Minimalismo: quem acredita no poder do desapego material?

Edição 15 - Consumo Consumismo

Portal de Jornalismo

por Guilherme Santiago e Yasmin Marcondes

Na contramão do consumo e da produção desenfreada de bens materiais, surgiu a prática do minimalismo. O termo, conhecido por incentivar o desapego material, proporciona mais do que uma sala vazia e sem muitos objetos de decoração. Quem adota e coloca em prática esse estilo de vida tem em mente otimizar o seu tempo para viver o melhor que o nosso cotidiano tem para oferecer. O conceito chama a atenção de muitas pessoas e existem, ainda, aquelas que o praticam sem saber, como a jornalista Rosana Radke. “Eu já aplicava o minimalismo sem saber, eu usava sem conhecer o termo”, conta.
Com as redes sociais e os influenciadores digitais em expansão, os estímulos ao consumo se tornam cada vez mais presentes em nossas vidas. Diariamente somos bombardeados com propagandas e anúncios que nos impulsionam a comprar e consumir.

Há quem pense que o estilo de vida minimalista é moderno e totalmente contemporâneo, mas cuidado, apesar de o termo ter sido cunhado no século 20, esse estilo de vida é antigo: é preciso revisitar a história para encontrarmos a origem dos ideais que os minimalistas seguem atualmente. O estoicismo, conceito criado na Grécia antiga, apontava que a felicidade deveria ser o centro da vida das pessoas, e o estado de felicidade era inteiramente ligado à simplicidade. O clichê “menos é mais” é um reflexo claro dessa ideia.

Uma pesquisa sobre o panorama do consumo no Brasil, realizada pelo Instituto Akatu em 2018, evidencia que diariamente somos bombardeados com propagandas e anúncios que nos influenciam a comprar e consumir sem uma reflexão sobre se a compra é realmente necessária. O estudo concluiu que 76% dos consumidores brasileiros se mostram indiferentes em relação ao que e como estão consumindo. Porém, mesmo com a alta carga de influências externas, há pessoas que decidem mudar de vida e escolhem viver apenas com o necessário.

Reduzir é a nova regra
Viver com menos peças de roupas, por exemplo, é viável. A jornalista Rosana Radke diz que vive com três pares de calça. O consumo de moda sustentável, segundo Beatriz Poletto, designer de moda e repórter digital da Harper’s Baazar Brasil, ainda está engatinhando. Parece loucura, não? Mas, em contrapartida às muitas marcas que produzem peças e mais peças, algumas grifes apostam no “comprar melhor”. A designer comenta que a grife tem usado a ideia de buy less (compre menos), mas compre coisas melhores e que durem mais, para não ter tanta produção, sem sentido. “Algumas empresas estão começando a incentivar isso, como a Vivienne Westwood, que desincentiva a compra da própria marca”, exemplifica Beatriz.

O que se diz sobre o minimalismo

Consumo consciente
Área expoente para a onda do consumo com mais consciência, a economia comportamental surgiu em meados de 1970, e para Carolina Ruhman Sandler, especialista no assunto, é essencial o equilíbrio na hora de gastar o salário. “O ideal é que a pessoa gaste até 30% da renda com compras, presentes e lazer”, afirma a especialista, que está à frente do site Finanças Femininas, plataforma de educação financeira.
Mas objetos materiais agregam à realização pessoal? Para Carolina, a resposta é: não. E existem estudos psicológicos para sustentar a conclusão.
De acordo com o pisicólogo Tim Kasser, quanto mais materialistas somos, maiores as chances de desenvolvermos depressão e outros distúrbios. “Quando compramos, vem uma descarga hormonal grande de dopamina, ficamos felizes, mas por pouco tempo, aí se inicia um ciclo sem fim”, comenta Carolina.

Fernanda Marinho

Trabalha com Educação Corporativa. Ela adotou o estilo de vida minimalista após enfrentar problemas de saúde, ter ido morar com sua mãe e precisar economizar dinheiro. Para ela, o minimalismo não é uma característica de uma pessoa e sim uma forma de ver a vida. “Significa focar naquilo que é essencial para você e desapegar do que é supérfluo”, diz. “É um exercício constante de foco e escolha consciente”, explica. Atualmente, Fernanda compartilha suas experiências e ideias em um blog (www.minimalizo.com.br) e conta que o principal benefício que esse jeito de levar a vida trouxe redução de gastos e, por consequência, mais independência financeira. Para ela, adotar esse estilo significa se desvincular de alguns hábitos

Rosana Radke

Entrou de cabeça nesse estilo de vida em 2016. A jornalista, que divide o seu tempo entre ser mãe, ter um canal no YouTube e cuidar da casa, acredita que a prática do minimalismo, ou consumo consciente, como prefere chamar, fez com que ela aprendesse mais sobre si mesma e o que é realmente importante. “A partir do momento em que eu aprendi a identificar o que é mais importante, eu soube como destinar o meu tempo”, afirma. Para ela, a máxima de que tempo é dinheiro não tem vez. Rosana considera que tempo é vida, e direcioná-lo para o que é realmente importante é o seu grande aprendizado sobre o minimalismo “As pessoas não costumam pensar no quanto vale o tempo delas, elas apenas consomem sem pensar.”

Marília Savio

É formada em Publicidade e mora em São Paulo. Para ela, o minimalismo consiste em eliminar tudo aquilo que não faz mais sentido em sua vida. A principal mudança que a decisão de largar o supérfluo e escolher o essencial trouxe para ela foi na maneira de consumir. “Visitava shoppings com objetivo de comprar. Essa necessidade era emocional e descontrolada, não comprava porque precisava, consumia apenas para me sentir bem”, conta Marília. “Passei a ter mais tempo, equilíbrio emocional, praticidade e energia positiva”. Atualmente, ela administra uma conta no Instagram com mais de 100 mil seguidores e mostra a possibilidade de decorar com estilo minimalista.

Rebeca de Moura

É arquiteta e acredita que o minimalismo vai muito além da decoração e de regras para serem seguidas. Segundo ela, minimalismo é encontrar o equilíbrio e cada indivíduo desenvolve uma prática particular do minimalismo. Rebeca acredita que esse estilo de vida também pode ser aplicado no modo como a pessoa se comporta na sociedade. Além disso, conta que “falar menos, falar quando necessário e ouvir mais” são atitudes que condizem com o minimalismo. Ela se deu conta que seria necessário alterar a forma como levava a vida quando percebeu que era muito jovem para ter tanta coisa. “Aprendi a não acumular um monte de coisa negativa e coisa que não serve para nada.”

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