Manifestantes rechaçam presença de partidos políticos em protestos

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PEDRO NEVES | RENATO BONFIM

»»»Gritos de ordem e ações contra partidos políticos foram comuns durante manifestações desde junho. O mote “sem partido” foi dito em diversos momentos pelos que protestavam enquanto as legendas políticas tentavam participar das reivindicações nas ruas do país. Para o sociólogo e professor da Fundação Getulio Vargas João Marcelo Ehlert, a aversão a lideranças partidárias em manifestações não é uma novidade. “Em manifestações nos anos 1980, em movimentos estudantis, as pessoas já criticavam a hegemonia de lideranças partidárias”.

 

Manifestantes erguem cartazes com críticas a “politiqueiros” durante ato em São Paulo | foto douglas clementino
Manifestantes erguem cartazes com críticas a “politiqueiros” durante ato em São Paulo | foto douglas clementino

Na avaliação de Ehlert, a diferença dos protestos da década de 1980 para os de hoje é que, embora criticados, os partidos conseguiam organizá-los.

Pesquisa realizada pelo Ibope e publicada pelo jornal “O Estado de S. Paulo”, em 19 de janeiro deste ano, mostrou que 56% dos brasileiros hoje não se identificam com nenhum partido político. Para Homero Santiago, professor de Filosofia da USP, houve um esgotamento da forma hierárquica de poder proposta pelo atual sistema político, no qual a ordem política é em forma piramidal, onde o “topo” é escolhido pela “base”.

Os manifestantes buscam uma forma horizontal de governo, sem lideranças e com pontos de vista diferentes interagindo. “O modelo político atual não mostra nenhuma perspectiva de futuro. As manifestações sem lideranças evidenciam a situação, correndo por fora, propondo uma inovação no atual sistema”, completa Santiago.

Inicialmente propostos pelo MPL (Movimento Passe Livre), os atos de junho proliferaram pelo Brasil, levando às ruas pautas como a falta de estrutura no Sistema Único de Saúde (SUS), críticas à proposta da PEC37 (que restringia o poder de investigação do Ministério Público) e até pedidos de renúncia de políticos eleitos.

Santiago acredita que a falta de alguém que comande as manifestações não abalou a organização e estimulou ainda mais a pluralidade de pautas discutidas. “Se houvesse uma liderança, ela canalizaria as pautas. A ausência proporcionou a diversidade de assuntos”. Para Ehlert, as manifestações de junho eram mais concentradas e massivas, e agora elas se proliferaram e estão mais dispersas, com menos pessoas.

 

Reforma política

A insatisfação da população com o atual sistema apareceu em pesquisa divulgada pelo Ibope em agosto. A revolta é o principal fator que desencadeou as manifestações para 37% das pessoas, enquanto 32% afirmaram que os protestos surgiram após a sensação de descaso por parte da classe política.

A pesquisa ainda atestou o desejo de reforma política por 85% dos brasileiros – quesitos como a estrutura de financiamento de campanhas e as regras para eleição de deputados são postos em xeque. O historiador e professor da ESPM-SP e do Centro Universitário Belas Artes, Sidney Ferreira Leite concorda: “Os manifestantes são contra a participação dos partidos políticos porque veem nesses a causa da corrupção que invadiu o campo da política no país. Há um desejo de pureza e de mãos limpas, que, de certa forma, é legítimo e uma das principais bandeiras dos manifestantes”.

Para Leite, ainda não houve uma resposta às reivindicações por uma reforma no sistema. “As manifestações recolocaram a reforma política na ordem do dia, mas não promoveram as discussões. As estruturas políticas, especialmente as mais arcaicas, demonstram um enorme poder de resistência. Os movimentos de junho não abalaram essas estruturas e grupos, que estão agora barganhando espaços e cargos para as eleições de 2014”.

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