Heródoto Barbeiro defende a força e a versatilidade do rádio em entrevista à Revista Plural

THOBIAS MARCHESI

»»»Formado em história e em direito, foi no jornalismo – sua terceira graduação – que Heródoto Barbeiro, 66, se notabilizou. Atual apresentador do Jornal da Record News, ele também foi âncora do jornal matutino da rádio CBN e apresentou o programa Roda Vida, da TV Cultura.

Com uma formação abrangente e sólida – exerceu ainda a função de professor de história por 25 anos –, Heródoto ressalta, nesta entrevista exclusiva à revista Plural, a importância dos valores éticos no jornalismo. Diante da iminência do rádio digital, diz acreditar que mesmo com todas as evoluções tecnológicas o rádio será sempre baseado na audição. E minimiza o impacto das novas plataformas nos fundamentos da profissão:  “jornalismo é jornalismo, não importa por qual plataforma ele seja propagado. As regras são as mesmas, a ética é a mesma, o público é o mesmo”.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

 

Qual é sua opinião sobre a necessidade do diploma de jornalismo?

Heródoto Barbeiro: Eu sou absolutamente favorável à existência de boas escolas de jornalismo, como, por exemplo, a ESPM. Enquanto algumas escolas estão fechando o curso de jornalismo, vocês estão abrindo. Mas, quando você for trabalhar, o que vale não é um pedaço de papel, é aquilo que você sabe fazer. Papel me lembra o fascismo.

E quanto ao rádio, você acha que é necessário algum curso de especialização para um jornalista se tornar um radialista?

Barbeiro: Eu acho que é necessário aprender a fazer. Eu gostaria de contar com uma pessoa pela sua competência, pelo seu esforço, pela sua dedicação, pela sua cultura, e não apenas por uma carteirinha que diz que ela pode trabalhar.

 

O senhor se formou em história e em direito antes de se formar em jornalismo. Como despertou o interesse de se tornar jornalista?

Barbeiro: Decidi fazer jornalismo por vários motivos. Um deles é o fato de que fui professor de história contemporânea e também dava aulas de atualidades. Essas matérias se relacionam bastante com o cotidiano, que se vê muito no jornal, no rádio, na televisão. Logo, isso me aproximou muito do jornalismo. Quando apareceu a oportunidade de aprender a fazer jornalismo, acabei me apaixonando, e, gradativamente, deixei de ser professor de história, profissão que exerci por 25 anos. Desde então, estou me dedicando à profissão de jornalista.

 

O rádio continuará a existir da maneira como conhecemos hoje?

Barbeiro: Não sei te responder. Mas o que eu posso dizer é que os hábitos das pessoas sempre mudam e a sociedade está em constante mutação. O aparelho de rádio não é o mesmo da casa da minha avó, por exemplo, que tinha aquele rádio tipo capelinha. Hoje todo mundo que quiser ouvir rádio se conecta ao computador, nos telefones celulares e no iPod, que também funcionam como rádio. A sobrevivência do rádio é: enquanto o ser humano precisar receber um impacto na comunicação só pela audição, é rádio.

 

Como o senhor imagina as rádios no futuro?

Barbeiro: Eu acho que o rádio do futuro vai continuar sendo completamente auditivo, porque, caso contrário, não será mais rádio, será outra coisa. Agora, na medida em que eu tenho novas tecnologias, eu posso, por exemplo, adicionar na minha rádio uma imagem. Eu fazia na CBN um programa chamado Mundo Corporativo, em que o áudio ia na rádio e o vídeo ia para a internet. Muita gente perguntava se era um programa de rádio ou de televisão, mas o que vale é a maneira pela qual eu impacto as pessoas. Se eu estiver impactando as pessoas só pela audição, ele é um rádio. Esse é o rádio do futuro, ou seja, eu vou utilizar todas as tecnologias que estiverem à disposição para atingir as pessoas de forma auditiva.

 

O rádio é conhecido pelo seu imediatismo. Como é feita a apuração das notícias passadas por ouvintes?

Barbeiro: Esse é um ponto fundamental, porque eu, por exemplo, sempre fui favorável de que nunca se colocassem ouvintes para dar informação no ar, a não ser em situações excepcionais. Isso porque eu não sei quem é esse ouvinte, não sei se o que ele está dizendo é verdade, eu não sei se ele está passando um trote ou se simplesmente quer escutar seu nome sendo falado na rádio.

