Rap é a música de protesto da nova geração

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MARIANNE TAMBELINI | LARA OLIVEIRA SANTOS  | GIOVANNA HUEB | DORA BESSA GIGLIO

»»»No dia 10 de abril de 1964, o Brasil entrou em um de seus períodos mais sombrios. Foi implantada a ditadura militar, marcada por violações dos direitos humanos e pelo aumento da repressão.

Como forma de burlar essas restrições, surgiram célebres canções de protesto, assinadas por artistas como Chico Buarque, Caetano Veloso e Geraldo Vandré. “Na época da ditadura militar, os órgãos de repressão impediam com violência qualquer manifestação contra o governo, nem que fosse no campo das ideias. Portanto, havia censura na imprensa e no campo das artes. O que os artistas faziam para espalhar suas ideias era disfarçar a canção”, explica o músico profissional Kleber Costa, 41 anos.

Disco de chico buarque | foto marianne tambelini
Disco de chico buarque | foto marianne tambelini

Uma das práticas mais marcantes contra músicos considerados subversivos durante a ditadura foi o exílio. Caetano Veloso e Gilberto Gil, por exemplo, partiram para  a Inglaterra, em 1969, após terem sido presos por desrespeitarem o hino e a bandeira do Brasil. Já Chico Buarque se autoexilou na França e na Itália no  mesmo período.

Ao voltar para o Brasil, 10 meses depois, Chico compôs novas canções críticas, como “Partido Alto” e “Construção”. Um de seus maiores sucessos na época foi dedicado ao diretor de teatro Augusto Boal, então exilado em Lisboa. Era a canção “Meu Caro Amigo”, composta em 1976, em parceria com Francis Hime, como se fosse uma carta, pela qual mandava notícias do país em versos como “Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta / Muita mutreta pra levar a situação / Que a gente vai levando de teimoso e de pirraça / E a gente vai tomando que também sem a cachaça / Ninguém segura esse rojão”.

Composta por João Bosco e gravada por Elis Regina em 1979, a música “O Bêbado e a Equilibrista”, cheia de metáforas, tornou-se o hino da Anistia. A letra faz referência às viúvas de presos políticos como Vladimir Herzog e Manuel Filho, em trechos como “Chora a nossa Pátria Mãe gentil / Choram Marias e Clarisses / No solo do Brasil”. Foi cantada no mesmo ano de seu lançamento por cerca de 200 pessoas no aeroporto de Congonhas, quando o exilado sociólogo e ativista pelos direitos humanos Herbert de Souza, o Betinho,  retornou ao Brasil.

 

Músicos do grupo Pauta em Rap, que surgiu em 2011 | foto divulgação
Músicos do grupo Pauta em Rap, que surgiu em 2011 | foto divulgação

Brasil moderno

Em 2013, em plena democracia, protestos voltaram a parar o país nos meses de junho e julho – e, com eles, voltaram à cena as músicas de protesto. As manifestações que lotaram as ruas do país, impulsionadas pelo aumento das tarifas do transporte público, reuniram mais de 1  milhão de pessoas pelo Brasil todo apenas no dia 20 de junho.

“Vem pra rua!”. Essa foi uma das frases mais repetidas durante o período. A expressão foi retirada de uma música criada por Henrique Ruiz,  interpretada  pelo grupo O Rappa e veiculada em um comercial de TV da Fiat, que tinha como pano de fundo a Copa das Confederações de 2013. A frase convocava os brasileiros para torcer pelo futebol, mas acabou se tornando a máxima dos que foram às ruas para protestar.

“Uma das reivindicações dos protestos de junho era justamente a transparência do governo em relação aos gastos com esse torneio e com a Copa 2014. O povo se apropriou cinicamente da frase ‘vem pra rua’ para protestar contra  corrupção, desapropriações, lavagem de dinheiro e a megalomania do governo com relação à Copa”, afirma Kleber Costa. No entanto, logo surgiram composições de fato ligadas aos protestos. Tom Zé, por exemplo, lançou a música “Povo Novo”, inserida como uma das faixas de  seu CD “Tribunal ao Feicebuqui”. O mesmo aconteceu com a banda Capital Inicial, que incluiu “Viva a Revolução” no seu novo CD (“Saturno”).

 

RAP

Segundo especialistas, a música mais autêntica de manifesto que se faz no país hoje não vem da classe média, mas sim da periferia. O fenômeno é muito diferente do que ocorria nos anos 1960, lembra Julinho Bittencourt, 52 anos, músico, jornalista e crítico musical. “Os músicos de 1960 eram todos de classe média, invariavelmente pessoas que frequentaram faculdade. Eram pessoas extremamente cultas e instruídas”.

As novas canções de protesto são mais diretas, menos metafóricas, sem frases ambíguas e com destaque a opiniões pessoais. “Hoje, você tem críticas sociais e políticas muito mais contundentes do que na década de 60. Um disco dos Racionais MC’s, por exemplo, é uma crítica muito feroz e muito dura, pois vem da própria fonte de onde se dá a opressão”, completa.

O grupo Pauta em Rap, por exemplo, que surgiu em junho de 2011 com a música “Eu me rebelo”, teve seu trabalho expandido por conta das manifestações de junho, uma vez que a elas alinhou seus ideiais contestadores. “O Pauta em Rap é uma forma de grito de revolta, um grito de quem vê as coisas piorando, políticos e bandidos se aliando e o povo brasileiro se preocupando apenas em ter dinheiro para consumir”, diz Tiago Salles, produtor do grupo.

O conjunto comenta que o grande público se acostumou com algo pronto e vazio. “As músicas de protesto têm de ser buscadas na escuridão do underground. Quando você ignora o que o mercado te impõe, com certeza vai encontrar coisas interessantes e que te façam refletir”, completa.

Apesar de não terem nenhuma composição específica relacionada às manifestações, os Racionais, que nasceram no momento em que o Brasil teve a primeira eleição direta para a Presidência, discursam desde o início contra a opressão. Sem formação acadêmica, os integrantes chamam a atenção com críticas às diferenças sociais.

“Hoje vivemos uma democracia, pelo menos no papel. Portanto, não existe mais um inimigo público número um. As canções protestam contra mazelas pontuais: violência, desigualdade social, racismo, corrupção”, pondera Kleber Costa. Denunciando esses males, o rap muitas vezes atinge os jovens de forma mais direta do que discursos institucionalizados. “A experiência dos rappers da geração nova é de quem viveu aquilo. São pessoas da comunidade que cresceram, viveram e que, apesar da fama, vivem ainda nesses bairros e transpiram e respiram essa realidade muito dura”, conclui Bittencourt.

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