TV reinventa papéis clássicos de informar, entreter e educar

edição 06 - televisão - televisão

Antonio Rocha Filho

Alexandre Siviero 

Giulia Laseri

 

»»»A televisão foi trazida ao Brasil pelo empresário e jornalista Assis Chateaubriand em 1950. Por tratar-se de uma tecnologia muito avançada para a época, a TV era um produto caro e considerado elitizado. “Chatô”, como era conhecido, foi responsável pela criação da primeira emissora no país, a TV Tupi, e por trazer 200 aparelhos televisivos dos EUA para incentivar sua utilização no Brasil. O processo de popularização da TV a partir de então foi demorado e gradativo.

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Antes rara, hoje é onipresente.

Com o passar dos anos o aparelho foi barateando e mais pessoas se tornaram telespectadoras. Segundo Newton Cannito, doutor em Cinema e TV pela Universidade de São Paulo (USP), em sua tese “A TV 1.5 – A televisão na era digital”, a televisão está sofrendo transformações.

Presente em 95,1% das residências no Brasil, segundo dados do IBGE no Censo 2010, o aparelho está se tornando um objeto menos central nos lares, mas ainda muito importante. Segundo a tese, partindo do princípio de que o cidadão não vá mais se dedicar exclusivamente à televisão como substituto do rádio para acompanhar o dia a dia, o formato “terá de ser repensado”.

Considerando-a um conjunto de atividades e programas artísticos, informativos e educativos, o pesquisador de TV Elmo Francfort afirma que a televisão cada vez mais se segmenta para atingir públicos específicos. “Antigamente lutava-se para se ter um programa de um gênero só, e hoje é possível ter um canal para cada gênero específico”, diz ele. Com a popularização da TV, novas emissoras e programas surgiram e, com eles, novas linguagens e funções.

Segundo Elmo, atualmente a televisão possui três funções: a de informar, a de entreter e a de educar seus telespectadores.

 

Informação e entretenimento

A televisão é um veículo importante de entretenimento. Por mais variada que seja uma programação, grande parte de seu conteúdo pode ser associada ao lazer: novelas, programas de variedades, filmes e esportes.

O entretenimento se reinventa e cria novos gêneros para acompanhar o perfil de sua audiência. Das novelas para o boom do formato reality show nos anos 2000; da explosão do formato “série”, que inundou a TV aberta com conteúdo norte-americano na década de 1990, ao resgate e renovação do  “show de calouros”, não faltaram horizontes a serem explorados para entreter o espectador.

Um perfil novo de espectador motiva uma mistura de funções da TV, fundindo o entreter com o informar, conforme explica Heidy Vargas, professora de TV da ESPM. “Está acontecendo uma entrada muito forte das classes D e E no mercado de consumo, e essas pessoas estão consumindo muita TV. Isso está fazendo com que cada vez mais jornalismo e entretenimento se misturem, que tudo fique de uma forma mais leve”, explica a especialista.

Essa abordagem mais leve no telejornalismo é caracterizada pelo teórico norte-americano da comunicação Neil Postman, que afirma: “Aceitamos o convite dos apresentadores, porque sabemos que a notícia não é para ser levada a sério, que é tudo divertimento, por assim dizer. Tudo sobre um noticiário nos diz isso – a boa aparência e amabilidade do elenco, a sua brincadeira agradável, a música empolgante que abre e fecha o show, os comerciais atraentes. Tudo isso e muito mais sugere que o que acabamos de ver não é motivo para chorar. Um show de notícias, para ser claro, é um formato de entretenimento, e não de reflexão, educação ou catarse”.

O tom mais leve da ação informativa da TV não se deve puramente à fusão com o entretenimento. Em “Transformações da Política na Era da Comunicação de Massa” (ed. Paulus, 2004), Wilson Gomes atribui esse fenômeno, no caso do jornalismo televisivo, a uma lógica de consumo distraído da informação: basicamente, a televisão não costuma ser foco exclusivo da atenção do espectador por mais que um breve período. O resultado prático se dá na priorização de textos curtos e lineares. “Esse princípio é apenas o indício de que reina uma lógica da diversão, em cujo extremo de realização é presidido pela afirmação de que nada mais deve ser solicitado ao destinatário da informação do que um consumo distraído.”

