Mulheres atravessam a noite paulistana em busca de uma vida melhor

edição 03 - madrugada paulistana - sp24horas

Da Redação

DANIELLA GEMIGNANI | MARINA SAAD

Foto: Erivam de Oliveira
Foto: Erivam de Oliveira

 

– Me paga um drink?

O pedido é feito em voz alta, em tom quase caricato. Thaís é morena, baixa, cabelos enrolados, aparentando 30 e poucos anos. A única no salão usando óculos, com uma armação discreta. Extrovertida, sua abordagem começa de forma descontraída e a conversa flui sem grandes preocupações. Suas roupas são curtas, cobrindo apenas o necessário, mas sem vulgaridade. Mora em Sorocaba e vem para São Paulo nos finais de semana para trabalhar. Já foi funcionária de uma grande empresa, onde ganhava um bom salário.

Hoje, é prostituta.

Dentre os trabalhos tipicamente associados à noite, a prostituição é dos mais envoltos em mistério. Sim, trabalho. Segundo o Código Penal brasileiro, prostituir-se não é crime. “Crime é favorecer e explorar a prostituição”, afirma a advogada criminal Juliana Moreira. Não é permitido pela legislação manter uma casa noturna que induza esse tipo de atividade, por exemplo.

“No Brasil, pune-se aquele que explora ou tira proveito da prostituição alheia. Importante ressaltar que não se configura crime quando existem pessoas que dependam financeiramente da prostituta, por exemplo, seu filho, pais ou familiares desempregados que se encontram em situação de difícil sobrevivência. O crime se configura para aquele que tem a possibilidade de se empregar, mas não o faz”, completa.

Ainda assim, estabelecimentos como esses são frequentes por toda a cidade de São Paulo, principalmente em um dos pontos mais badalados da capital, a rua Augusta.

Na região, uma sequência de casas chama a atenção. Letreiros em neon, portas pequenas coladas umas às outras, a discrição e o olhar atento dos seguranças. A dificuldade em ter acesso às boates e conhecer a história dessas garotas revela o quão tabu o assunto é no país.

Antes de entrar, ouvidos um aviso: “Pagando, pode até tentar falar com as meninas, mas duvido que alguma delas dê entrevista”. O alerta veio do gerente.

O ambiente é escuro, e a televisão transmite aquilo que é o assunto comum a todos no ambiente: sexo. Uma menina, de vestido curto, exibe-se ao som do funk, revelando que o primeiro requisito para uma prostituta se dar bem na noite é chamar mais atenção que as outras. A ideia de cada um por si é reforçada por Thaís. Experiente, a garota de programa de 34 anos conta que o convívio entre as meninas é bom até a chegada de um cliente. “Às vezes já estamos conversando com um cara, mas a outra fica provocando até roubá-lo. Isso é atravessar.”

Entre um drink e outro, Thaís explica que há uma diferença entre prostíbulos e boates. Segundo ela, só podem ser chamados de “puteiros” os lugares em que o programa, com duração de uma hora, custa menos de R$ 100. Na boate em que trabalha, por meia hora com uma prostituta cobra-se R$ 150, sem contar o aluguel do quarto, de R$ 35. E esse valor pode subir se as garotas perceberem que podem ganhar mais dinheiro de um único cliente.

“Em uma noite boa, conseguimos ganhar até R$ 2.000. A casa só desconta o valor do quarto e multa se alguma menina beijar na boca do cliente em público”, detalha Thaís. A penalização é de R$ 50.

Outra regra da boate é o rígido controle das doenças sexualmente transmissíveis. Ao ser contratada, a prostituta passa por uma série de exames para detectar possíveis doenças. Além disso, Thaís afirma que ao fim de cada programa deve mostrar, a um supervisor da casa, a camisinha usada, para provar que seguiu as normas.

Foto: Erivam de Oliveira
Foto: Erivam de Oliveira

 Trabalho

Thaís entrou tarde na prostituição. Mesmo assim, não parece incomodada ao falar de seu trabalho e nem de como chegou a ele. “Eu trabalhava em uma multinacional, mas, um dia, fiquei curiosa”, conta. A curiosidade falou mais alto e fez com que ela se tornasse garota de programa. Ela ainda mostrou outro lado de quem trabalha na noite, contando que, durante o dia, faz faxina.

