Revolução nas telas: ideal libertário de 1968 contaminou o cinema

1968, 50 anos depois - edição 12 - 1968, 50 anos depois

Giovanna Lunardelli

Por Bruno Reis e Luiza Colloca

»»»Com os vários acontecimentos, protestos e reviravoltas no Brasil e em outros países no ano de 1968, o cinema não poderia ter se mantido estático. Os filmes produzidos no final dos anos 1960 refletiam toda a efervescência das ruas, com mudanças tanto no plano estético quando nos temas levados às telonas.

O movimento estudantil do Maio de 1968 na França, por exemplo, marcou uma importante transformação no cinema do país – então considerado dos mais inovadores do planeta. Três dos mais importantes cineastas da época, Jean-Luc Godard, François Truffaut e Claude Lelouch, iniciaram um movimento cinematográfico correspondente ao que ocorria nas ruas e aderiram à greve geral desencadeada em Paris.

Crítico de cinema e professor de filosofia, ética e crítica da FAAP, Humberto Pereira da Silva concorda que o movimento de 1968 mudou os rumos do
cinema. "A rebeldia da juventude deixou em todos os âmbitos da cultura e do comportamento marcas indiscutíveis. Só para ficar num exemplo: o Blaxploitation, movimento cinematográfico com a temática da exploração dos negros nos Estados Unidos na década de 1970, seria impensável sem a atmosfera de Maio de 1968."

O cinema francês, então, coincide com as ideias das revoltas e protestos das ruas. O movimento se chamava Nouvelle Vague. Movimento jovem, marcado pela criação de filmes com a “assinatura” dos diretores, pela transgressão moral e estética, assim como os movimentos populares.

Convém lembrar, contudo, que os filmes lançados em 1968 não necessariamente foram realizados no ano. Sérgio Rizzo, mestre em cinema pela USP e
professor da Academia Internacional de Cinema, explica: “A convenção ‘ano’ no cinema diz respeito à data de lançamento, que ocorre algum tempo depois da escrita, da filmagem e da finalização do filme. Ou seja: os filmes mais importantes lançados em 1968 foram feitos antes – alguns deles, anos antes – dos eventos de maio; e aqueles feitos sob o impacto de maio, por sua vez, foram lançados em 1969, em 1970”.

Talvez por isso, é na virada da década de 1960 para 1970 que houve uma radicalização dos filmes por parte de alguns cineastas franceses. Godard, por exemplo, criou outros movimentos, como o Estados Gerais do Cinema Francês, em que eram promovidos debates permanentes sobre as estruturas do cinema transformado em mercadoria.

O estudioso de cinema Marcos Aurélio Teixeira ressalta a influência da política na criação de vários grupos cinematográficos, como o Dziga Vertov, batizado em homenagem ao cineasta soviético homônimo, de que Godard fez parte. “Esse era um grupo com influência marxista e brechtiniana e de orientação maoísta. Faziam filmes experimentais e de cunho comunista”, comenta.

Para Rizzo, são destaques dessa época alguns filmes que foram realizados antes de 1968. “Gosto da ideia de que filmes anteriores ao Maio de 1968, como ‘Antes da Revolução’ (1964), de Bernardo Bertolucci, e ‘De Punhos Cerrados’ (1965), de Marco Bellocchio, de alguma forma se anteciparam ao caldeirão sociopolítico que explodiria anos depois”.

Não por acaso, Rizzo cita dois filmes italianos. Nos anos 1960, a Itália também foi uma grande produtora de filmes, embalada pelo tradicional Festival
de Cinema de Veneza.

Cena de "Antes da Revolução" (1964), de Bernardo Bertolucci | Foto: Reprodução

No Brasil
Já o cinema brasileiro possui, desde as suas primeiras filmagens, uma ambição por novas formas de produção. Mas foi ao final da década de 1960 apenas que o país se encontrou em uma situação favorável para a produção cinematográfica. Por conta da repressão da ditadura, os filmes conseguiam dialogar com boa parte da população, já que eles buscavam representar a realidade das ruas, e muitas vezes burlavam a censura.
O movimento era chamado de Cinema Marginal, e foi caracterizado por mostrar cenas de baixa qualidade e sem pudor: críticas à ditadura militar, desobediência social e inconformismo. Os longas-metragens tinham como objetivo primário a resistência à censura imposta pelo regime militar, e, por esse mesmo motivo, ganhavam força popular no Brasil e fora do país.

Mas o Brasil não foi o único país da América Latina a ter seus filmes com destaque internacional. Cuba teve a sua obra cinematográfica de maior evidência realizada em 1968, o "Memórias do Subdesenvolvimento", do diretor Tomás Gutiérrez Alea. "É o filme cubano de maior expressão. Foi o filme que levou Cuba para o cenário internacional", afirma Marcus Teixeira.
Apesar de não apresentar uma grande revolução na linguagem, como outros filmes da época, Teixeira explica o porquê dele ter se destacado internacionalmente. "Ele foi feito pelo próprio cinema estatal, mas fazia uma crítica, não só ao capitalismo, mas uma crítica à Revolução Cubana e aos rumos que o país estava tomando com uma possível ditadura de Fidel Castro".

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