Filhos homossexuais contam como é a convivência com os pais

afetos - edição 08 - afetos

Gabriela Oliveira

Fábio Martin
Rafael Lemos
Thomas Aoki

 

»»»É difícil. Nenhum pai ou mãe quer isso para o filho. Não pela condição em si, mas o sofrimento pode ser muito grande. Aos poucos, acho que eles entendem. Nem todos. Mas a gente não escolhe ser “diferente”, né? Seria muito mais fácil ser igual aos outros.
Quando ia às compras com seus pais, Júlia Campos, estudante universitária, sabia desde pequena que não era dentro de um vestido que se sentia confortável. Brigava com sua mãe, que insistia em peças de roupa mais femininas e até em aulas de balé, com as quais Júlia não se dava muito bem. Desde a infância, era a bermuda larga que lhe servia melhor; era com garotos que tinha mais amizade e era nas meninas em quem reparava.
Aos 20 anos, ela se assumiu homossexual e precisou de relacionamentos conturbados para que seus pais entendessem e apoiassem sua condição. “Foi estranho perceber a minha situação. Eu tive que passar por alguns traumas de relacionamento afetivo com meus amigos, até com a sociedade em que eu vivia, para perceber que na verdade eu escondia quem eu era”, diz Júlia.

Rafael e seus pais, que aos poucos entenderam a condição do filho | foto; acervo pessoal/ESPM
Rafael e seus pais, que aos poucos entenderam a condição do filho | foto: acervo pessoal/ESPM

No começo, seus pais entendiam ser apenas uma fase pela qual ela estava passando. Achavam que a filha queria chamar atenção. Perceberam, com o tempo, que precisavam apoiá-la.
“O que me levou a aceitar a condição da Júlia foi perceber que ela tinha se libertado de algo. A partir do momento em que ela contou, nós, com a ajuda de sua psicóloga, começamos a entender que ela não estava fazendo uma graça ou passando por uma fase. Estava, na verdade, se descobrindo”, afirma Sebastião Campos, pai de Júlia.
A notícia não chegou a seus pais da forma mais natural. Em 2014, quando reconheceu sua sexualidade pela primeira vez e se assumiu, Júlia se declarou para sua melhor amiga, por quem era apaixonada. Não recebeu a resposta que queria e teve sua homossexualidade revelada a seus pais. “Eu não tive a chance de contar para eles. A mãe da minha amiga fez isso por mim, contou tudo o que tinha acontecido. Quando eu fui falar com eles, os dois queriam entender “qual era a minha graça”. “Eu estava muito mal, só queria voltar para a casa e receber um abraço”, conta.

Gradativamente, ela também teve que se aceitar. Passou sua adolescência escondendo quem realmente era, vestindo roupas de que não gostava e se esforçando para estar dentro dos padrões. Compreendeu que seus sentimentos não eram algo de sua cabeça. Eles eram reais. Após relacionamentos fracassados, nos quais estava sentimentalmente imersa, recorreu aos pais, que passaram a entendê-la e apoiá-la.

Foi durante a faculdade que Júlia decidiu se assumir | Foto: Fábio Martin
Foi durante a faculdade que Júlia decidiu se assumir | Foto: Fábio Martin

“Quando eu assumi que gostava de mulheres, comecei a ver o que as pessoas passavam. Em todas as relações, em todo o vínculo no qual você coloca seu coração em jogo, você fica chateado. Ao me ver sofrendo por outras mulheres, eles viram que eu precisava de apoio. Perceberam que era isso mesmo que eu queria e sentia”, narra Júlia.
Kátia Martins, terapeuta especializada em processos familiares, afirma que normalmente os pais têm medo de que o filho sofra e que não se encaixe em certos padrões. Em um primeiro momento, por conta dessa condição sexual, acham que os jovens não vão conseguir construir uma vida e relações estáveis. “Há uma grande preocupação com o futuro dos filhos. A partir do momento em que a pessoa vai caminhando e percebendo que as coisas vão se encaixando, é mais um processo de adaptação do que qualquer outra coisa. Se você vive em um país em que existem atos de homofobia, é lógico que você tem receio de que algo possa acontecer”, analisa a terapeuta.

Receio
“Primeiro, eu precisei admitir para mim mesmo para conseguir abrir isso e fazer com que fosse parte de mim. No começo, foi muito difícil. Eu lembro de passar um mês em uma fase muito depressiva, em que eu assistia muitos vídeos na internet, fazia muitas pesquisas sobre sexualidade, tentando me entender”. Era assim que o estudante de arquitetura Matheus Vaz se sentia após ter se relacionado com um homem pela primeira vez.
Já em sua infância, Matheus se recorda de pensamentos e olhares voltados mais aos meninos que às meninas. Sentia-se muito constrangido quando assuntos relacionados a homossexuais surgiam. Evitava cruzar as pernas e adotar qualquer outro ato considerado mais feminino. Seu relacionamento com mulheres se deu de forma relativamente tardia. Quando aconteceu, lembra de não ter achado a menor graça em algo que era tão buscado pelos outros garotos.
Em 2012, Matheus ficou com um de seus amigos mais próximos. Pela primeira vez, havia se relacionado com uma pessoa do mesmo sexo e sabia que precisaria conversar com seus pais sobre isso. “Eu sempre tive uma relação muito honesta com meus pais e de repente tinha algo que eu não podia falar, que não dava para conversar. Eu não me sentia à vontade”, conta.
Ainda é muito comum que homossexuais tenham receio de se assumir. No Brasil, os homoafetivos ainda encontram problemas na garantia de seus direitos. De acordo com dados de uma pesquisa realizada pela Elancers, companhia de sistemas de recrutamento e seleção, uma em cada cinco empresas não emprega homossexuais. Quando se trata de segurança, os números não melhoram: em 2014, foram registrados 218 assassinatos de LGBTs (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais, Travestis e Transgêneros).
O receio que existe por parte dos gays é da reação que seus pais e a sociedade terão a respeito da sua sexualidade, segundo a terapeuta familiar Kátia Martins. “É mais uma preocupação de como a família vai reagir, como a sociedade vai reagir à condição sexual dele. Quanto mais rígido é o meio em que ele convive, mais dificuldade ele tem, inclusive de como ele vai abordar isso com seus conhecidos, com seus amigos, com seus familiares”, explica.

