Nova edição da revista Plural debate formas de amar no século XXI

 Chimene Araújo

Letícia Teixeira

Shelse Alves

Tainá Valadares

Priscila Cukierkorn

»»»Dona Eulália abriu a janela de seu quarto e se debruçou nela, olhando para a casa ao lado e esperando seu amor chegar. Era um retrato muito parecido com o daquelas bonecas namoradeiras encontradas nas janelas das casas coloniais do interior do país. Pouco tempo depois, seu amor, Florisvaldo, aparece.

Ele pergunta como foi o dia da moça e por um tempo eles permanecem assim, conversando e namorando pela janela. Era o que se fazia naquela época, há exatos cinquenta anos. E essa cena se repetiu todos os dias  por pouco mais de dois anos.

Foto: Beatriz Consolin

Casal de namorados em tarde romântica no parque | Foto: Beatriz Consolin

Hoje, a cena seria muito improvável. Novas formas de se relacionar ganharam força. Em um momento de individualismo e dependência digital, globalização e capitalismo, namorar pela janela é quase inconcebível.

A não ser que sejam pelas janelas da rede, as janelas da internet.

É o caso de Ricardo Moronato. Ele namora há 10 meses com Jaqueline de Oliveira, que conheceu pelo aplicativo Tinder. Os dois se encontraram pela primeira vez no metrô Consolação, em São Paulo, após uma semana de conversa na rede.

É a primeira relação dele que começou virtualmente e ele diz que se sente muito mais seguro usando o aplicativo: “O bate-papo pelo aplicativo facilita as coisas para quem é tímido e não tem facilidade de chegar nas pessoas”, comenta.

Práticas como essa fazem parte de hábitos que já despontam nos romances contemporâneos, especialmente entre gerações mais jovens. Outra tendência, essa não relacionada à evolução das tecnologias de comunicação, é a de manter relacionamentos abertos.

A ausência de comprometimento que caracteriza inúmeras relações hoje – tanto pessoais como profissionais – é, no entender do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, o que caracteriza a nossa “sociedade líquida moderna”, em que a fluidez das relações, o consumismo e o individualismo exacerbados dificultam o estabelecimento de vínculos profundos.

Nessa sociedade, diz ele, vivem-se “amores líquidos”. O termo abrange ainda os chamados “relacionamentos de bolso”, que o indivíduo vive quando o interessa para depois voltar a guardá-lo, sem mágoa, sem drama – sem a dor do rompimento. “Esse tipo de experiência é a própria dissolução do contrato social”, afirma Renato Nunes, sociólogo e estudioso de Zygmunt Bauman.

Influenciados pelos valores contemporâneos e pelo avanço da tecnologia, os relacionamentos atuais estimulam, muitas vezes, contatos frágeis e efêmeros, como pontua a psicóloga Pâmela Magalhães. “A proposta das novas gerações respeita o ritmo da contemporaneidade. Tudo é muito rápido, essa geração é muito ansiosa, imediatista. Então a proposta de viver um relacionamento, viver as contingências dele, viver as frustrações, não é uma característica deles. A forma com que o cérebro é conduzido e condicionado é a de não esperar. De não ter paciência”, afirma.

Grafite e pichações em muro de São Paulo | Foto: Silvio Júnior

Grafite e pichações em muro de São Paulo | Foto: Silvio Júnior

Mas engana-se quem pensa que as chamadas “relações líquidas” dominam o panorama do amor no século 21, pois elas não são hegemônicas. Convivem com o amor como tradicionalmente o entendemos, romântico e duradouro, de vínculos profundos, “na alegria e na tristeza”. Isso cria um paradoxo: após a onda hedonista, muitos relacionamentos voltaram a ser conservadores, mas agora sintonizados ao capitalismo, à globalização e às novas tecnologias. É o que o historiador Roberto Coelho chama de “ciclo em espiral”.