Vale notar que “consumo distraído” resulta em informação com menor grau de aprofundamento, o que não equivale a pouca qualidade. Uma visão puramente negativa do padrão informativo próprio da televisão deixa passar um fato importante: um perfil que proporciona maior penetração entre o público consumidor garante que mais pessoas tenham acesso às informações. Desde que a qualidade seja mantida, qualquer aumento no número de pessoas atingidas é um sucesso para a função informativa do meio.

Essa linha de pensamento sustenta também o uso do entretenimento em áreas ditas mais sérias, como política e economia. Na visão de Heidy Vargas, não se trata de diminuir o valor dessas notícias ao mudar a maneira de veiculá-las, mas sim de usar essa nova abordagem para atingir outros públicos. “Se você conseguir falar dos juros do cheque especial tendo um personagem ou comentando ‘olha, meu cheque mês passado também entrou no especial e eu paguei juros, como eu faço pra resolver isso?’, eu acho que você não perde, eu acho que você aproxima mais [a notícia do grupo alvo]”, exemplifica. “Esse público que você está atendendo talvez não pare para ler o ‘Valor Econômico’, talvez não pare para ler cadernos de economia.”

Trata-se do emprego do entretenimento tendo como objetivo principal a informação, tendência hoje forte.

A aproximação da notícia ao telespectador, além de se dar na forma em que esta é transmitida, também se traduz na mudança e na dinâmica dos próprios apresentadores entre si e com o público. Há uma busca pela personificação dos âncoras e repórteres frente à audiência, em oposição ao antigo modelo do repórter que agia como locutor frio e empolado. “O telespectador quer outra relação com essa pessoa que está do outro lado da câmera, uma relação mais próxima. Então um sorriso, uma risada, uma troca de olhares valorizam mais a informação, validam-na; quem está falando aquilo não é um locutor, é o William Bonner, é a Fátima Bernardes”, reflete Heidy Vargas. Segundo ela, essa proximidade faz com que o telespectador se coloque como igual, ou ao menos se sinta à vontade com quem transmite a notícia, o que seria uma estratégia básica para fazer com que ele acredite naquilo que o repórter está dizendo.

Também é importante lembrar que o ato de informar o público não ocorre apenas por meio do telejornalismo tradicional. Essa função também compreende programas que, à primeira vista, ocupariam apenas a função de entretenimento, como coloca Elmo Francfort, pesquisador de TV. “A informação não é apenas um programa jornalístico. Às vezes até dentro de outros programas de variedades você possui quadros jornalísticos”, explica. Inverte-se então a situação: se até então a TV que informa usava do entretenimento para seu benefício, agora é preciso lembrar da TV que entretém usando também como isca e gancho a informação.

É o caso, por exemplo, do programa “Mais Você”, da TV Globo, que conta periodicamente com a participação de repórteres da emissora, ou da transição da ex-apresentadora do “Jornal Nacional”, Fátima Bernardes, de seu posto de âncora para o de apresentadora de um programa matinal próprio: “Encontro com Fátima Bernardes”.

É crucial notar que a mudança de área não lhe tira a qualificação de jornalista. Isso permite que a emissora se beneficie da credibilidade atribuída ao jornalismo profissional para atingir maneiras alternativas de informar sua audiência. Ao mesmo tempo, a atmosfera mais informal de um programa de variedades propicia ainda mais proximidade entre apresentador e espectador.

Nesses casos temos o “entretenalismo”. Segundo o mestre pela Universidade de Coimbra e repórter da TVE Bahia, Vanderson Nascimento, ele é perceptível “quando a função do programa é entreter por meio de informações jornalísticas – notícias, assuntos que marcaram o dia ou a semana, divulgação de pesquisas e estudos, dentre outros –, mas que não deixam de gerar conteúdo jornalístico, propositadamente ou não. Ou seja, um programa de entretenimento que usa da informação e que acaba por gerar jornalismo”.

Francfort diz que hoje, ao menos na TV aberta, se entretém mais do que se informa. Heidy Vargas concorda. Mas com a crescente mescla entre as duas funções, a TV que informa tem espaço para crescer sem que haja a necessidade de lutar com a TV que entretém por espaço na programação. Pelo contrário: o estilo de programa informativo desprendido do entretenimento, sério e quase acadêmico não é mais a norma na TV aberta, é um produto de nicho da TV a cabo. Migrou para os canais por assinatura junto com sua audiência, as classes A e B.

