Vida de Menina

Edição 14 - Lute Como uma Garota

Portal de Jornalismo

Acompanhadas por uma difícil realidade no Brasil, jovens meninas enfrentam as incertezas da transição entre a infância e a adolescência, lutam contra os problemas da desigualdade de gênero, superam as desconfianças da sociedade e batalham para se tornarem as personagens principais de suas próprias vidas

por Marina Lahr e Thaynah Silva

Brincar. Estudar. Ser jogadora de futebol. Se formar em matemática. Namorar. Morar sozinha. Ter o emprego dos sonhos. Casar. Ser mãe. Conhecer o mundo. São respostas como essas que jovens meninas frequentemente usam para descrever seus desejos e objetivos para o futuro de suas vidas. Entretanto, ao lado dos sonhos, existem também muitos obstáculos, que as meninas – especialmente elas – precisam enfrentar desde muito cedo.

O Brasil possui atualmente uma população próxima de 210 milhões de pessoas, sendo que, destas, quase 70 milhões têm menos de 19 anos de idade, segundo as estimativas do IBGE. Entre essa população mais jovem, 48% são meninas, que enfrentam a dura realidade do país, considerado pela ONG Save the Children como o pior da América Latina para o crescimento feminino, levando em consideração índices de gravidez na adolescência, casamento infantil, mortalidade materna e representação das mulheres no Parlamento.
Esse panorama desperta uma série de questões e incertezas para as jovens, que muitas vezes têm seus sonhos e oportunidades restringidos pelos papéis de gênero e pelas dificuldades que surgem ao longo da estrada percorrida por elas.

Pressões

Ao longo do tempo é possível observar um processo de amadurecimento precoce das meninas em geral, realidade que pode provocar uma espécie de adultização forçada e criar uma série de pressões físicas e psicológicas sobre as jovens. Problemas de autoestima, falta de confiança em si mesma, depressão prematura e dificuldade em se relacionar com outras pessoas são algumas das adversidades encontradas tanto na infância como no período da adolescência das mulheres.

O cenário negativo para as meninas se estende ainda mais quando se leva em consideração as problemáticas da diferença de gênero, questão histórica que acaba por limitar as oportunidades pessoais e profissionais para a população feminina, sendo outra pressão comumente enfrentada pela categoria.

Nesse sentido, a recepcionista Sirlen Luchiari de Oliveira, de 40 anos, conta como a falta de oportunidades na sua juventude fez com que tivesse uma perspectiva oposta à da filha, Ana Luiza Luchiari de Oliveira, nos seus 14 anos. “Eu queria ser professora ou veterinária, queria ter um emprego bom e ser útil a alguém, mas meus pais não tinham condições de me pagar uma faculdade. Hoje em dia eu não tenho paciência de voltar a estudar, de voltar para a sala de aula, de prestar atenção no professor”, conta. Por isso, Sirlen está sempre presente na vida da filha, mostrando a realidade a ela a todo o momento, ajudando a superar as pressões da adolescência e deixando claroaa importância de seguir nos estudos. “Eu vivo dizendo para ela que emprego hoje em dia está muito difícil de conseguir, mesmo para quem tem formação, imagine para quem não tem”, ressalta a recepcionista.

Juliana Mota tem 33 anos, é analista de recursos humanos e tinha acabado de completar 19 anos quando teve sua filha, Maria Eduarda da Mota, hoje com 14 anos. Ela conta que não tinha muita estrutura familiar, na idade da filha, e que sempre quis ter um relacionamento estável e um lugar para morar sozinha. Hoje, a analista incentiva a filha para que ela possa alcançar todos os seus desejos. “Hoje eu dou a base para que ela consiga no futuro conquistar todos os objetivos e sonhos que ela possa ter.”

Juliana incentiva Duda, como carinhosamente a chama, a frequentar os eventos de K-pop (gênero musical originado na Coreia do Sul e muito popular entre as jovens nos dias de hoje) e a conhecer novas pessoas e lugares, apesar de achar o gosto da filha muito peculiar. Maria Eduarda conta como a mãe fez para incentivá-la nos estudos. “Eu sempre gostei de dançar, e quando eu saí da casa dos meus avós paternos em Salto Grande e vim morar com a minha mãe em Santo André, eu descobri essa escola de dança perto de casa. Então eu fiz um acordo com a minha mãe: ela me deixaria fazer as aulas de dança se eu mantivesse boas notas na escola”, explica a adolescente.

Atualmente, diversas pesquisas comprovam que a participação ativa dos pais na educação e no crescimento de seus filhos propicia um ambiente mais favorável para o amadurecimento natural das crianças. Assim, receber o apoio dos familiares é um diferencial para as meninas enfrentarem com maior facilidade os muitos obstáculos que são colocados em seus caminhos.

