Revista Plural acompanhou a rotina do Hospital Universitário

edição 03 - madrugada paulistana - sp24horas

Da Redação

BEATRIZ BRANCO | BEATRIZ BARROS | FERNANDA LABATE | ISABELLA CHIAMULERA | JÚLIA ARBEX

»»»Uma mulher de cerca de 35 anos com hemorragia no esôfago causada por um quadro grave de  cirrose. Uma grávida que, em trabalho de parto, sofre um aborto espontâneo em pleno corredor do hospital. O namorado de uma paciente tenta agredir uma plantonista, indignado com a demora no atendimento. Uma fugitiva de hospital psiquiátrico surge em disparada pelo pronto-socorro.

As cenas, todas reais, fazem parte do cotidiano das madrugadas do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo (USP). Embora menos movimentado do que as manhãs e tardes, o turno concentra justamente os casos mais graves. A principal causa, segundo Grace Mulatti, cirurgiã cardiovascular, são traumas decorrentes da ingestão de álcool, incluindo brigas, colisões e atropelamentos, e acidentes domésticos. “Para alguém vir ao hospital de madrugada é porque está em estado crítico”, conta. Dados do Departamento de Polícia Rodoviária Federal (DPRF) constatam que pelo menos 35 mil pessoas morrem por ano em decorrência de acidentes. “Chegam muitos jovens e, principalmente, muitas mulheres desacordadas pela ingestão excessiva de álcool”, conta a médica.

Contando com 258 leitos e um ambulatório com 57 consultórios, o Hospital Universitário da USP autorizou que a reportagem da Plural acompanhasse seu plantão durante uma madrugada. Localizado no bairro do Butantã (zona oeste) desde 1981, o HU atende não apenas o bairro onde se encontra, mas também o Rio Pequeno, Morumbi, Jaguaré e Vila Sônia. Além disso, ainda dá assistência para a USP, possibilitando que os alunos da faculdade de saúde pratiquem e façam estudos de campo. “Pelo hospital ter uma qualidade de atendimento ligeiramente maior que outros hospitais de bairro, recebemos muitos pacientes de bairros distantes e até de outras cidades”, relata Grace.

Ao chegar ao HU, a equipe foi recebida e acompanhada por quatro médicos plantonistas: Gustavo Stocchero, Grace Mulatti, Jairo Rays e Marcelo Borba, que apresentaram todas as instalações do hospital, com exceção da UTI. A triagem de pacientes na unidade é iniciada com uma etapa eletrônica. Com base nos sintomas de cada paciente, máquinas especializadas selecionam para qual ala de espera (branca, azul, verde, amarela e laranja) as pessoas serão encaminhadas. Porém, pelo fato de o período da noite ser um pouco menos movimentado, o sistema é encerrado às 22h.

Pacientes atípicos de pronto-socorro, ou seja, aqueles que pretendem fazer exames ou tirar dúvidas sobre medicamentos, ficam nos setores branco e azul. Na chegada ao hospital, eram os setores mais cheios. Aqueles que não estão com febre nem sofreram desmaios, por exemplo, vão para a ala verde. Nas esperas amarela e laranja, o paciente precisa ser atendido imediatamente.

Nas alas azul e branca, por serem os setores mais cheios do plantão, o tempo de espera é estimado entre três horas e quatro horas, o que motiva reclamações. “Sempre buscamos atender os pacientes da melhor maneira possível, desde os que buscam alguma orientação sobre medicamentos até os que requerem maiores cuidados, mas todos eles sempre acham que os próprios problemas são piores que os de qualquer outro paciente”, diz Grace.

 

A fachada do HU, na Cidade Universitária | Foto: Beatriz Barros
A fachada do HU, na Cidade Universitária | Foto: Beatriz Barros

Leitos

O que os pacientes não entendem, muitas vezes, é que, apesar dos cerca de 30 profissionais de plantão (incluindo anestesistas, residentes e estudantes da USP) nas mais variadas áreas durante a noite, podem faltar leitos. “O hospital só coloca mais gente em observação se houver disponibilidade de maca. Se não houver, não entram mais pessoas”, completa a médica.

