“As religiões hoje se fizeram muito rígidas”, diz Leonardo Boff

edição 07 - faces da fé - Entrevistas - faces da fé

Da Redação

Laura Stabile

»»» O teólogo Leonardo Boff, 77 anos, nasceu na cidade de Concórdia, em Santa Catarina. Graduado pela Faculdade de Teologia dos Franciscanos do Rio de Janeiro, dedica-se há pelo menos  56 anos a estudos religiosos. Doutor em filosofia da religião pelo Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, Boff é o principal expoente da Teoria da Libertação no Brasil. Professor e professor-visitante de teologia e espiritualidade de diversas universidades do mundo, como Harvard, Heidelberg e Basel, tem mais de 60 obras publicadas, que, unidas à sua luta em favor dos Direitos Humanos, lhe renderam inúmeras premiações

Teve uma carreira contudo atribulada. Em 1984, o Vaticano o condenou a um ano de “silêncio obsequioso” por sua defesa da Teologia da Libertação.

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Quase dez anos depois, em 1992, ameaçado de nova pena, optou por deixar suas atvidades de padre e se tornou um teólogo leigo.

Hoje, Boff segue disseminando a Teologia da Libertação e é professor, conferencista e escritor. Também é presidente de honra do Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Petrópolis, membro do comitê internacional da Carta da Terra e assessor de movimentos sociais.

Nesta entrevista, o teólogo compartilha seus pensamentos sobre a fé e critica a rigidez e a frieza de religiões institucionalizadas. “Ter fé em termos religiosos é saber e sentir, a partir do coração, que não estamos abandonados neste mundo”, afirma.

 

Em entrevista à Folha de S. Paulo, o senhor disse que o novo Papa “deveria ser um homem profundamente espiritual e aberto a todos os caminhos religiosos”. O senhor defende então que o Homem tenha liberdade de escolher seu caminho religioso?

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Talvez o que me disse Dalai Lama num encontro sobre religião e paz anos atrás responda a isso. Eu lhe perguntei: qual é a melhor religião? Ele me respondeu: é aquela que o faz melhor. Eu novamente perguntei: o que me faz melhor? Ele disse: aquela religião que o faz mais humano, mais sensível, mais compassivo e capaz de amor e perdão. Esta é a melhor religião. Creio que aqui está a resposta, cada um deve encontrar aquele caminho que o torne melhor. Cristo não veio fundar uma nova religião, quis um novo homem e uma nova mulher, na medida em que realizassem mais profundamente a sua humanidade feita de amor, solidariedade e compaixão.

Para o senhor, o homem moderno tem mais ou menos fé no sobrenatural?

Todo ser humano é um projeto infinito. Está aberto ao outro, ao mundo e à totalidade, quer dizer, ao Transcendente. Isso constitui uma constante antropológica. Tal afirmação importa reconhecer que todo ser humano realiza, de um modo ou de outro, essa sua abertura ao Transcendente ou Sobrenatural. Pode ser que hoje não o faça mais nas religiões institucionalizadas, que se fizeram muito rígidas, dogmáticas e frias. Mas o faz em outros ambientes e circunstâncias como na luta pelos direitos humanos a partir dos mais pobres, no empenho em cuidar da vida, especialmente dos mais vulneráveis, na salvaguarda da natureza e da mãe Terra. Aí ele pode fazer uma experiência que o leve ao transcendente. Mas o lugar mais comum e acessível a todos é o amor verdadeiro, a doação desinteressada ao outro, a capacidade de perdoar a quem o tem ofendido.

O senhor é formado em Teologia pela Universidade de Munique e conheceu seguidores da Igreja Católica por todo o mundo. O senhor acredita que diferentes culturas manifestem a fé de diferentes modos?

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A fé consiste na afirmação de que o mundo tem sentido e é portador de um sentido último que vai para além de nosso tempo histórico. Ter fé é apostar que a luz tem mais direito que as trevas e que o algoz não triunfa sobre a vítima. A forma como tal experiência é expressa varia de cultura para cultura. Por isso é errôneo afirmar que existe uma religião revelada. A religião é sempre uma construção cultural, mas a partir da experiência fontal de fé como sentido da vida e do mundo. Essa subjaz a todas as religiões e funda os diferentes caminhos espirituais, as diversas espiritualidades.

Como o senhor define o homem católico brasileiro?

