Redes sociais alteram o conceito de privacidade e faturam com negociações

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Da Redação

GABRIEL GARCIA | PEDRO CORRALES

»»» A pessoa acorda de manhã e dá bom dia para todos os seus seguidores do Twitter. Passa o dia inteiro fazendo comentários no Facebook sobre o cotidiano. À noite, posta fotos com os amigos (de carne e osso), fazendo com que todos os seus amigos (virtuais) acompanhem, em tempo real, o que ela está fazendo. Posta fotos comprometedoras, devidamente apagadas no dia seguinte. Mas já será tarde, pois no mundo virtual, não é possível apagar vestígios. Sua privacidade já terá sido espalhada por toda a internet.
De acordo com o dicionário Houaiss, privacidade significa “vida privada, particular, íntima”. Mas, em tempos de hiperexposição nas redes sociais, o conceito foi radicalmente modificado. Algo que, anos atrás, era compartilhado com poucos amigos do círculo pessoal, hoje é divulgado para milhares de pessoas, conhecidas ou não.
O limite sobre os assuntos considerados privados foi alargado. Basta um clique em alguma rede social e o mundo inteiro saberá o que você está fazendo.
Gilson Schwartz, doutor em economia e diretor acadêmico da Cidade do Conhecimento do Instituto de Estudos Avançados da USP, afirma que é necessário estabelecer uma linha divisória entre o que é privado e o que é intimo. “Mesmo quando cenas do que antigamente se considerava “intimidade” ganham publicidade na rede, isso ocorre dentro de uma estratégia de socialização que cada indivíduo conscientemente assume”, afirma Schwartz.
Essa superexposição faz com que nossas vidas estejam praticamente inteiras dentro da rede mundial. Não é possível apagar nada na internet: em algum lugar, sempre restará um vestígio de nossas ações. Fotos de ex-namoradas, bebedeiras indevidamente registradas, discussões que não deveriam ter acontecido: tudo permanece na internet. Mas também existem preocupações mais sérias. Contas de banco, senhas de cartões de crédito, endereços, números de telefone. Tudo está à disposição de qualquer pessoa mal-intencionada que tenha os conhecimentos necessários para obter essas informações.

Prédio principal  dos escritórios do Google, em Mountain View, Califórnia |  Foto : Yum yim/divulgação
Prédio principal dos escritórios do Google, em Mountain View, Califórnia | Foto : Yum yim/divulgação

Pegada digital
As informações pessoais são a razão de ser das redes sociais, afinal, ver o que o outro está fazendo é o que leva alguém a se cadastrar em uma delas. Porém, os abusos na utilização dessas informações são frequentes, tanto por parte dos usuários, como das próprias redes.
O usuário comum das redes sociais mal percebe que sua pegada digital permanece na internet. Muitas vezes, por não saber que, ao se cadastrar em uma rede social, ele assina um contrato. Esses contratos, chamados de termos de compromisso, são normalmente páginas extensas com letras minúsculas, que formam a base legal dessas redes. Por meio dela, as redes sociais se tornam proprietárias de tudo que o usuário posta nelas, desde o vídeo de aniversário de seu filho até a foto do seu casamento.
O entendimento do conceito de privacidade varia entre os usuários das redes sociais, mas de acordo com a faixa etária. Para Lecy Ciolette, 60, o Facebook é ambivalente: “Você coloca algo na internet para seus amigos próximos verem, o que é bom por aproximar as pessoas, mas ao mesmo tempo, milhares podem ver isso”, afirma. Mauro Rodrigues, 50, não confia nas redes sociais: “Uso apenas para entrar em contato com amigos antigos, mas não tenho nem foto de perfil. Não sei o que poderão fazer com as informações que eu coloco lá”. Por sua vez, Breno Santos, 18, que passa mais de duas horas todos os dias no Facebook, é enfático: “Não ligo para minha privacidade. Esse conceito não existe mais para mim. Me exponho mesmo, assim como todas as outras pessoas fazem”, diz o estudante.
“As pessoas não têm entendimento sobre o perigo de expôr sua privacidade. Elas compartilham de tudo, sem nenhum tipo de filtro. Estamos vivendo uma dissonância cognitiva em relação às informações que colocamos na internet” afirma Gil Giardelli, professor da ESPM e especialista em mídias sociais. De acordo com Giardelli, que também é o CEO da Gaia Creative, empresa especializada em soluções de mídias sociais para grandes empresas, nossas informações pessoais tornaram-se uma contrapartida ao uso das redes sociais. “Não pagamos nada para usar o Facebook e o Google. O preço que eles resolveram cobrar é a nossa privacidade”.