Grace salientou o fato de as camas espalhadas pelos corredores – até fora da sala de observação, por conta da falta de espaço – contarem com lençóis e cobertores limpos e colchões de boa qualidade. “Essa situação está longe de ser a ideal, mas há mais dignidade que em outros hospitais.”

Por conta disso, a clínica-geral Carla Romagnolli conta que quase foi agredida durante um plantão pelo namorado de uma paciente que estava na espera menos grave. Irritado pela demora do atendimento, partiu para cima dela. “Os seguranças o pararam e eu tive que correr para dentro do hospital.”

A espera verde é onde ficam os pacientes com doenças não agudas, sem sinal de alarme (como desmaios, por exemplo). Normalmente são casos um pouco menos simples que os das esperas azul e branca, e os pacientes que ali ficam podem esperar até duas horas. “Esse setor é o mais cheio durante o dia, enquanto durante a noite os pacientes são mais distribuídos”, conta Jairo Rays, cardiologista e chefe do plantão noturno.

Durante o mês de abril e devido ao ar excessivamente seco, houve um aumento nos casos de doenças respiratórias, principalmente em crianças. Isso contribuiu para que a espera verde tivesse ainda mais pacientes no dia da visita da reportagem da Plural.

Próximas às salas de emergência, pequenas cirurgias e exames como raio-x, ficam as esperas amarela e laranja, destinadas a pacientes com sintomas mais graves e que necessitam de cuidado imediato. Na amarela, os pacientes podem esperar cerca de uma hora. Já na laranja, os médicos explicaram que o tempo de espera é apenas o necessário para preparar uma sala de cirurgia, pois o setor é o que recebe os pacientes mais graves.

Leitos do Hospital Universitário, que contabiliza 258 vagas e abriga um ambulatório com 57 consultórios | Foto: Beatriz Barros
Leitos do Hospital Universitário, que contabiliza 258 vagas e abriga um ambulatório com 57 consultórios | Foto: Beatriz Barros

Bastidores

Ao conhecer os bastidores do hospital é mais fácil entender que, muitas vezes, situações de pacientes esperando uma consulta ou um exame por horas nem sempre refletem descaso da equipe médica, pois casos mais graves podem estar exigindo atenção máxima naquele mesmo momento.

Em plantões noturnos, embora isso não seja tão comum, podem aparecer casos de alta complexidade, como o de uma paciente em um quadro crítico de cirrose. Ela apresentava hemorragia interna e outros sintomas que levaram o chefe de plantão a decidir por mandá-la para a UTI – situação peculiar, já que a paciente não ingeria álcool em excesso e tinha menos de 40 anos. A paciente foi mantida em coma induzido.

 

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Experiências marcantes

Ao longo da madrugada e em períodos nos quais os médicos que monitoravam a equipe descansavam, foram relatados diversos casos incomuns presenciados em plantões. “A coisa mais difícil da profissão é ver alguém com quem você se identifica morrer”, contou Gustavo Stocchero, cirurgião plástico. Sentiu-se assim após presenciar o caso de um garoto de classe média que chegou ao hospital já desfalecido após engasgar com um tomate cereja.

Há também casos curiosos: “Uma vez uma mulher chegou ao hospital dizendo ter dado à luz dentro de um táxi, e que o bebê estava dentro de um embrulho. Quando os médicos abriram o embrulho, encontraram um estetoscópio e um jaleco. Depois descobriram que a moça havia fugido de um hospício”, conta Marcelo Borba, cirurgião geral.

Rays conta a cena mais chocante que presenciou durante a madrugada. “Vi uma mulher dar a luz de um feto natimorto no  chão do corredor.”

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