José Hamilton Ribeiro: “O jovem jornalista de hoje é melhor do que o da minha época”

1968, 50 anos depois - edição 12 - 1968, 50 anos depois

Giovanna Lunardelli

Por Peter Frontini

»»»Jornalista há mais de seis décadas, José Hamilton Ribeiro escreveu mais de 15 livros e fez carreira multimídia. Trabalhou na revista “Quatro Rodas”, no “Fantástico”, na Rádio Bandeirantes, no “Globo Rural”, onde está atualmente, e em diversos outros grandes veículos. Mas foi na mítica revista “Realidade” que ele realmente se destacou, vencendo a maior parte dos prêmios Esso que recebeu em sua carreira – incluindo o que recebeu pela reportagem “Eu estive na guerra”, na qual o repórter conta sua experiência de cobertura da Guerra do Vietnã, onde pisou em uma mina terrestre e teve sua perna esquerda amputada.

Em entrevista à Revista Plural, Ribeiro fala sobre como a censura implantada em 1968 afetou a “Realidade”, sobre o que mudou no jornalismo de lá para cá e sobre formação de jornalistas. O repórter, considerado um dos mais importantes da história do Brasil, recebeu nossa equipe em seu ensolarado apartamento no bairro da Aclimação, em São Paulo. Confira a seguir trechos da entrevista.

Foto: Renato Essenfelder

Como cidadão brasileiro e como jornalista, como foi o ano de 1968 para o sr.?

O ano de 1968 foi o ano do AI-5. Os militares tinham tomado o poder em 1964, mas eles iam tocando o Brasil com o governo militar, sem ditadura.
Não havia censura à imprensa, as pessoas que eram investigadas eram tratadas com respeito, com civilidade. Mas quando chega 1968 o regime
endurece, vem o AI-5, a ditadura, e aí foram quase 20 de chamados “anos de chumbo”. Muita perseguição, muita cassação de políticos importantes e
muitos Inquéritos Policiais Militares, que eram a novidade da época. Então, como cidadão, acho que foi uma coisa muito sombria, o Brasil entrou num tempo obscuro.
Na minha vida pessoal também houve algo importante: eu fui mandado para cobrir a guerra do Vietnã, o que me resultou numa experiência muito grande e em um trauma razoável, porque eu perdi parte do corpo.

O que mudou no modo de fazer jornalismo daquela época para hoje?

Em primeiro lugar havia a censura à imprensa, que começou em 1968. Os principais órgãos, os principais jornais e revistas tinham um censor presente na redação. Uma figura tétrica, macabra e ridícula.
Com isso a figura do repórter passou a ser insignificante, porque repórter faz reportagem. Reportagem ou é investigativa ou não é reportagem. E
ali houve um aplacamento do jornalismo investigativo, tanto que repórteres tiveram que deixar as grandes redações. Alguns tentaram fazer uma
cooperativa, uma imprensa alternativa. Outros foram para o interior, onde a censura seria menor, mesmo porque os jornais do interior eram pequenos, falavam de assuntos regionais e não mexeriam muito com a política nacional, então era possível trabalhar.
Outros foram para a luta armada, para a resistência armada, que era uma das opções da época. Uma opção a qual eu não aderi, fui sempre contra
ela, porque acho que não era inteligente combater a brutalidade que a gente sofria com outra violência, com outra brutalidade.
Jornalismo investigativo não se fazia mais. Os jornais praticavam alguns recursos que hoje parecem até pitorescos. Alguns publicavam poesia
na página política, para mostrar que não podiam publicar coisas sérias, coisas de contestação, então davam assim um recado para o leitor. Outros
jornais publicavam receitas de bolo; revistas publicavam fábulas antigas, principalmente envolvendo o demônio, para dizer que estávamos com o capeta solto no Brasil e que precisávamos lutar contra ele.

Mas ainda assim na revista “Realidade” se faziam grandes matérias.

A Realidade teve dois momentos. O primeiro momento, que vai de 1966 a 1969, em que existia no Brasil um governo militar, mas ainda não existia
ditadura. O Congresso funcionava, os partidos funcionavam, não existia censura à imprensa. A “Realidade” navegou nesse período e a política
interna da revista era trabalhar sem nenhum tipo de autocensura: nós fazíamos a pauta que queríamos com o enfoque que queríamos dar. Se eles quisessem censurar, eles que viessem, mas nós não o faríamos. E a “Realidade” então pôde viver os anos de 1966 a 1968 com liberdade e pôde fazer as grandes reportagens que fez.