Moeda
Para Mark Zuckerberg, 28 anos, fundador e CEO do Facebook, a era da privacidade terminou, como ele afirmou em entrevista concedida ao site TechCrunch, em janeiro de 2010. Sua empresa, que em maio realizou a oferta pública de suas ações (captando US$ 16 bilhões para a companhia), é a maior rede social do mundo, reunindo 901 milhões de usuários – 46 milhões apenas no Brasil, que se tornou, em maio, o segundo país com mais usuários da rede social.
Criado em 2004, nos dormitórios da Universidade Harvard, nos EUA, o Facebook era uma rede para unir os colegas de universidade. Zuckerberg logo percebeu que a geração do século XXI gostava de se expor. Na mesma entrevista para o site TechCrunch, uma das poucas que concedeu desde que se tornou uma pessoa pública, o tímido e recluso Zuckerberg afirmou que “as pessoas estão cada vez mais confortáveis não apenas em partilhar informações, mas em fazê-lo abertamente. Essa é uma nova norma social, que evoluiu com o tempo”. O Facebook criou uma geração de pessoas que não conseguem viver sem divulgar ao mundo suas vidas. Uma experiência hoje só será completa se for compartilhada com centenas de amigos nas redes sociais.
O Facebook tornou célebre o modelo de negócios atual da internet, que transformou os dados pessoais de cada usuário no artigo mais valioso da rede. Nossas informações são a nova moeda da economia mundial. De acordo com Schwartz, os dados dos usuários são obviamente o que alimenta a rede com vida, mas é preciso levar em conta que estamos entrando na internet 3.0. “Essa nova rede lida com “big data”, não apenas por conta da adesão e intensificação galopantes da digitalização da vida social mas também e cada vez mais em função das informações que são produzidas pelos próprios objetos e máquinas, as imagens desses objetos e as relações entre códigos, máquinas e objetos”, afirma Schwartz.
Todos os dados que os usuários das redes sociais postam nelas são vendidos às empresas interessadas em se relacionar com elas, através de anúncios publicitários. No ano passado, 85% do faturamento do Facebook foi obtido dessa forma. Tudo que as pessoas postam, comentam, curtem, jogam, cutucam, é transformado em relatórios, enviados às empresas, que refinam a publicidade, direcionada para cada usuário específico da rede. “A mercadoria que o Facebook vende é infinita, ou seja, o negócio dele vai crescer cada vez mais porque supostamente o que ele está comercializando, a privacidade de cada cliente dele no Facebook, é praticamente um monopólio criado, feito um Leviatã, a partir da servidão voluntária dos olhares, cliques e mensagens trocadas dentro da “fábrica de intimidade” que é o Facebook”, afirma Gilson Schwartz.

