Intolerância e ignorância travam debate político no país

edição 11 - opressão - opressão

Renato Essenfelder

Por Paulo Jaschke, Stéfani Inouye, Gabriela Soares e Vinicius Lopes

»»» “Você é socialista?” Foi dessa maneira que Luísa (cujo nome foi trocado, a pedido dela, para esta reportagem) foi assediada em um bar na cidade de São Paulo, no início de janeiro. Por causa dessa pergunta – que por alguns pode ser percebida como inofensiva – a estudante se envolveu num episódio que desembocou em violência física e num desgastante processo que ainda corre na Justiça.

Essa história reflete algo que está se tornando comum na sociedade brasileira: a materialização da intolerância, especialmente política. A pergunta que Luísa ouviu, colocada como uma provocação, traz à tona questões estruturais profundas que contribuem para a disseminação do discurso de ódio no Brasil. Entre elas, a dificuldade em aceitar a heterogeneidade e a precariedade de nossa educação, das quais emergem, como consequência, o analfabetismo político e uma escassa atuação cidadã por parte da maioria dos brasileiros.

 

Manifestantes usam sinalizadores em manifestação do dia 28 de abril em São Paulo | Foto: Pietro Otsuka/Cejor-ESPM

“Não é que as pessoas não saibam dessas coisas porque são preguiçosas. Elas não sabem porque ninguém as ensinou. Ninguém explicou para elas como funciona a Constituição, ou até que ponto o cidadão pode participar da política”, diz Sabine Righetti, pesquisadora associada e professora colaboradora no Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor), da Unicamp, e colaboradora da Folha de S. Paulo.

“Podemos perceber um alto nível de analfabetismo político, ou seja, a gente não sabe se posicionar. É como se pensássemos: ‘estamos insatisfeitos, então vamos reclamar porque está todo mundo reclamando’”, afirma. “Existe uma insatisfação coletiva, isso é um fato, só que ninguém foi treinado para debater e ninguém é ensinado a sequer entender o sistema.” De acordo com Sabine, isso se deve também à imensa desigualdade social no país. Por causa disso, só estamos acostumados a conviver com pessoas com realidades muito próximas às nossas e, como consequência, há dificuldade e esvaziamento do debate.

Denilde Holzhacker, professora de Relações Internacionais da ESPM-SP, complementa essa ideia ponderando que, na verdade, não existem mais “debates”, mas sim “confrontos” políticos. “Os jovens não tiveram uma construção de cidadania adequada, principalmente aqueles que tomam contato com a política agora.” Segundo a internacionalista, aqueles que não partem para o enfrentamento acabam por escolher o caminho da apatia – o que também não contribui para o desenvolvimento do pensamento plural. “O medo do conflito exacerbado leva ao distanciamento político. No fim, isso gera toda uma sociedade politicamente apática, o que é um malefício enorme para uma democracia tão jovem quanto a brasileira.”

Já o caso de Luísa mostra como quem opta pelo confronto pode chegar ao extremo. “Ele me deu um soco no braço. Nesse momento, peguei o meu celular para gravar o rosto dele e mostrar no Facebook quem era ele: um homem que acredita que mulher não pode sentar em uma mesa de bar e conversar sobre política sem ser agredida”, relata a vítima. “Ele só parou quando fomos para dentro do bar. Mesmo assim, gritava e me chamava de comunista, me mandando ir para a Venezuela.” Ela conta ainda que em momento algum o agressor se dispôs a conversar, apenas incitou o ódio.

Mídias sociais

É justamente em razão das dificuldades para o desenvolvimento do debate político que as pessoas cada vez mais se veem incentivadas a procurar outros meios para expor seus pontos de vista. E, como fez Luísa, muitas vezes recorrem às mídias sociais para tanto.

Esse movimento, contudo, também é problemático. Para a jornalista Sabine Righetti, o fato de uma pessoa poder se esconder atrás de um avatar virtual fomenta ainda mais a intolerância política na internet. “O diferencial das redes sociais é que as pessoas podem falar aquilo que não têm coragem de dizer frente a frente. É como se elas estivessem mais protegidas”, pondera.

O professor Fabio Malini, um dos coordenadores do Laboratório de Estudos sobre Internet e Cibercultura (Labic), da Universidade Federal do Espírito Santo, complementa que, nesse aspecto, as redes sociais, ao lado de toda a estrutura midiática, também atuam no sentido de fomentar a fabricação do medo, reforçando a intolerância. “A criação de prisões ideológicas – contruídas apenas a partir do que cada um tem para si sobre suas concepções de mundo – permite o surgimento de campos de concentração de crenças particulares, incentivando o discurso de ódio e a proliferação de notícias falsas”, afirma. “Isso tem a ver com o fato de que a rede é também um lugar de produção de guerra, que não abarca muito o diálogo, abarca mais o fluxo discursivo.”

Modelo inadequado

Justamente por isso, segundo Gustavo Dainezi, pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Práticas de Consumo da ESPM, muitas vezes a internet não se mostra como um ambiente propício às discussões políticas. “Eu diria que o modelo atual da rede é completamente inadequado para discussões. Nós temos uma configuração de rede mercadológica que não traz em sua origem preocupação alguma com o debate ou com a sociedade.”

Para Malini, a manutenção dessa condição é inerente à sustentação da própria mídia, que depende da viralização de conteúdos para sobreviver enquanto indústria – e, nesse sentido, tanto melhor quanto mais discussões eclodirem nas redes. De acordo com o pesquisador, contudo, há que se pensar como irá se consolidar, nesse cenário, o direito de se manifestar. “Fazer parte dele exige capacidade de abstração e consciência de toda a sociedade”, reflete.

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