Quando chegou o fim do ano de 1968, no dia 13 de dezembro, é que se instalou a ditadura de fato. A edição seguinte da “Realidade” foi a última sem censura direta. Em seguida a censura se instaurou na editora Abril [que publicava a revista]. Então, houve outras circunstancias que acabaram levando a revista ao seu fechamento.
No lugar da “Realidade”, na mesma editora surgiu a “Veja”, que teve muita dificuldade de sobrevivência nos primeiros dez anos, mas depois se transformou no que é hoje, a quarta maior revista semanal do mundo.

No quesito de conteúdo, estilo jornalístico e espírito inovador, o sr. acha que hoje existe alguma revista que se assemelhe à “Realidade”?

Existe a revista “Piauí”, que é uma revista de grandes reportagens. Mas por que que a “Piauí” não tem a repercussão que a “Realidade” tinha? Primeiro
que as circunstâncias são outras, o momento político é outro. Hoje o Brasil vive numa democracia, as instituições estão funcionando, os partidos, o Congresso, o Judiciário está funcionando, mesmo com seus defeitos, está tudo aberto e funcionando.
Nesse meio tempo surgiu ainda a internet, que criou um fato novo no  mundo das comunicações e na transmissão
de notícias.
Essa circunstância tirou um pouco aquela situação que a “Realidade” vivia. Se dizia que a “Realidade” era a revista que faltava. Era uma coisa que o povo não tinha e gostaria de ter. Então, quando surgiu a “Realidade” o povo a acolheu muito rapidamente, principalmente a juventude. Nas escolas
e nas universidades ela era imbatível. Essa circunstância de hoje mudou tanto que a revista “Piauí”, mesmo muito bem-feita, muito bem pautada
e muito bem executada não tem a repercussão que a “Realidade” tinha.
Não é culpa do jornalista, é culpa do contexto.

Quais foram as matérias mais marcantes que o sr. já fez?

Há uns cinco anos eu precisei fazer um currículo que precisava ser detalhado, então eu fiz um levantamento lá na redação para ver quantas reportagens de televisão eu tinha feito até aquela época. E não são reportagens pequenas, são grandes reportagens – grandes porque demandam pesquisa e que têm uma ambição literária, um texto qualificado, para que a leitura seja um prazer.
Nesse balanço de cinco anos atrás eu tinha 800 reportagens no Globo Rural. Na “Realidade” eu não fiz as contas, mas ela durou cinco anos fazendo
reportagens boas. Mesmo depois que acabou aquela primeira fase e já com a censura funcionando a revista arrumou um jeito de publicar boas reportagens. Então, são 250 edições, das quais eu participei como repórter de umas 230. Era uma revista mensal exclusivamente de reportagens, cada uma de um repórter diferente com um estilo autoral diferente, de jornalistas que cuidavam do texto, que tinham a ambição literária. Essa ambição é tornar a leitura prazerosa e fazer a reportagem resistir ao tempo.
Dizem que o jornal dura 24 horas, o tempo que está na banca, pois ele morre e vem outro. Na verdade, não é bem assim porque o jornal é um documento que fica para sempre. Mas de qualquer maneira ele tem o seu brilho de 24 horas e depois ele desaparece, pois já tem uma outra edição vindo atrás.
O jornal tem esse traço de ser temporário e de durar pouco, enquanto o texto de qualidade literária resiste ao tempo, ele passa pela prova do
tempo. Essas reportagens da “Realidade” tinham essa ambição literária, como as reportagens da “Piauí” hoje.

Dentre essas centenas de reportagens que o sr. fez, quais foram as mais marcantes?

Tem um livro meu com as reportagens que ganharam o Prêmio Esso, são reportagens que tiveram destaque. Algumas figuram em antologias
de grandes reportagens. E tem algumas que eu gosto pessoalmente mais do que outras.
Uma que eu gosto muito chama “Coronel não morre”, que é um perfil de um coronel do Nordeste, e saiu na “Realidade”. Tem uma outra que eu
gosto muito também, que o assunto é o seguinte: a gente procurou na umbanda o pessoal que trabalha com exus, que trabalha com o mal. A umbanda,
teoricamente, trabalha com os orixás, com os santos do bem, mas tem uma linha que trabalha com o mal. Essa linha aceita encomenda para chamar a morte de alguém.

Ainda se fazem grandes reportagens, como as daquela época, hoje em dia?