Indiferença
Dois meses após ter seu primeiro relacionamento sério homossexual, Matheus revelou sua condição a seus pais. De imediato foi compreendido de forma acolhedora, em um momento no qual se sentia muito sensibilizado. “No meio de uma de nossas conversas, eu comecei a chorar e eles ficaram preocupados. Eu precisava de apoio. “Está tudo bem. A gente te ama do mesmo jeito”, eles disseram. Mas com o tempo a relação entre pais e filho passou a ficar mais conturbada, após a revelação. Logo, acharam que Matheus deveria frequentar uma psicóloga. “Não parecia, mas nossa relação começou a estremecer muito”, conta.
Aos poucos, Matheus começou a se sentir agredido. Seus pais procuravam uma “cura” e um motivo para a condição do filho. Conduziam interrogatórios, queriam encontrar algum erro. Enxergavam um egoísmo no filho que, segundo eles, só pensava em si mesmo. A família via sua homossexualidade como um problema. O que os outros pensariam da condição sexual de Matheus?
Ao mesmo tempo em que se sentiam incomodados, os pais de Matheus optavam, muitas vezes, por ignorar o que o filho sentia. Não gritavam ou brigavam com ele, mas a indiferença o feria. “Eu os queria ao meu lado, precisava do apoio deles. Eu ainda tinha problemas para me aceitar e o desinteresse deles não ajudava em nada. Nós brigávamos porque eles queriam me proibir de fazer as coisas. Depois tudo voltava ao normal”, diz ele.
“Eu tive a sensação, sem dúvida, de que eles achavam que tudo ia passar. Principalmente quando eles queriam que eu mudasse de terapeuta. Eles acreditavam que isso mudaria alguma coisa. Meu pai chegou a pedir para eu não me relacionar com ninguém enquanto ele estivesse vivo, que foi uma das coisas mais difíceis que eu escutei. Ele não queria presenciar as minhas relações”, conta.
Para o professor de sociologia Fábio Dias, as relações sociais ainda são alicerçadas por um ideal muito intolerante quando se trata de algo diferente dos padrões estabelecidos. “O modo como alguns pais e mães recepcionam a homossexualidade de seus filhos é a prova de que a valiosa promessa de liberdade tão presente no ideário de algumas revoluções históricas não vingou. Pelo contrário, o que presenciamos em alguns casos da relação entre família e filhos homossexuais é a abominável permanência da sombra de um passado que se tentou abolir”, analisa.

Apoio
Homossexual assumido há três anos, o estudante Rafael Torrezani sempre esperou um relacionamento sério para que pudesse se revelar a seus pais com a certeza de que precisava. Sempre teve apoio da irmã, que também é homossexual assumida, o que abriu as portas para que ele se aceitasse melhor. “Depois que eu contei para a minha irmã, eu contei para os meus melhores amigos. Quando eu comecei a ver as reações das pessoas mais próximas a mim, que surpreendentemente me acolheram de uma forma natural, eu me aceitei de vez”, diz.
Quanto à recepção das pessoas mais próximas, Rafael acredita ter tido sorte. No começo, observou uma relutância por parte de seus pais – que já desconfiavam de sua homossexualidade –, totalmente ligada ao receio da discriminação que o filho receberia fora de casa. Os pais temiam que outras pessoas não fossem compreendê-lo da forma como eles haviam compreendido.
“O fato de eu ter me assumido e a forma com a qual meus pais receberam isso me ajudou muito. Eu não preciso mais esconder quem eu sou. Quando eu era menor, era muito tímido, não gostava de sair, tinha um pouco de dificuldade de me relacionar com pessoas novas. Hoje em dia isso mudou”, comenta o estudante.
Atualmente, Rafael sabe que não precisa mais esconder sua personalidade e que representa o filho que seus pais gostariam de ter. “Eu namoro há três anos e percebo o carinho no relacionamento dos meus pais com o meu namorado. Eles gostam muito dele, convidam-no para almoçar e para sair. O próprio fato de eles verem meu namorado como parte da família é um motivo que me faz saber que eles me aceitam”, conta Rafael.
Após alguns anos, Matheus acha estranho um dia ter tido uma relação conturbada com os pais. Com sua autoaceitação, o apoio dos pais foi uma consequência. Sua homossexualidade já não é mais vista como um problema dentro de casa. “Isso não é mais um incômodo entre nós. Hoje eu consigo ter uma segurança maior sobre quem eu sou. Inclusive, meu namorado está sempre aqui em casa”.
Quanto à Júlia, o fracasso em relacionamentos passados não se repetiu mais com seus pais. Sua relação com eles, como ela mesma compara, mudou da água para o vinho. “Nós estamos em uma fase muito boa, que eu não imaginava alcançar. Eles têm os problemas familiares deles, mas a gente sempre conversa sobre meus sentimentos e meus relacionamentos, sobre coisas que eu nunca imaginei poder conversar com eles. Nossa relação é a melhor do mundo!”

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