Quase todos os católicos brasileiros são católicos culturais. Nasceram dentro de uma cultura predominantemente católica e por isso se confessam católicos. Mas isso não muda muito em sua vida e em sua ética. Católico em seu sentido teológico e profundo é aquele que toma como referência a figura de Jesus e sua prática e procura viver em coerência com esta opção de vida. Nesse sentido há poucos católicos no Brasil. Daí se entende que entre políticos católicos culturais existam tantos corruptos, bem como entre empresários que se confessam católicos e exploram terrivelmente seus operários. O catolicismo como opção de fé que se expressa por uma ética consequente mudaria toda a vida e a prática da pessoa.

Qual foi o legado da teologia da libertação no catolicismo brasileiro e qual a sua importância no Brasil hoje?

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A teologia da libertação nos fez despertar para a pobreza e a miséria de milhões de brasileiros. Entendeu essa realidade não como um simples dado sociológico, mas como um desafio ético: como superar esta realidade humilhante que faz sofrer a tanta gente? Ela tomou aquilo que estava presente na cultura cristã do povo, mas vivida como resignação e acomodação e fez entender que Deus não quer essa antirrealidade. Ao contrário, ele na Bíblia se mostrou como aquele que escuta o grito do oprimido e desce de sua transcendência para tomar partido pelos pobres, pelos escravizados no Egito, e os animou a buscar a libertação.

Foi uma pedagogia para a qual Paulo Freire nos ensinou muito. Seu legado? Ela ajudou a que os pobres rejeitassem a pobreza porque ela representa uma opressão e que, juntos, devem buscar a libertação. O oposto à injustiça, à opressão, não é a riqueza, mas a justiça social. Desta reflexão e prática junto com os oprimidos nasceram pessoas e cristãos engajados nas transformações sociais. Foram decisivos na fundação do PT, que procura realizar políticas sociais voltadas aos pobres.

 O que é fé?

A fé é uma aposta de que o sentido é mais forte que o absurdo e que a vida não termina com a morte, mas que se transforma através da morte. Ter fé em termos religiosos é saber e sentir, a partir do coração, que não estamos abandonados neste mundo, mas somos acompanhados por uma Energia poderosa e amorosa, pessoal e superior que chamamos por muitos nomes: Tao, Olorum, Alah, Shiva, Javé ou simplesmente Deus. Viver na fé é sentir-se na palma da mão de Deus. Tudo o que acontece, mesmo o que nos parece trágico, não está fora de Seu amor por cada um de nós.

 Por que as pessoas se apegam mais à religião nos momentos delicados e extremos da vida?

Apegam-se à religião porque ela tem o discurso do sentido último das coisas, tem palavras que consolam e iluminam e podem nos oferecer um sentido que vai para além desta vida. Nenhuma ciência ou filosofia consegue realizar esta missão. Por isso as religi-ões nunca desaparecem. Elas vêm ao encontro de uma demanda fundamental da vida, tomada em sua radicalidade. Quando todos silenciam, ela tem ainda uma palavra a dizer: a vida vale a pena e vale esperar que ela continue para além deste mundo. Os franceses têm uma bela expressão, que diz: a religião é um “supplément d’ame”, é um reforço para a vida. Talvez a energia mais poderosa que existe, pois não é metáfora, mas realidade, que a fé transporta montanhas, faz com que as pessoas se superem e façam coisas surpreendentes. Como Madre Teresa de Calcutá, que larga tudo só para recolher moribundos e fazê-los morrer dignamente numa casa cercados por pessoas que os amam.

Por que as pessoas são religiosas?

As pessoas são religiosas porque dentro delas, dentro de cada um, há uma chama, um chamado dizendo que a verdade é melhor que a mentira e que o amor é mais importante que o ódio. Todos intuímos, de alguma forma, que as coisas não estão jogadas aí de qualquer maneira, mas que há uma Energia feita de amor, de compaixão e de bondade que liga e religa todas as coisas, que se esconde atrás das estrelas e comanda o universo inteiro. No fundo, rejeitamos que a vida é um absurdo.

A religião alimenta estas convicções, nem sempre formuladas, mas que se escondem atrás de nossas práticas cotidianas. Teologicamente falando, temos religião porque intuímos de forma confusa, mas certa, que pertencemos a Alguém Maior, a Deus, e que a morte é a forma pela qual Ele nos chama e nos diz: venha para minha casa, descanse deste longo e penoso caminhar da vida e fique comigo, feliz, por toda a eternidade. O ser humano não quer apenas viver neste mundo, quer viver para sempre, por toda a eternidade.

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