Imprensa estrangeira aponta surpresa e violência com atos

Bastidores - edição 04 - manifestações

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HENRIQUE MARTORELLI | GIOVANNA LUPO | MARIANNE TAMBELINI

»»»O Brasil parecia viver um bom momento – ao menos, é o que os números indicavam. Segundo o IBGE, a taxa de desemprego caiu pela metade em menos de dez anos: de 12,3%, em 2003, passou para 5,2%, em outubro de 2013. No mesmo período, o salário mínimo subiu de R$ 240 para R$ 678. 

A popularidade dos presidentes batia recordes. Lula deixou o cargo em 2010 com 83,4% de avaliação boa ou ótima, de acordo com o Instituto Sensus. Dilma Rousseff estava com 79% de aprovação em março de 2013, segundo o Ibope.

 

Jornais

 

Paralelamente, 32 milhões de pessoas ascenderam à classe média e quase 20 milhões saíram da pobreza na última década. Esse cenário, aliado à escolha do Brasil como sede da Copa do Mundo de 2014 e do Rio de Janeiro para receber as Olimpíadas de 2016, transmitia a imagem de uma potência mundial emergente.

Então começaram os protestos.

Cerca de 300 mil pessoas foram às ruas entre os dias 12 e 17 de junho. No dia 20 do mesmo mês, mais de 1,4 milhão, em 120 cidades, aderiram às manifestações. “Naquele momento ficou claro que o movimento estava tomando outra dimensão. Até a semana anterior era um movimento pelo passe livre, contra o aumento de R$ 0,20”, relembra Veronica Goyzueta, correspondente do jornal espanhol “ABC”.

A cobertura jornalística dos protestos proliferou rapidamente. Para tanto, contribuiu o fato de os protestos ocorrerem durante a Copa das Confederações, quando as atenções de parte da imprensa internacional já estavam voltadas ao país. “A intenção era mostrar para o mundo que estamos insatisfeitos com as medidas tomadas pelo governo”, comenta Felipe de Moraes, universitário que participou das manifestações.

A violência policial na repressão às manifestações acabou se tornando o fato que mais chamou a atenção dos principais veículos europeus. Imagens fortes foram estampadas nas capas dos jornais. Na França, na Espanha e na Itália, as capas das edições online de diversos veículos tinham fotos da brutalidade policial. Na Alemanha, o jornal “Der Spiegel” chegou a comparar as manifestações com os protestos que antecederam a queda do Muro de Berlim em novembro de 1989.

No dia 22 de junho, o semanário alemão “Die Zeit” publicou um artigo com o título “Obrigado, Brasil”. Na publicação havia agradecimentos e elogios ao povo brasileiro. Segundo o periódico, os brasileiros “prestaram um grande favor ao mundo”. A reportagem também enfatizou que os protestos são uma prova “do amadurecimento democrático de um país”. Nem a Fifa escapou do editorial, que afirmou que os manifestantes deram “uma lição” à entidade.

Os jornais ingleses estamparam policiais jogando bombas de efeito moral, disparando balas de borracha e atingindo jornalistas que cobriam as manifestações. “Os registros das manifestações foram tirados de contexto, como se a violência tivesse sido causada pelo aumento no valor das passagens. A imprensa mostrava os atos dos manifestantes como algo banal, uma coisa primitiva”, critica a estudante de jornalismo Giovanna Ferraz, que estuda na universidade EF Internacional, em Oxford, e participou de protestos de brasileiros na Inglaterra.

 

Pelé 

O que chamou a atenção do prestigioso diário inglês “The Guardian” foi o monitoramento das redes sociais pelo governo e o apelo feito por Pelé para que os manifestantes deixassem os protestos de lado para dar mais atenção ao futebol. “É claro que ele não apoia as manifestações, ele nunca precisou enfrentar uma fila no SUS ou pegar o metrô lotado às 18 horas”, diz Solange Bueno, usuária dos serviços públicos. “Sem contar que R$ 0,20 não fazem falta para ele como fariam para mim”.

A rede americana CNN trouxe o Brasil em duas de manchetes principais em seu portal. Para o veículo, os R$ 0,20 nada mais são do que o estopim para uma série de insatisfações, principalmente com as atitudes dos governantes ao prometerem coisas que não podem cumprir.

A rede trouxe ainda uma entrevista com o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, que chegou a comparar as manifestações do Brasil com as ocorridas na Turquia também neste ano.

 

capa do nyt

O “The New York Times”, um dos jornais mais conhecidos do mundo, reportou em sua capa que “protestos crescem enquanto brasileiros culpam seus líderes”. Ao lado do texto, uma foto chocante mostrou um flagrante de abuso policial no Rio de Janeiro. Os policiais militares lançavam, de uma distância mínima, spray de pimenta no rosto de uma manifestante. “Fazia tempo que o Brasil não saia na capa do ‘The New York Times’”, comenta Goyzueta.

Além disso, o jornal nova-iorquino ressaltou que as manifestações pegaram os políticos brasileiros de surpresa, considerando um cenário de estabilidade econômica.

O jornal espanhol “ABC”, conservador, enfatizou a violência dos manifestantes. Relatou, à época, que “tanto no Rio de Janeiro como em São Paulo, os mascarados lançaram coquetéis molotov e queimaram edifícios públicos”.

As manifestações no Brasil chocaram ainda mais os estrangeiros pelo fato de os países europeus estarem em profunda crise econômica. “As cenas de violência chocaram os espanhóis. Muitos amigos meus jornalistas vieram me perguntar sobre o motivo dos protestos, já que o Brasil é um país de economia crescente, que tem empregos e que não realiza grandes cortes de orçamento”, comenta Rafael Wacked, repórter do jornal iberoamericano “NCI”.

A estudante Giovanna Ferraz, em intercâmbio na Inglaterra, lembra que a visão positiva sobre a economia brasileira também imperava na Inglaterra: “Os ingleses viam o Brasil como um país em desenvolvimento, mencionam muito os BRICS e viam o Brasil como uma possível potência para o futuro”.

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