Infografia: Cacá Junqueira
Infografia: Cacá Junqueira

Controle
Programas criados por engenheiros do Facebook criam o que eles chamam de “cesta de dados”. Se uma loja de vestido de noivas da Rua São Caetano (tradicional rua de São Paulo, conhecida por suas lojas de artigos matrimoniais) deseja anunciar no site, o Facebook calcula quantas mulheres paulistanas mudaram o status de relacionamento para “noiva” nas últimas semanas. Dessa forma, o Facebook insere o anúncio da loja na página lateral de todos esses perfis, criando um anúncio personalizado, refinado para os interesses de cada usuário da rede.
As empresas também podem criar suas próprias páginas no Facebook, as chamadas abas. De acordo com a carta aos investidores assinada por Zuckerberg no prospecto da oferta de ações do Facebook, quatro milhões de empresas utilizam a rede para promover seus negócios. De acordo com Gil Giardelli, essa mudança de comportamento por parte das empresas poderá modificar a maneira com a qual nos relacionamos com a rede: “Diversos especialistas afirmam que o www vai acabar. Porque as empresas e indivíduos estão montando suas páginas no Facebook. Antes eu poderia entrar em qualquer www sem nenhum login ou senha. Hoje, cada vez que eu entro dentro do Facebook ele sabe quanto tempo eu fiquei lá, no que eu cliquei, o que eu fiz”.
As redes sociais passaram a ser a principal fonte de conteúdo da internet, superando os portais de notícias: de acordo com dados da pesquisa “2012 US Digital Future in Focus”, realizada pela consultoria americana comScoreS, cada usuário do Facebook passa, por mês, uma média de 423 minutos no site. Isto acontece pois atualmente as redes sociais tornaram-se referência para a definição de hábitos culturais e de consumo.
O controle dos dados do usuário é o aspecto mais contestado dentro desse novo modelo de negócios. Afinal, todos os dados que o usuário insere no Facebook são propriedade eterna da rede social, que pode usar essas informações da maneira que desejar. A política de privacidade da rede é divulgada de forma exaustiva e em vocabulário complicado. Poucas pessoas sabem, por exemplo, que qualquer foto ou comentário que o usuário poste no Facebook é de propriedade eterna da rede social. De acordo com a Declaração de direitos e responsabilidade do site, toda vez que um usuário carrega na rede qualquer espécie de conteúdo ligado a propriedade intelectual (o que o site chama de “conteúdo IP”), esse usuário estará concedendo ao Facebook “uma licença mundial não exclusiva, transferível, sublicenciável, livre de royalties, para usar qualquer conteúdo IP publicado por você ou associado ao Facebook”.
O efeito prático disso é a possibilidade que a rede tem de utilizar como quiser, da forma que quiser, as informações que alimentamos no site. Dessa forma, se um usuário postar um comentário elogiando um refrigerante, o Facebook pode vender esse comentário para a empresa elogiada, que poderá fazer uma propaganda com essa informação.
Contactada pela Revista Plural, a assessoria de imprensa do Facebook no Brasil apenas respondeu que “Segurança é uma das prioridades para o Facebook, e dedicamos recursos significativos para ajudar as pessoas a protegerem suas contas e informações”. Além disso, ressaltou que “O Facebook também está empenhado em ser o líder em transparência e controle ao redor de privacidade”. A nota é concluída afirmando que o usuário do Facebook é, em última instância, quem define o grau de sua privacidade que poderá ser compartilhada: “Todos os usuários do Facebook possuem recursos para personalizar suas configurações de privacidade. Para editar as configurações de privacidade da conta do Facebook, deve escolher a opção ‘Configurações de privacidade’ no menu suspenso Conta, disponível no canto superior direito de todas as páginas.”

 

Hoje, a vida privada está exposta para todos, em qualquer lugar do mundo  | Foto: Natalia Picanço
Hoje, a vida privada está exposta para todos, em qualquer lugar do mundo | Foto: Natalia Picanço

 

Unificação
A última ameaça partiu do Google. Atualmente, é praticamente impossível que algum usuário da internet não utilize algum produto do Google. Começando pelo onipresente buscador, que domina 79,9% do mercado de mecanismos de buscas, passando pelo e-mail (utilizado por 350 milhões de usuários ativos) e o calendário, chegando até o You Tube, o site de vídeos mais acessado da rede. Todos os internautas do mundo já utilizaram alguma vez os serviços do site americano, e boa parte deles possui uma conta nele.
No dia 1º de março, o site modificou sua política de privacidade, unificando-a nos quase 60 produtos que oferece. De acordo com o Google, a ela foi desenvolvida para “melhorar os serviços” que o site oferece. O site poderá usar (e cruzar) os dados da conta do usuário em todos os seus produtos. As informações vão desde as mais básicas, como nome, e-mail até o cartão de crédito do usuário, passando por dados como número de IP, horário e data de acesso e a localização real do usuário.
Dessa forma, a informação que o usuário coloca no Gmail, o correio eletrônico da empresa, poderá ser usada no YouTube, por exemplo. Se uma pessoa assiste a vídeos do seu clube de coração no YouTube, ela poderá receber propagandas de vendas de ingresso desse time na barra lateral do Gmail.
Ainda de acordo com a própria política de privacidade, o Google pode “processar suas informações em um servidor localizado fora do país”. Além disso, afirma que fornece “informações pessoais a nossas afiliadas ou outras empresas ou pessoas confiáveis”.
Assim, o Google pode criar um cadastro pessoal ainda mais detalhado de cada indivíduo que cria uma conta em seus produtos, podendo traçar, de forma sofisticada, um mapa dos hábitos e preferências de cada um. Esse perfil é uma mina de ouro para empresas de qualquer ramo, que pode delimitar o perfil ideal de seu consumidor e, principalmente, desenvolver e enviar publicidade específica e diretamente a eles. Porém, Gilson Schwartz relativiza o prejuízo ao usuário no uso que as redes sociais fazem dessas informações: “Não tenho como perguntar para um fabricante de facas de cozinha o que ele acha de todos os assassinatos feitos com facas de cozinha ao longo da história. Ele pensou em festas, banquetes e celebrações. É o uso que dá significado à tecnologia, não o contrário.”
Um dos itens mais controversos da nova política de privacidade é o fato de o usuário não ser consultado se aceita ou não as novas diretrizes. Não há uma opção “não desejo aceitar”. A partir de 1º de março, todos os usuários que logaram em algum produto do Google aceitaram de forma implícita as novas regras. O usuário insatisfeito possui uma única opção: abandonar a rede.
Em nota à Revista Plural, o Google, através de seu Departamento de Comunicação, informa que a mudança é nas políticas, não nos controles de privacidade. Segundo a empresa americana, o objetivo da nova política de privacidade é simplificar e facilitar a compreensão das políticas. “Ao reduzir as mais de 60 políticas atuais de privacidade específicas para cada produto, passamos a explicar nosso compromisso com a privacidade aos usuários com uma economia de 85% em palavras.”, afirma um post de 2 de fevereiro, no blog oficial do site no Brasil.
Além disso, o Google reafirma que quer promover a seus usuários uma experiência mais “fácil e relevante possibilitando uma interação entre os produtos quando estiverem logados em suas contas do Google”.

