Rituais patriarcais

edição 07 - faces da fé - faces da fé

Da Redação

Mariana cavalcanti
Bianca Gomes
Uly Campos

»»» “A maioria das religiões, especialmente as monoteístas, trata a mulher como inferior e submissa ao homem”, afirma a feminista Cynthia Semíramis, do blog Direitos das Mulheres e Direitos Humanos.

Foto Fernando Turri
Foto Fernando Turri

A feminista e também advogada ainda alega que é difícil pensar em um progresso já que muitas crenças estão focadas em tratar a mulher como inferior. “Mas é possível pensar em resistência e ver mudanças a partir do uso das próprias regras religiosas para permitir certas atividades que, a rigor, seriam proibidas. Pode-se pensar, por exemplo, que mesmo em religiões que não ordenam mulheres como líderes espirituais, há uma espaço para as mulheres desenvolverem liderança em atividades secundárias envolvendo a comunidade”, completa.

O machismo ainda é uma das maiores polêmicas que circulam no mundo religioso. Cada religião possui uma crença diferente sobre o papel do homem. A catequista Alessandra Rosa Teixeira critica o machismo em sua religião. “Eu diria que considero certas atitudes preconceituosas, não generalizando. Como católica não concordo com esse tipo de coisa. Acredito que como cristãos precisamos enxergar o próximo como irmãos, respeitando as diferenças e limites para o crescimento espiritual.”

“A mulher pode fazer toda e qualquer ação que lhe dê respeito na sociedade. O papel da mulher é o de ser um vetor do bem, se desenvolver espiritualmente para que possa ser boa filha, boa esposa e boa mãe e, mais tarde, boa avó. Deve auxiliar o homem em seus trabalhos, aconselhá-lo e estar disposta a constituir uma família.”

Essa é a visão do Islamismo sobre o papel da mulher na sociedade, segundo Gamal Oumairi, do Instituto Brasileiro de Estudos Islâmicos no Paraná, para quem a mulher deve ser “uma companheira do homem em todos os sentidos na vida. Portanto, seu papel social é de uma responsabilidade tremenda durante toda a sua existência”.

Islamistas procuram afastar a conotação machista da religião. “O machismo não tem nenhuma relação com o Islã. Inclusive, o Islã proíbe tais atitudes, pois já assegurou os direitos da mulher 14 séculos antes do que a mulher brasileira pensava em tê-los”, completa Oumairi.

A antropóloga Francirosy Ferreira, pesquisadora da Universidade de São Paulo, defende em seus estudos que a submissão da mulher não tem a ver com o Islã. “A violência contra a mulher é histórica, não é questão de uma religião ou contexto cultural.” Segundo ela, a obrigação da mulher no Islã não é relacionada com o homem, e sim com Deus. Entretanto, em vertentes mais fundamentalistas, os homens darão suas interpretações, colocando o sexo feminino como inferior e submisso.

O Alcorão, ao contrário do que se pensa, tem trechos que deixam clara a igualdade entre homens e mulheres

Outro ponto que justifica o machismo dos islâmicos foi estudado pela pesquisadora Leila Ahmed. Ela explica que era comum os muçulmanos agregarem hábitos dos territórios que ocupavam. Entre ocupações, os islâmicos adquiriram de outras culturas formas de repressão às mulheres que até hoje perpetuam.

No Judaísmo, quem passa a religião adiante é a mulher. Jose Goldfarb, diretor da sinagoga da Hebraica, diz que “judeu é o filho do ventre judaico”. Assim, se uma mulher católica se casa com um judeu, na crença ortodoxa, os filhos do casal não podem ser considerados parte da religião do pai, já que não são frutos de um ventre judaico. Porém, Goldfarb alega que “na nossa sinagoga, que é mais liberal, se um judeu se casar com uma católica, e os filhos quiserem ter uma conversão, ter um bar mitzvah, ele pode. A decisão é dele, independente da mãe ser ou não judia”. O diretor ainda diz que a lei deveria ser diferente. “Se o filho quiser ser judeu, mesmo a mãe não sendo, é como se os pais fossem também. Mas, no meu caso por exemplo, se meus filhos não se interessam pelo judaísmo, posso não ser considerado um judeu.”

Mulheres em ritual de Umbanda em São Paulo |  foto Fernando Turri
Mulheres em ritual de Umbanda em São Paulo | foto Fernando Turri

A Umbanda hoje se enxerga como uma religião livre de machismo. Contudo, em sua formação, se configurava de maneira diferente. “Antigamente, no começo da Umbanda, pai de santo era só o homem, mulher não podia. O papel da mulher era cozinhar, cuidar dos filhos, dos convidados, fazer coisas femininas. Hoje não temos mais isso. Temos mais mulheres na religião atuando”, afirmou um frequentador da religião.

Na Umbanda, se antes as mulheres tinham como função cozinhar e cuidar da casa, hoje têm os mesmos direitos dos homens, sendo livres na religião para assumir até cargos de liderança, como é o caso das mães de santo.

