proclamação da República e abolição da escravatura, quando na teoria surgiu a preocupação de inserir, efetivamente, os negros na sociedade branca urbana. Logo após seu surgimento, a religião se difunde por todo o território, não mais se limitando ao Rio de Janeiro.

Apesar de possuir raízes muito antigas, a primeira tenda umbandista teve seu registro em cartório apenas em 1908. O chamado “mito de origem” conta que a Umbanda surgiu quando o Caboclo das Setes Encruzilhadas, em uma mesa espírita, baixou em um jovem de 17 anos, Aurélio Fernandino de Moraes.

Segundo esse mito, o caboclo teria reivindicado seus direitos de se expressar e discursado contra a discriminação de cor e classe social que as pessoas lá presentes sofriam. Logo no dia seguinte, incorporado novamente no jovem Zélio, o caboclo deu inicio à nova religião.

A Umbanda não é uma simplificação do Candomblé, apesar de compartilhar características em comum. Ela pratica, principalmente, a caridade, motivo pelo qual existem as sessões de culto. “A umbanda é a religião dos caboclos, boiadeiros, pretos velhos, ciganas, exus, pombagiras, marinheiros, crianças. Perdidos e abandonados na vida, marginais no além, mas todos eles com uma mesma tarefa religiosa e mágica que lhes foi dada pela religião de uma sociedade fundada na máxima heterogeneidade social: trabalhar pela felicidade do homem sofredor”, afirma o especialista em religiões afro-brasileiras Reginaldo Prandi.

foto Fernando Turri
foto Fernando Turri

A Umbanda é uma religião que instiga a mobilidade social de todos os grupos do país, independente de status. Para ela o homem deve procurar, em vida terrena, a felicidade. Não se compartilha a ideia de que é preciso sofrer nessa vida, mas alterar a ordem e se realizar. O candomblé, da mesma forma, apoia essa ideia. Segundo Reginaldo Prandi,“A presença da entidade no transe ritual volta-se mais para a cura, limpeza e aconselhamento dos fiéis e clientes.”

Os rituais não são padronizados, variam de terreiros para terreiros, mas em geral tem o objetivo de evocar o orixá ancestral, orixás menores e guias (espíritos antepassados) e protetores (espíritos que auxiliam os guias, como é o caso de boiadeiros, marinheiros e baianos).

foto Fernando Turri
foto Fernando Turri

Durante o culto, os médiuns fazem o intermédio entre o físico e o espiritual. A mediunidade permite que os mestres espirituais possam aconselhar e curar os que precisam de ajuda. Por esse motivo, ser médium não é considerado uma vergonha, e sim um dom.

Apesar de representar bem a mestiçagem brasileira, a Umbanda ainda hoje obtém uma baixa adesão no Brasil. Segundo Prandi, a justificativa é o fato de as religiões afro-brasileiras terem surgido em um contexto histórico cujo catolicismo era a religião predominante no país, e até o fim do século XIX a única permitida.

Atualmente, mesmo com a liberdade religiosa, o preconceito às religiões afro-brasileiras persiste por diversos motivos, sendo um deles os frequentes ataques que as igrejas neopentecostais fazem, segundo Ricardo Mariano, pós-doutor em Sociologia da Religião pela USP. O pai de santo Aurélio afirma que esse preconceito surge da “falta de entendimento e consciência sobre o que é a religião Umbandista”. “Deus não deixou a religião, deixou o amor, que é aquilo que nós temos que praticar. Devemos ensinar o que é o amor.”

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