Lecy Ciolette, 60, usa o Facebook para postar fotos, mas teme que sejam vistas por quem ela não conhece | Foto: Gabriel Garcia
Lecy Ciolette, 60, usa o Facebook para postar fotos, mas teme que sejam vistas por quem ela não conhece | Foto: Gabriel Garcia

 

Futuro
“Atualmente, a velocidade das sociedades em rede é muito maior do que a velocidade da sociedade das leis, ou seja, o Estado”, afirma Gil Giardelli. Segundo o professor, a tendência agora é que os governos tentem recuperar o passo das grandes redes sociais. “A internet como nós conhecemos está sob ataque. Basta ler os projetos do SOPA, do PIPA, e da Lei Azeredo”.
Um indicativo dessa reação do Estado é a construção de um centro de vigilância do governo americano, avaliado em US$ 2 bilhões. De acordo com a edição de abril da revista norte-americana Wired, esse complexo administrado pelo National Securty Agency (NSA) poderá armazenar mais de um yottabyte de dados (o yottabyte é a maior escala de magnitude de dados existente). Com essa capacidade de armazenagem, o NSA terá a possibilidade de armazenar e vasculhar toda e qualquer troca de dados realizada no território americano.
Segundo a Wired, o governo americano possui salas de monitoramento em todos as grandes empresas de telecomunicação americanas, instaladas ainda durante o governo de George W. Bush. O NSA não reconhece a existência dessas salas, que supostamente grampeariam toda a comunicação realizada nos EUA. “Estamos em um momento de bifurcação de tudo, em que iremos discutir como será a privacidade principalmente em relação aos governos. Nunca estivemos tão próximos de 1984”, alerta Gil Giardelli.

Os governos contra-atacam

»»»Preocupados com o poder das redes sociais, governos do mundo todo passaram a pedir explicações. A Associação Nacional dos Procuradores-Gerais dos Estados Unidos manifestou preocupação com a nova política de segurança, enviando uma carta ao Google na qual chama a política de privacidade de “problemática”, por invadir a privacidade dos consumidores e por ser difícil de sair. Na França, o CNIL, órgão administrativo responsável por zelar pela privacidade na internet, considerou que a política viola dispositivos do Diretivo Europeu de Proteção de Dados.

No Brasil, a Comissão de Defesa do Consumidor da Câmara dos Deputados enviou um requerimento ao Google e ao Facebook convidando os diretores das duas empresas para darem explicações no Congresso sobre suas políticas de privacidade.

Segundo o redator do requerimento, o deputado Paulo Pimenta (PT-RS), a política de privacidade dessas redes sociais não é transparente, por não permitir que os usuários optem por não compartilhar suas informações pessoais: “Hoje, todas as informações são rastreadas para montagem de perfis e bancos de dados; essas informações e rastro de navegação dos usuários, lançadas no mercado, geram bilhões. O consumidor ou internauta precisa ser protegido, pois é a parte fraca da relação de consumo”.

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