“Cada vez que esse ciclo vai terminar uma volta, ocorre uma modificação nas percepções cotidianas e nas percepções do relacionamento. Ou seja, nós estamos entrando num ciclo que deverá dar num modelo conforme os relacionamentos eram há 30, 40, 50 anos, agregado à toda tecnologia que temos hoje”, explica.

Coelho diz que embora ocorra um desapego nas relações, o que é fruto dos movimentos dos anos 1970 e 1980, estamos em fase de refluxo. “Hoje existe um ciclo informático, e as pessoas ficaram mais individualistas. Mas, no final das contas, a juventude de hoje é muito mais conservadora do que a juventude da década de 1970, 1980. A gente ficou mais bobão”, conclui.

Individualismo e capitalismo

Os conceitos de amor líquido e modernidade líquida fazem parte de um mundo capitalista e de uma noção individualista provenientes da Revolução Industrial que teve início no século XIX. Renato Nunes conta que a sociedade passa por uma lógica que estimula o consumo, o sucesso a qualquer custo e a competitividade, o que faz com que o indivíduo acabe incorporando a necessidade de ter sucesso e o medo de fracassar. “Existe uma certa incerteza na sociedade pós-moderna, e então o próprio amor entra nessa lógica”

Por conta dessa realidade, o ato de se relacionar se torna muito mais difícil. “Como, com essa vertente de pensamento, eu posso pensar em me relacionar? Os movimentos de troca acabam se tornando muito mais difíceis, o que dificulta também a empatia e a flexibilidade”, explica Pamela Magalhães.

Coelho pontua também que esse tipo de prática implica em novas mudanças de hábitos por parte dos indivíduos. “É por isso que as mulheres voltaram a ter cabelos compridos, voltaram a usar vestido, saia. Porque elas precisam ser femininas para mostrar que estão aptas a um casamento.”

Cultura cíclica

Se fizermos uma viagem no tempo e analisarmos os modelos de relacionamento ao longo dos anos, poderemos identificar claramente as mudanças nos rumos do afeto até chegar aos modelos existentes hoje. A posição do historiador Roberto Coelho, porém, é outra. Ele afirma que o que mudou foi a sociedade, a cultura da sociedade e não os relacionamentos em si.

“Os relacionamentos humanos não mudaram muito. A química entre a aproximação ou a rejeição de uma pessoa ainda é a mesma. O que mudou foi a tecnologia. A sociedade foi mudando conforme ela foi se ‘tecnologizando’. Houve uma mudança cultural. Hoje nós vivemos em uma cibercultura.”

Coelho pontua que antigamente as relações duravam mais porque a mulher era submissa ao homem, e que essa situação só começou a mudar quando ela foi ganhando independência.  “O mundo só ficou mais feminino a partir dos votos universais. É a primeira participação séria e definitiva das mulheres. Foi quando a mulher descobriu que podia se sustentar”, diz. Já o sociólogo Renato Nunes pontua que o fato de os relacionamentos de antigamente serem mais duradouros não significa que eles eram mais profundos.

“Uma sociedade de patriarcalismo, de dominação do homem, não favorece uma experiência autêntica de relacionamento amoroso. A durabilidade não é a única coisa que determina a qualidade de uma relação”, comenta.

Paradoxo

Giuliana Kaori viveu esse paradoxo. Até os 17 anos, a jovem nunca havia tido um relacionamento sério. Ela tinha o hábito de conversar e se relacionar com as pessoas nas redes sociais, onde conheceu o seu primeiro namorado. A partir de então, ela entrou em uma relação destrutiva.

“A gente chegou a se conhecer pessoalmente, mas começamos a namorar sem nos conhecer. Isso aconteceu durante um tempo e a gente se via só uma vez por mês. Aconteceu muita mentira, muita desconfiança. Então isso foi muito complicado. Eu sofri muito nessa relação”, explica.

