Jornalistas narram dificuldade de fazer a cobertura “no olho do furacão”

Bastidores - edição 04 - manifestações

Administrador

BEATRIZ RAMIRES | GIOVANNA LUPO | HENRIQUE MARTORELLI

»»»As manifestações que ocorreram no Brasil ficaram marcadas por um grande número de agressões, por parte da polícia e por parte de mascarados adeptos do Black Bloc. E, de ambos os lados, os jornalistas parecem ter virado alvo.

Alguns casos de agressões a profissionais da imprensa chamaram a atenção. Dentre eles, o da jornalista da “Folha de S. Paulo” Giuliana Vallone, o do repórter da “Carta Capital” Lucas Conejero, e o do fotógrafo Sérgio Andrade Silva, que ficou cego de um olho após ser atingido por uma bala de borracha enquanto trabalhava para a agência Futura Press.

Para obter um bom material, principalmente em protestos, o jornalista precisa saber se posicionar. “Eu poderia fazer uma palestra de como um jornalista tem que se posicionar nas manifestações. Você tem que estar paralelo às pessoas e à polícia. Você não pode ser confundido com o pessoal [os ativistas]”, comenta Conejero.

Eduardo Roberto, repórter da “Vice”, diz que a cobertura foi estressante. “Os percursos eram longos e, após a repressão policial, os grupos acabavam se espalhando por grandes áreas, e isso gerava um baita desgaste físico. Sem contar que o perigo de ser atingido por instrumentos de repressão policial era enorme. O gás lacrimogêneo é até tranquilo perto das cacetadas e das balas de borracha”.

Jornalista cobre manifestações na  av. Paulista | foto catharina obeid
Jornalista cobre manifestações na av. Paulista | foto catharina obeid

 

Terror

O que chamou a atenção dos jornalistas nos primeiros dias de manifestação foi, principalmente, a posição dos policiais contra quem estava lá a trabalho. Vários repórteres, fotógrafos e cinegrafistas acabaram, de alguma forma, agredidos.

“Eu estava prestando muita atenção filmando [a manifestação] e não vi a polícia chegando. Os manifestantes começaram a atirar coisas na polícia em posição diagonal, e eu não percebi, e acabei sendo atingido por eles, assim como os PMs”, diz Lucas Conejero, jornalista da Carta Capital que foi agredido durante as manifestações em São Paulo.  “Fui atingido com uma bala de chumbo na orelha, na direção do olho, por sorte não fiquei cego”, finaliza o também militante do Movimento Passe Livre.

“Eu vi ele (o policial militar) mirando em mim, mas jamais imaginei que ele fosse atirar, porque já tinham mirado em mim outras vezes naquela noite e ninguém tinha atirado. Eu estava fazendo meu trabalho, e eu sou mulher. Você não imagina que um cara fardado, com uma arma, vai atirar na sua cara”, afirmou a jornalista Giuliana Vallone, em depoimento à “TV Folha”. Ela foi atingida no olho por uma bala de borracha enquanto cobria uma manifestação no dia 13 de junho. “A Giuliana foi atingida de uma maneira covarde. Ela não foi ferida em um confronto, ela foi ferida parada”, complementa Conejero.

Esse caso foi um marco na cobertura dos protestos. Celebridades postaram fotos em redes sociais em homenagem a Giuliana, e houve ainda uma ação, idea-lizada por fotógrafos, batizada de “Dói em Todos Nós”.

Os jornalistas tinham duas preocupações: cumprir seu trabalho e se proteger. “Há sempre um limite tênue de onde você deve estar para acompanhar a truculência da polícia militar”, diz Piero Locatelli, também da “Carta Capital”, que foi preso durante uma manifestação por estar portando vinagre – substância que supostamente ameniza os efeitos de aspirar gás lacrimogêneo.

“Chegou um ponto em que jornalista tinha que ir sem identificação, filmar e fotografar com câmeras de celular. Não poder exercer sua profissão, na cobertura de protestos, por conta de repressão policial é muito difícil para um jornalista. Depois a violência policial com jornalistas diminuiu, mas com os manifestantes permaneceu, e os jornalistas passaram a se preocupar com os manifestantes”, completa Locatelli.

De fato, a violência partiu de ambos os lados, acuando jornalistas. Principalmente equipes de veículos maiores, da chamada “grande mídia”, sofreram represálias. Carros de reportagem foram quebrados, tombados e incendiados. Profissionais da imprensa, favoráveis ou não aos protestos, foram impedidos de produzir suas matérias – e em alguns casos tiveram de se esconder para não serem agredidos.

Dados da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) revelam que, desde junho, quando começou a onda de protestos, os manifestantes foram responsáveis por 25 casos de agressão contra profissionais da imprensa, dentre as 102 ocorrências identificadas. A maioria dos casos se concentrou contra jornalistas de veículos mais conhecidos, ligados a empresas como Grupo Estado, Grupo Folha, Editora Abril, Rede Globo, SBT e Record .

 

Cerco

No protesto de 24 de junho, Conejero chegou a ficar “entrincheirado” ao lado do jornalista da TV Globo Caco Barcellos e de um câmera do “Profissão Repórter”. “A polícia estava jogando coisas nos meninos [manifestantes], e os meninos estavam jogando coisas na polícia. A gente ficou no pior buraco da praça da Sé. De repente, dispersou todo mundo, ficamos sozinhos. Não tínhamos como sair: estávamos com vários equipamentos e não dava para passar no meio da ‘cracolândia’. Pedi uma carona e fomos embora”, explica

Conejero conta, ainda, que deu um conselho ao repórter da Globo. “Ele [Caco Barcellos] estava lá como qualquer outro jornalista. Pessoas mais engajadas ou que gostam do assunto sabem quem é Caco Barcellos, sabem da história dele. Eu falei ‘Caco, as pessoas sabem quem você é e te respeitam, mas do resto da militância não dá para pedir isso’. Ele foi visto como representando a Globo”.

Ao contrário de vários colegas, Eduardo Roberto, repórter da “Vice”, diz que o veículo para o qual trabalha ajudou a abrir portas. “Várias coisas só conseguimos apurar e fazer justamente porque a ‘Vice’ tenta ao máximo reportar e entender esses fenômenos da maneira mais justa possível. Isso tem aberto muitas portas para a gente”.

 

heterogêneos

Roberto aponta as principais dificuldades da cobertura, ainda quando as manifestações ganhavam corpo. “A principal era saber efetivamente o que está acontecendo. Especialmente nas jornadas de junho, o grupo era sempre heterogêneo, então era difícil saber precisamente quem ou o que fazia parte daquilo”.

Piero Locatelli completa: “Existem muitas dificuldades na cobertura de protestos. Dentre elas, saber o quadro geral do que aconteceu, se o protesto foi pacífico ou não, e lidar com a falta de precisão de qualquer informação, como quantas pessoas estavam no local”.

Contra os obstáculos, comuns à rotina da reportagem, a receita dos profissionais é uma só: apurar incansavelmente todos os lados de uma história.

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