Interessada na conversa, sugere que outra colega contasse sua história. “A Sandrinha é bem sincera, vai falar umas verdades”, diz, empolgada. E é nesse momento que Sandra se apresenta. Loira, cabelos compridos e com o corpo quase inteiro exposto, senta-se e pede um drink.

Ela fala sobre a ligação entre drogas e prostituição. “Durante os programas rola muito, principalmente cocaína, mas juro que nunca usei. Não tenho coragem”, confessa. Os clientes mais frequentes, segundo afirma Sandra, são garotos por volta dos 20 anos de idade e casais.

Ao contrário de Thaís, Sandrinha entrou na prostituição pelo dinheiro e não gosta de fazer programa. Por isso, está economizando o que ganha para tentar mudar de vida. Quando passa a noite com um cliente, cobra R$ 500. Com 25 anos, Sandra esconde da família o que faz para viver. Sua mãe, que mora em Santos, litoral de São Paulo, acredita que a filha trabalha em um hotel, e só a irmã sabe a sua realidade na capital paulista.

 Por conta própria 

Exposição, vulnerabilidade e independência. É nesse cenário que trabalham as prostitutas de rua. Selecionando quem elas querem atender, essas profissionais veem a relativa liberdade de escolha como vantagem, mas temem por sua segurança. Por esse motivo, muitas delas andam armadas. É o que conta a estudante de turismo Bárbara, 20 anos. Além da faculdade, há quatro meses ela frequenta as noites da Augusta, para complementar sua renda. Mas confessa que a dupla jornada tem sido exaustiva e, por isso, pensa em abandonar a graduação.

A feição de menina contrasta com as roupas e a atitude de mulher. Apesar da pouca idade, a baiana tem muita história para contar. “Em uma noite, atendi um grupo de oito homens em um mesmo programa. Naquela madrugada, já tinha feito quatro sessões e, pela manhã, ainda atendi mais um cara”, revela. Uma hora com Bárbara custa R$ 200. No entanto, muitos homens estão dispostos a pagar valores mais altos para que a garota realize fetiches.

Ao lado dela está Júlia, de 26 anos. Considerada novata por estar há apenas um mês se prostituindo, ela começou a trabalhar na noite para ajudar nos gastos. Vinda de Minas Gerais e morando em São Paulo há dois anos, seu emprego como cuidadora de idosos não é suficiente para se sustentar na maior cidade do país e para enviar dinheiro à sua família.

Júlia parece estar sempre protegida por Bárbara, que muitas vezes responde pela amiga. Essa relação de proteção mútua é frequente entre as garotas de programa. Para conquistarem o ponto onde trabalham, as jovens prostitutas tiveram que pedir permissão para uma garota mais experiente. “Não tem dinheiro envolvido. Pedimos autorização, e elas cuidam da gente, porque há muito cliente mal intencionado”, explica Bárbara.

Apesar da falta de segurança, Bárbara diz trabalhar na rua por opção. O emprego em uma casa noturna fazia com que ela se sentisse coagida a sair com determinado cliente. Além disso, a competição entre as garotas de programa que trabalham por conta própria é mais implícita, se comparada àquela em uma boate. Por esse motivo, ela levou a amiga para trabalhar diretamente nas ruas.

 Motivos 

“A gente precisa disso. Estamos passando fome.” Foi com essa frase que Bárbara fez sua mãe entender a necessidade de ver a filha sair de casa e se prostituir. Ainda assim, ela esconde o fato de conseguir clientes nas ruas. A jovem insiste que continua trabalhando em uma casa noturna, o que transmite à mãe uma maior sensação de segurança.

Por outro lado, Júlia admite que seus familiares não imaginam de onde vem o dinheiro que a garota envia todos os meses a eles.

Mesmo com as diferenças, as duas carregam um sonho em comum: deixar a prostituição para sempre. Para isso, elas afirmam que têm economizado o dinheiro dos programas.

O tempo está passando, e a juventude, ficando para trás. Para Bárbara, o fim dos programas representa não ter que se esconder. “Quando pessoas conhecidas passam por aqui, eu digo que não estou fazendo mal a ninguém além de mim mesma. Mas não desejo isso a nenhuma jovem”, desabafa.

Deixe Seu Comentário

*Preenchimento obrigatório.