O mesmo ocorre no Judaísmo. O diretor da sinagoga da Hebraica, Jose Gold-farb, diz que os papéis das mulheres dependem muito do quão devotas elas são. “A mulher mais tradicional tem o papel restrito, como era antes, de cuidar da casa, dos filhos. Ela também transmite a tradição na casa. Agora, na nossa sociedade moderna, Israel teve a primeira ministra mulher do mundo, Golda Meir, antes da Margaret Tatcher e da Dilma. Em Israel, a mulher tem um papel igual ao homem, ou maior.”

Por uma construção histórica, em grande parte das sociedades, tanto ocidentais quanto orientais, as mulheres e os homens exercem papéis sociais diferentes. Não só no Brasil, mas também em outros países, se constituiu uma sociedade patriarcal em que a família, formada essencialmente por um homem, uma mulher e seus filhos, estava acima de tudo. Nesse contexto, foi atribuído ao homem a imagem de maior valor, de força. Às mulheres e seus filhos, cabe um papel secundário.

Grande parte das religiões acompanharam esse pensamento patriarcal. Entretanto, nos últimos anos, com a maior repercussão do movimento feminista, aumentaram as críticas ao modelo tradicional de família e à forma como as mulheres são vistas pela religião.

Não apenas no Islamismo, mas também em outras religiões, o machismo ainda é presente. Na percepção da professora de catequese Alessandra Rosa Teixeira, “os homens imperam ainda no Catolicismo, sublimando o papel da mulher, que tem a função de educar os filhos e honrar o matrimônio”.

Patrick Snyder, no livro “Le féminisme selon Jean-Paul II: l’impasse du déterminisme”, analisa os discursos do Papa João Paulo ll direcionados às mulheres, e, a partir deles, constata a visão restrita que a Igreja Católica tem da mulher. Entre as falas do Papa analisadas por Snyder, está: “As mulheres encontram sua dignidade e vocação principalmente por meio do casamento e da maternidade”.

“Hoje em dia, a mulher moderna tem a função de participar de certa forma da vida diária. Em geral, ela é uma pessoa superinformada e que trabalha. Inclusive, as mulheres que frequentam o centro vêm no período da noite, pois todas trabalham durante o dia. Na realidade, o espiritismo não cobra nada em relação a um comportamento pré-estipulado. A mulher é livre”, explica Rosana Cordon, que trabalha em um centro espírita.

A monja Mudita | foto Beatriz Medaglini
A monja Mudita | foto Beatriz Medaglini

No Budismo as mulheres também têm mais liberdade. A monja Mudita alega que Buda não proíbe, apenas mostra o melhor caminho a ser seguido. “A minha religião me diz que posso fazer o que considero certo, o que acho que preciso fazer. Ela não me proíbe de nada, nem meu guia espiritual, nem o Buda. Ele apenas aponta os perigos de cometer determinadas ações. Se você comete essa ação ciente de que se trata de tirar uma vida, terá consequências.”

Inicialmente, o Budismo teve uma postura parecida com a do catolicismo: restringir a mulher ao papel familiar, de mãe. Segundo os budistas, Buda negou diversas vezes cargos para mulheres. Entretanto, quando interrogado sobre a proibição da entrada de mulheres na ordem religiosa e o discurso de que todos seres são iguais, Buda percebeu seus próprios equívocos e passou a permitir mulheres na Ordem.

 

Aborto

Outro assunto atualmente discutido não só por religiosos, mas também por cientistas e políticos, é o aborto. A interrupção da gravidez é gerador de opiniões diversas. No Brasil, de acordo com o Código Penal Brasileiro, desde 1984, o aborto é considerado um crime contra a vida humana.

Atualmente, crenças como o judaísmo, budismo e catolicismo vêem o aborto como algo estritamente proibido. “O catolicismo, desde o século IV, condena o aborto em qualquer estágio e circunstância. O aborto é visto como forma de tirar uma vida humana inocente”, alega Alessandra Teixeira, assim como a monja Mudita, que diz que tudo depende da sua consciência em relação às atitudes que serão tomadas. “Em relação ao aborto, trata-se de matar um ser. Se você sabe que uma ação de matar é uma ação não virtuosa, que vai te trazer sofrimento no futuro e ainda assim opta por realizá-la, tudo bem, é uma responsabilidade que você assume”.

No entanto, o Islamismo crê que a mulher tem o direito de interromper a gravidez apenas em casos de estupro e nos casos em que a vida corra risco.

Quanto à autonomia da mulher para realizar um aborto, o pai de santo Aurélio Almada, apesar de se dizer contra o ato pelo fato de ser a morte de uma vida que está apenas no começo, afirma que não rejeitaria em sua religião uma mulher que o tivesse realizado. “Eu não impediria uma mulher que realizou um aborto de vir ao meu terreiro. Deus mesmo falou ‘atire a primeira pedra quem não tiver pecados’. Quem somos nós para julgar o pecado dos outros? Todos temos pecados, querendo ou não. Nós, da Umbanda, deixamos para Cristo cobrar.”

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