Tanto na programação paga quanto na gratuita, a TV informa e entretém o espectador. Se o faz de maneira combinada ou claramente separada, depende de um fator que sempre foi crucial para a televisão. Como coloca Heidy Vargas, “você tem esses dois extremos. Qual o motivo disso tudo? Audiência”.

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Função educativa

A TV é capaz de influenciar a sociedade como um todo. Sua importância é tamanha que o sociólogo John B. Thompson cita em seu livro “Ideologia e Cultura Moderna” a influência da televisão no ambiente familiar. Segundo ele, a programação televisiva pode alterar a organização das atividades diárias. “Os horários de programas específicos podem ser um ponto-chave de referência de acordo com o qual as pessoas organizam suas atividades diárias no curso de um dia ou de uma noite.”

Apesar de ser relacionada com aspectos negativos, como alienação e fuga da realidade, a TV também pode ser positiva, e pode abrir caminho para a captação de informações pertinentes. Segundo Edmund Carpenter e Marshall McLuhan, “hoje, em nossas sociedades, a maior parte do ensino acontece fora da escola. A quantidade de informações comunicadas pela imprensa, revistas, filmes, televisão, rádio, excede em grande medida a quantidade de informação comunicada pela instrução e textos na escola”.

Segundo o estudo “EGM Kids”, divulgado em 2013 pela empresa de pesquisas Ipsos, 93% das crianças brasileiras assistem televisão. Rafaela Ferraro, 8 anos, é uma delas. Ela diz aprender muito com a televisão, principalmente sobre os animais e sobre alimentação saudável. “Eu aprendi como os animais nascem, onde vivem e muitas outras coisas”, diz.

A mãe de Rafaela, Carla, acredita que isso é positivo. “Acho ótimo a TV ser um dos veículos para ela aprender. Dos desenhos instrutivos que ela assiste, ela consegue tirar muitas informações.” Entretanto, ela também destaca a importância de ter a televisão como um apoio no aprendizado, e não a única ferramenta.

Um dos primeiros programas educativos infantis a ser televisionado foi “Vila Sésamo”, criado em 1969 nos Estados Unidos. O programa, elaborado pelo psicólogo Lloyd Morrissett e pela produtora Joan Cooney, foi trazido ao Brasil em 1972 e transmitido na TV Cultura. Outros programas educativos também foram transmitidos por essa emissora, como Glub Glub (1991-1999), Castelo Rá Tim Bum (1994-1997) e X-Tudo (1992-2002).

Entretanto, a educação por meio da TV não é dirigida apenas a crianças. Muitos programas também atingem os adultos, como o Telecurso, transmitido na TV Globo entre 1978 e 2007, e o Novo Telecurso, transmitido na TV Cultura desde novembro de 2014. Reconhecido pelo MEC, o Telecurso oferece escolaridade básica por meio de teleaulas, e, desde 1995, já foi implementado em 32 mil salas do Brasil. Outros programas oferecidos pela TV Cultura são reconhecidos como educativos, como Almanaque Educação, Café Filosófico e Escola 2.0.

Gilson Golçalves, balconista de farmácia, terminou o supletivo em 2008 e diz que documentários e principalmente teleaulas o auxiliaram na compreensão das matérias. “Vale a pena ver, porque são bem explicativos, não deixam dúvida nenhuma”, diz.

O doutor em educação pela Universidade de São Paulo (USP), Marcos Garcia Neira, afirma que é possível aprender com a televisão sim, assim como é possível aprender com conversas e com a escola. Segundo ele, é importante selecionar assuntos para a aprendizagem. “Não é qualquer programa que deve ser disponibilizado, mas sim aqueles que correspondem aos objetivos elencados num dado período letivo”, diz.

Marcos reconhece, contudo, que em muitos casos não há como selecionar programas devido à má qualidade. “Os grupos que controlam as mídias são poucos e acabam determinando o que será transmitido a partir de determinado ponto de vista”.

Marcos também afirma que a TV pode ser útil para complementar assuntos que as escolas não conseguem abranger com tanta precisão, mas não acredita na possibilidade de substituição do sistema educacional tradicional pela TV. “Não faz o menor sentido usar um programa de TV para ensinar conceitos presentes nos livros didáticos ou que podem ser explicados pelo professor”, pondera.

 

 

 

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