“Quase celebridades”, jovens tentam conciliar estudos com busca da fama

Maju na Agência de Jornalismo da ESPM

Maju na Agência de Jornalismo da ESPM

 

Carolina Brandileone

Mariana Yole

Rafael Simões

 

»»»Em um dia você é uma pessoa comum. No outro, não mais. É assim que a fama acontece na vida de algumas pessoas e, principalmente, dos jovens que hoje usam as redes sociais para conquistar, mais do que likes, a popularidade.

Ainda adolescentes, esses “famosos da internet” são seguidos por multidões em redes sociais como Instagram, Snapchat e Twitter e passam a ser conhecidos como influenciadores digitais. Esse título, porém, não é sinônimo apenas de badalação e tratamento VIP. A transição para a tão desejada vida de celebridade pode ser mais difícil do que parece, e muitas dessas figuras que estão em alta enfrentam jornadas duplas ou até mesmo triplas de trabalho, estudo e dedicação às redes sociais, até conseguirem efetivamente “viver da fama”.

Apesar das redes sociais serem recentes, a questão da busca por popularidade e reconhecimento é antiga. “O desejo pelo reconhecimento é o desejo pela aceitação coletiva, que valoriza o indivíduo em suas escolhas, fazendo com que ele se sinta integrado pela sociedade”, enfatiza o sociólogo Rafael Carneiro. Segundo ele, a aceitação pode render uma valorização pessoal, a eternização de um nome e até mesmo recompensas materiais.

Na verdade, a história da busca pela fama é tão antiga que remonta aos mitos gregos. É possível traçar um paralelo entre o herói Aquiles e a celebridade. Na obra de Homero, a glória seria morrer na Guerra de Troia, e a vida sem uma glória seria uma vida sem sentido. “Com o reconhecimento há a possibilidade de superar as limitações da própria morte”, conclui Carneiro.

 

Fama x Privacidade

Talvez as celebridades modernas não estejam tão preocupadas com as mensagens póstumas que deixarão, mas uma coisa é certa: assim como Aquiles, elas desejam ser lembradas.

E para alcançar seus objetivos, como ter milhões de seguidores no Instagram, milhões de inscritos no Youtube ou até milhares de comentários nos textos de seus blogs, vale dividir o café da manhã, a aula de ginástica, o salão de beleza e os “jobs” com o maior número de pessoas possível. Pode-se chegar à exposição da intimidade sexual, como no caso da socialite americana Kim Kardashian, que foi parar nos tablóides após ter um vídeo de sexo “vazado”. Quanto mais, melhor.

Não é à toa que, para a psicóloga Raquel Franco, não existe uma fórmula fixa  fama e privacidade. Ela explica que é sempre preciso avaliar prós e contras da situação, e isso tem que ser feito de forma individual. “O que para um é invasão de privacidade, para outro é reconhecimento da sua existência, é a forma de viver”, afirma.

Embora o direito à privacidade seja assegurado pela Constituição, na contemporaneidade as fronteiras entre a vida pública e a vida privada são nebulosas, e isso não se dá somente pelo desenvolvimento das tecnologias de comunicação. “Com o processo de desencantamento do mundo, ocorre uma redefinição das ideias de ídolo”, explica Rafael Carneiro.

Para ele, esses novos ídolos são próximos e reais, mundanos e palpáveis. Assim, produzem materiais físicos que podem ser reproduzidos, vendidos e consumidos. Isso justificaria então a existência de pessoas que preferem transformar a vida particular em um Big Brother da vida real para se tornarem cada vez mais conhecidas.

No Brasil, essa receita para a fama é quase certa, particularmente por conta do comportamento nacional em redes sociais. A pesquisa “Futuro Digital em Foco – Brasil”, da consultoria comScore, confirma a importância da internet e das mídias sociais entre nós. No ano passado, os brasileiros foram o povo que mais gastou o seu tempo nesses sites, tendo uma média 60% maior do que a do resto do mundo.  A pesquisa mostra que 67,9% dos acessos à internet no país são direcionados ao Facebook, maior rede social do mundo, contra 13% ao Youtube.

 

Vida dupla 

Mas o que vem entre a fama e o anonimato? Faculdade, assessoria, trabalho, críticas, preconceitos e julgamentos. Esses são alguns desafios presentes no dia-a-dia de quem está entre os dois mundos.