Diminuiu um pouco o número dessas reportagens nos jornais em função da crise da imprensa. Porque não é só o repórter que faz a reportagem,
quem faz a reportagem é uma estrutura empresarial, porque você não faz a reportagem em casa para você mesmo, você faz para publicar em uma revista, em um jornal. E essa estrutura empresarial está em uma crise grave. O negócio do jornalismo apoiado na publicidade esvaziou com a internet.
Hoje, os grandes jornais nos Estados Unidos, na Europa, na Inglaterra e também no Brasil estão buscando formas de sobreviver como empresa, como negócio, na atual conjuntura de enfrentamento com a internet. E os americanos estão conseguindo, eu acho que as grandes capitais brasileiras também vão conseguir manter um grande jornal. Agora, os jornais pequenos, do interior, eu não sei se vão conseguir.

O sr. acha que o jornalismo ganhou ou perdeu relevância em um mundo tão conectado à internet em que as pessoas dispensam um mediador e vão direto a uma fonte primária para buscar informação?

Acho que é um assunto que ainda está em análise. Mas já se tem uma percepção que a internet vai mostrar o quão importante é o jornalismo profissional. A pessoa normal, que vive de informação da internet, teria que ficar 24 horas ligada à internet, é muita
informação. Ela não faria outra coisa na vida.
Já se sabe que a internet é uma ferramenta valiosa, mas é traiçoeira. Você não pode acreditar em tudo o que ela diz. Então, uma entidade, que seria
um jornal, uma revista, um noticiário de TV ou de rádio, que filtre para o cidadão as notícias e passe para ele só as relevantes, que tenham sentido,
e ignore essa poeira inconsistente do ponto de vista de conteúdo.
Esse tiroteio de informação vai valorizar a informação qualificada que um profissional treinado pode dar, que é o jornalista.
Então, de um lado, isso valoriza a função social do jornalista. De outro, minou a realização material da empresa. Por isso está acontecendo essa crise
no mundo todo e é preciso reencontrar uma fórmula empresarial que faça o jornal, a revista, o rádio e a TV sobreviverem. O telejornalismo depende da condição da empresa, pois jornalismo é uma coisa cara. E bom jornalismo é muito caro, precisa ter estrutura econômica e financeira para bancar isso.

É o que está em pauta no momento: as empresas jornalísticas conseguirem uma forma de se sustentarem.

O que o sr. pensa da formação do jornalista? O que é um jornalista bem formado? Esses parâmetros mudaram nas últimas décadas?

O jovem jornalista de hoje é melhor do que o jovem jornalista da minha época. Quando eu comecei não era obrigatório o diploma, a lei veio depois, com o golpe militar.
Um livro que eu fiz para o Sindicato dos Jornalistas sobre os seus 60 anos de existência teve a ambição de contar a história da imprensa de São Paulo, não vista pela empresa e pelos donos de jornal, mas sim pelos jornalistas. A gente fez uma pesquisa sobre o jornalismo daquela época e os jornalistas
filiados ao sindicato. Até 1997, o sindicato tinha associados como jornalistas vários analfabetos. A pessoa analfabeta entrava no jornal como motorista, como vigia, como porteiro, e, se gostasse desse negócio de jornalismo, ele ia se aproximando. Se tivesse uma emergência, mandavam esse cara mesmo para cobrir a pauta, e ele trazia as informações à redação e assim se transformava em jornalista.
Hoje em dia o jornalista chega ao jornal com quatro anos de universidade. Ele é muito melhor de formação do que o daquela época. O jornalista
melhorou muito.

Com toda a sua experiência, o que o sr. aconselharia a um jovem jornalista hoje?

O jornalista precisa ter duas coisas: vocação e formação. Quem quer ser jornalista, entrou na escola, deve tratar de se formar, de se instrumentalizar. Ele precisa de armas, porque o jornalismo é uma profissão muito competitiva. Um repórter quer ganhar do outro, é característica do jornalista essa luta para sair na frente, para ser o melhor. Se a pessoa tem vocação verdadeira para ser jornalista, deve conseguir uma boa formação, seja nos bancos da escola, seja através da leitura de bons livros.
O jornalista tem que ler bons livros, bons autores e bons poetas. A poesia é uma quintessência do pensamento humano: o poeta tem a antena da raça, ele vê antes os fenômenos do mundo, e o jornalista também precisa ver antes.
Se o jovem tem vocação e uma boa formação, ele faz seu caminho no jornalismo.

RAIO-X


Nome: José Hamilton Ribeiro
Naturalidade: Santa Rosa de Viterbo (SP), 1935.
Formação: jornalismo (não concluído)
Livros: escreveu 15, entre eles “O Gosto da Guerra” (1969), “Jornalistas 37/97” (1998), e “Os Tropeiros” (2006)
Prêmios: recebeu sete Prêmios Esso, um Prêmio Embratel de Jornalismo (2004), um Prêmio Internacional Maria Moors Cabot, entre vários outros.

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