O que significa “ser homem de verdade”, atualmente?

edição 11 - opressão - opressão

Renato Essenfelder

Por Jacqueline Aliandro, Thales Silveira e Victoria Terra

»»»Não pode chorar. Tem que ser forte, gostar de futebol e de carros; brigar, se for desafiado. Não deve demonstrar seus sentimentos a ninguém. Tem que “pegar” todas as meninas. Não pode gostar de fazer compras. Não pode se preocupar muito com a aparência. Fazer as sobrancelhas? Jamais. Depilar-se? Nunca. Brincar com bonecas na infância é inaceitável. E, se em algum momento da vida se declarar homossexual, é porque “não é homem de verdade”.

Essas são muitas das coisas que homens ouvem ao longo da vida, desde a mais tenra infância, quando o quarto deve ser pintado de azul e cercado de carrinhos de brinquedo. Mas será que ser homem é só isso mesmo? O que significa ser homem?

Aparentemente simples, a pergunta é difícil de responder. Quando confrontados com essa questão, muitos tentam se esquivar. É compreensível, pois o tema não é amplamente discutido. Historicamente, o papel do homem se estabilizou na figura do caçador-provedor, mas, com a ascensão do movimento feminista e das críticas à estrutura patriarcal da sociedade, esse conceito foi posto em xeque. O problema é que nenhum outro assumiu seu lugar, criando uma espécie de vazio no ideal masculino.

Questionado sobre o que significa ser homem hoje, o estudante de Publicidade e Propaganda da ESPM Bruno Binoto demorou para formular sua resposta. No fim, pontuou que “homem é como a pessoa se considera, mas, em relação à orientação é outra coisa. Não tem nada a ver com a orientação sexual”, declara.

Já Rafael Cholak, também estudante de Publicidade, diz que para ele não haveria diferença entre ser homem ou ser mulher. Do ponto de vista prático, afirma, não deveriam existir “tarefas de homem” e “tarefas de mulher”, mas apenas tarefas. “Se eu fosse mulher eu acho que eu seria do mesmo jeito que eu sou agora.”

Marques da Silva trabalha na Engenharia da ESPM e relaciona o masculino a valores tradicionais. “Ser homem é ser uma pessoa leal, honesta, principalmente no lar, dividindo as tarefas do dia a dia e estar ajudando o próximo”, diz.

Em geral, homens mais velhos têm opiniões mais firmes sobre o que significa ser homem, enquanto os mais jovens manifestam pontos de vista mais diversificados. A falta de discussão sobre o tema – já que o debate de gênero é dominado por questões ligadas à opressão às mulheres e à comunidade LGBT – não ajuda a formar consenso.

Hoje, muitas mulheres já se colocam como provedoras do lar e independentes em relação aos homens, o que alimenta o vácuo criado sobre o papel que o homem deveria exercer. A libertação feminina coexiste com a forte estigmatização dos gêneros, então, quando os papéis tradicionais se invertem e a mulher sustenta a casa enquanto o homem cuida dos filhos, ele é julgado impotente e “encostado”. Mesmo assim, cada vez mais os homens aceitam que as mulheres devem sim mostrar sua independência.

Para João Pedro Vilar, estudante de Administração, está cada vez mais difícil discernir as obrigações de homens e de mulheres. “Para mim, ser homem não tem muito uma definição. Eu acho que a gente está cada vez mais desenvolvendo essa discussão de gêneros, os papéis estão ficando cada vez mais iguais”. Matheus Nunes, 20 anos, crê que ser homem é uma questão biológica, não lligada a deveres sociais. “O dever do homem é igual ao da mulher, basicamente ser um bom cidadão”, defende.

Se a masculinidade é uma construção social e histórica, então o que significa ser homem, hoje? Não há resposta. Ou melhor, o tema precisa ser mais debatido pela sociedade para que cada um ache a sua própria resposta.

Deixe Seu Comentário

*Preenchimento obrigatório.