Famoso aos 13 anos por ter sido Colírio da revista Capricho, um concurso que escolhia toda semana um menino bonito, falava um pouco sobre a sua vida e postava fotos suas na internet, Leonardo Picon soube aproveitar as oportunidades que surgiram para não sair mais do topo. Com 15 anos, abriu sua empresa de roupas, chamada Approve, e possui hoje, aos 20, mais de um milhão de seguidores no Instagram. Vive na pele essa “vida dupla”.

Com uma agenda cheia e uma rotina corrida, ele está em cartaz no teatro, com a peça teen “4 ever, a Última Noite” e concedeu entrevista à Plural durante o intervalo entre uma reunião de trabalho e uma aula do curso de administração, carreira que sempre almejou. Hoje, tenta relacionar os estudos ao que enfrenta na sua rotina de trabalho.

— Meu pai tem uma empresa e, desde pequeno, perguntavam o que eu ia fazer quando crescer. Era certo que eu iria tocar a empresa dele e eu meio que acreditava nisso.

O dono da Approve é só mais um exemplo dos jovens que vivem a vida em função de sua imagem, o que já o levou a participar de propagandas, eventos e até parcerias com grandes marcas. Mas como se manter na “crista da onda”? Para isso, os aspirantes à fama procuram se manter ativos em suas redes sociais, fazer contatos que abram portas na sua carreira e produzir conteúdos que despertem interesse do público.

É importante ressaltar que essa nova possibilidade de se tornar um famoso se deu, majoritariamente, por conta da internet. Por ter se tornado o principal meio de as pessoas se comunicarem e trocarem informações, é nela que celebridades e anônimos colocam a cara para bater em busca de popularidade.

No caso de Maria Julia Silva, estudante de jornalismo, embaixadora da Seda e com mais de 150 mil seguidores no Instagram, o principal problema nesse momento de sua vida é conciliar todos os compromissos com apenas 18 anos.

Mesmo contando com o auxílio do pai, Maju, como é conhecida nas redes sociais, ainda procura por ajuda. “É uma doidera mesmo, eu estou tentando abraçar tudo, mas sei que vai chegar uma hora em que eu não vou conseguir, por isso eu estou atrás de um assessor”, relata a estudante.

Mas também existem outras dúvidas na vida de uma celebridade de internet. Maju, que viu a sua vida mudar radicalmente de 2015 para cá, passou por uma crise. Ela ficou “offline” e parou de postar vídeos por três meses:

— Foi um momento difícil, eu estava em crise interna, de ver o que eu queria, porque eu vi que [a fama] começou a tomar uma proporção muito maior do que eu esperava. Virou um trabalho sem eu planejar. Eu ainda não sei lidar muito bem com esse meio, estou aprendendo aos poucos. Então parei para ver como ia ficar sem [postar] e ver se eu realmente queria continuar.

— Mas continuei, porque vi que é muito mais do que eu querer. As pessoas precisam, as pessoas querem. Têm toda uma questão mais emocional, elas se apegam, sentem falta. Elas me pediam, elas me cobravam, e para isso eu não consegui falar não.

 

Público

Não demorou muito para que o fã-clube “Black da Maju” surgisse no Instagram. Quem teve a ideia foi Beatriz Cizoto Molina, de 17 anos, que mesmo sem conhecer pessoalmente Maju, resolveu criar o perfil após “stalkear” a blogueira. “Eu queria compartilhar com todos porque vi algo de muito especial nela”, diz a jovem que dedica o quanto pode do seu tempo livre ao fã-clube.

Picon, cujo público tem na maioria menos de 15 anos de idade, diz que é mais fácil lidar com adolescentes, mas, mesmo assim, se preocupa em não “trair os fãs”, divulgando apenas conteúdos que interessem a eles.

Karla Reis, 12 anos, faz parte desse grupo. Há um ano, decidiu montar um fã-clube para demonstrar sua paixão pelo ex-Colírio da Capricho. “Eu comecei a gostar dele com 10 anos e decidi criar a página com 11. Continuo postando fotos dele, pois quero que um dia veja a importância que tem para mim”, conta.

Maju cita dois lados dessa relação com os fãs: o bom, em que recebe carinho e afeto do público, e o ruim, dos “haters” que criticam agressivamente seu trabalho. A atividade desses “odiadores” é hoje em dia um desafio banal na vida de celebridade, uma espécie de preço a ser pago pela fama.  “Eu leio tudo e tem coisa que machuca. Mas a gente tem que lidar com isso, porque, infelizmente, o mundo tem pessoas não muito legais.”

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