 

Mas o que poderia ser feito para qualificar e noticiar com mais segurança as informações dos ouvintes?

Barbeiro: Fui o autor de uma proposta, que está no ar até hoje, que consiste em uma parceria com o rádio táxi, que tem 625 taxistas rodando por São Paulo. Os motoristas passam as informações para a central, na avenida Paulista, onde fica um jornalista da CBN, que apura e dá a notícia no ar. Ele pode dar crédito para o taxista e, se ele souber quem é o taxista, pode até colocá-lo no ar. Mas a gente não colocava o ouvinte direto no ar, pois não se pode atestar a veracidade das informações. Um veículo como o rádio vive de credibilidade, portanto eu acho que notícias provenientes de ouvintes devem ser passadas somente depois de apuração.

 

Qual é a sua percepção quanto à adaptação do rádio às novas tecnologias?

Barbeiro: O rádio se adaptou porque, mesmo com toda essa tecnologia, continua sendo a plataforma de comunicação que atinge a pessoa só pelo áudio, pelo sentido da audição. Eu posso, por exemplo, colocar uma tela no meu carro, mas não posso ao mesmo tempo dirigir e olhar a tela. Eu creio que essa tecnologia fez com que essa plataforma de audição, que antes pegava em lugares restritos, se globalizasse, pois agora se propaga também pela internet. O rádio, que sempre foi uma plataforma interativa, hoje tem uma interatividade total por ferramentas como e-mail, Facebook, Twitter, e a rádio se adaptou muito bem a essa nova situação.

O sr. trabalhou por muitos anos em rádio e agora trabalha na televisão. Quais são as principais diferenças entre essas duas plataformas?

Barbeiro: Obviamente há técnicas diferentes, mas não é nada que um jornalista não seja capaz de aprender. Jornalismo é jornalismo, não importa por qual plataforma ele seja propagado. As regras são as mesmas, a ética é a mesma, o público é o mesmo.

 

O sr. foi apresentador do jornal matutino da CBN. É possível mensurar a responsabilidade e o impacto do que você diz sobre o dia dos seus ouvintes?

Barbeiro: A responsabilidade é igual, não importa se você é repórter, editor ou apresentador. Todo mundo deve ser responsável, porque veículos de comunicação vivem de credibilidade e ninguém faz jornalismo sozinho. Todos fazem jornalismo em equipe. Às vezes aparece a cara de um, ou a voz de outro, e você pode achar que ele faz tudo sozinho, mas não é assim. Tem uma redação atrás dele, tem uma equipe o ajudando. Então, a preocupação final com o produto, que é a credibilidade, a presunção da inocência, a responsabilidade, é do conjunto. Muitas vezes os mais velhos devem ter mais responsabilidade do que os jovens, mas, de uma maneira geral, todos devem ser responsáveis.

Considerando que o rádio é um meio de comunicação muito próximo dos ouvintes, há um cuidado especial na apuração das notícias?

Barbeiro: A apuração precisa ser feita em todo lugar. Eu já vi muito site colocar uma notícia no ar e depois tirar, sem ninguém ficar sabendo. A apuração é uma questão central no rádio, na televisão, no jornal, nas revistas e no jornalismo como um todo. Outro ponto central é o motivo pelo qual o rádio se aproxima tanto das pessoas. É porque ele só usa um sentido, que é a audição. Para ler alguma coisa na internet, por exemplo, é preciso usar o tato e a visão. A gente não pode confundir rádio com o equipamento, com o eletrodoméstico, que pode ser a caixinha, ou o computador. O rádio é a comunicação auditiva, venha de onde vier.

 

O fato de ter ganhado visibilidade durante a sua carreira aumentou sua responsabilidade como jornalista?

Barbeiro: O cuidado com o ouvinte tem que ser de qualquer pessoa. Não importa se o cara é velho e tem muito tempo de trabalho, como eu, ou se ele é jovem. A responsabilidade é a mesma, porque, obviamente, o respeito com o público, seja ele ouvinte, telespectador, ou internauta, é exatamente o mesmo. O princípio deve ser, acima de tudo, ético.

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