Depois do término, Giuliana passou por uma fase em que não queria nenhum relacionamento. “Eu tive a minha fase em que não estava nem aí para nada, e nesse período eu passei um tempo sozinha, mas isso não durou muito. Depois, eu tive aquele momento que você se sente pronto, maduro para entrar em um relacionamento”, conta.

Após essa experiência, Giuliana passou por duas relações muito intensas: um relacionamento efêmero em um intercâmbio no Canadá e um relacionamento aberto. “A gente se envolveu sabendo que não ia dar certo. E a minha visão sobre isso é que é um relacionamento fadado a dar errado. Uma hora um ou outro tem mais ciúme e vai cobrar mais do que o outro quer oferecer”, explica.

Esses tipos de relacionamento causam estranhamento entre pessoas mais velhas. Dona Eulália, que é casada há cinquenta anos e estava acostumada a namorar pela janela, não entende a facilidade de separação dos casais hoje em dia. “O que eu vejo hoje é que os casais se separam por qualquer problema, mas nós resistimos”, comenta.

A psicóloga Pâmela Magalhães diz que não devemos invalidar os novos modelos de se relacionar, já que eles não são totalmente ruins, embora possam, em excesso, condicionar o indivíduo a viver sozinho. “Essas pessoas podem ficar condicionadas à ideia de novidade. Sempre ligadas a experiências diferentes, sempre querendo viver a excitação e a emoção de conhecer novas e muitas pessoas”, explica.

Esse tipo de experiência pode fazer com que o jovem se sinta despreparado para um relacionamento profundo. “Essa geração não desenvolveu recursos suficientes para lidar com um relacionamento que envolve comprometimento, tolerância, responsabilidade, envolvimento, possibilidade de decepção, de crescimento pessoal. Querer se relacionar profundamente está longe do poder. Para que isso aconteça, a gente precisa desenvolver recursos”, explica.

Liberdade sexual

A história da gaúcha Caroline Fortes, de 20 anos, ilustra bem as transformações dos relacionamentos nas últimas décadas. Depois de uma experiência de relacionamento à distância, a jovem se descobriu bissexual e hoje tem uma relação aberta com uma garota.

Tudo começou há quase quatro anos, quando Caroline conheceu seu ex-namorado em uma festa. Eles tiveram uma conexão logo de cara e decidiram namorar à distância. “Ficávamos uns dois meses juntos e um mês depois ele voltou para lá [a Austrália, onde morava]. Ficamos dois anos juntos depois disso.” Foram três anos e meio ao todo, entre idas e vindas, diz.

Depois desse relacionamento, que terminou em fevereiro de 2015, Caroline decidiu experimentar novas formas de se relacionar. Foi a partir daí que ela se descobriu bissexual. “Eu sempre fui muito aberta a esses assuntos de ficar com garotas. Eu queria ver como é que era”, conta. “A primeira vez que eu fiquei com uma mulher não foi muito natural, mas depois eu me acostumei com a situação e as coisas foram acontecendo mais normalmente”, completa.

Esse relacionamento rendeu a Caroline uma outra experiência comum hoje em dia e que expõe o paradoxo afetivo do século 21: ela vive um relacionamento aberto com a sua nova namorada.

Caroline considera que essa experiência foi uma boa solução por não querer se envolver neste momento e que a proposta partiu dela. “Eu não quero me envolver com ninguém e não quero abrir mão disso, de ficar com as outras pessoas. Então nós combinamos que seria um relacionamento aberto. É bem difícil porque ela não gosta muito dessa ideia”, comenta.

A jovem diz que esse tipo de relacionamento requer regras. “É uma relação um pouco mais distante. A gente pode ficar com outras pessoas, mas a gente não conta uma para a outra. Eu nunca conheci a família dela e ela nunca conheceu a minha, por exemplo”, explica.

“A gente tem que ter muito cuidado para não invalidar os modelos de hoje e enaltecer o que era ontem, mas sim identificar as diferenças. Os relacionamentos duram menos, mas as pessoas se relacionam muito mais”, afirma a psicóloga Pamela Magalhães.

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