Autoestima

Além da falta de oportunidades, outro horizonte que surge na realidade das meninas desde os primeiros anos de vida é a dificuldade de autoaceitação e a falta de autoconhecimento. De acordo com uma pesquisa feita para o Relatório Global 2017 da Dove sobre meninas e confiança na própria beleza, apenas 46% das jovens no mundo possuem uma autoestima corporal alta. Este número diminui no Reino Unido para 39%, e o panorama é muito pior na China e no Japão, que têm índices ainda mais baixos na pesquisa. No Brasil, mais da metade das garotas não se sentem bonitas, e 62% afirmam que se sentem mais pressionadas para serem bonitas do que para irem bem na escola, algo bastante comum em lugares dominados por uma cultura predominantemente machista.

Esses dados mostram que a insatisfação com a aparência provoca uma tendência na qual as meninas são mais vulneráveis e mais afetadas negativamente do que os meninos pelos padrões de beleza disseminados por grande parte da mídia e da própria sociedade.

Juliana conta que aos 3 anos de idade sua filha, Maria Eduarda, foi tardiamente diagnosticada com uma pneumonia, que resultou na amputação parcial dos quatro membros da menina. Duda então foi morar com os avós paternos em Salto Grande, no interior de São Paulo, onde a avó quis matricular a neta em uma escola especial, ideia com a qual a mãe não concordou. “Eu não deixei, porque na época a Eduarda já usava próteses nas pernas, então não havia necessidade de rampas e elevadores para ela se locomover, por exemplo. Eu acredito que são as outras pessoas que precisam se adaptar à deficiência da Duda, e não o contrário”, afirma a mãe.

Em relação à autoestima, a analista de RH tem ciência de que a filha possui seus altos e baixos, assim como ocorre normalmente com todas as mulheres. No entanto, considera a autoestima da filha boa, principalmente no que diz respeito à deficiência. “Ela se ama bastante, do jeitinho que ela é”, diz, sorrindo.

Maria Eduarda sempre lidou com leveza com sua deficiência, por muitas vezes fazendo piadas com sua própria condição, comportamento que acaba por desmotivar o bullying e até facilita a aproximação das pessoas. Porém, a menina confessa que teve dúvidas durante a primeira fase da adolescência. “Quando eu era mais nova, eu era muito insegura, não acreditava no meu próprio potencial. Até por causa daquela coisa de relacionamento, de encontrar um namorado... Eu pensava ‘sempre que me olharem vão me olhar pela deficiência’.” Com o passar do tempo, Eduarda deixou de lado suas inseguranças e passou a se considera suficientemente madura para ignorar tais questionamentos. “Agora eu entendo que as pessoas me enxergam como ‘a deficiente’ até me conhecerem melhor, porque depois isso parece se tornar irrelevante.”

Redes Sociais

A pressão pela aparência ideal das jovens ultrapassa os limites do mundo físico e chega hoje ao mundo digital, com a criação e a popularização das redes sociais. Um estudo realizado em 2017 pela ONG inglesa Girlguiding comprovou que a relação das meninas com o mundo virtual não é muito amistosa. Uma em cada três jovens declara que sua maior preocupação online era comparar a sua vida com a de outras pessoas por meio das redes sociais, alimentando a tensão de passar a imagem de uma vida perfeita na internet.
Esse comportamento possui relação direta com o encurtamento da infância, em que as meninas passam a se preocupar mais com sua fisionomia e seu visual e acabam por consumir mais produtos de beleza e roupas da moda desde cedo, em um processo antecipado de consumismo progressivo. Tal perspectiva contribui para desencadear casos de depressão precoce e distúrbios alimentares, além de promover uma dependência do mundo digital, no qual tudo aparece idealizado.

Sirlen conta que apesar de terem uma ótima relação, seu pensamento era completamente diferente da filha quando possuía a mesma idade, e acredita que os celulares e as redes sociais têm grande responsabilidade por essa mudança comportamental. “Os jovens hoje em dia estão fascinados com o celular, não vivem sem eles.”

De fato, um dos maiores riscos acarretados pelo uso das redes sociais é o aumento da exposição diária à tecnologia, que se torna excessiva. A pesquisa “Este jovem brasileiro”, realizada pelo Portal Educacional em parceria com o psiquiatra Jairo Bouer, indica que quase 95% dos jovens acessam a internet todos os dias ou quase todos os dias, e 85% usam a internet por duas horas ou mais.
A relação com os pais, nesse caso, pode se tornar mais um fator de perturbação psicológica para as meninas. A pesquisa aponta que 80% dos pais dizem ter problemas com os filhos em função do tempo de permanência na internet, e as discordâncias se tornam constantes.

Além disso, existe o problema da falta de segurança das redes sociais, que pode facilitar a invasão da privacidade e até mesmo possibilitar os casos de assédio. Dentre os jovens do país entrevistados pelo Portal Educacional, 60% usam as redes sociais para conhecer pessoas, 71% costumam postar fotos com frequência e 7% já colocaram fotos ou vídeos mais ousados na internet. Além disso, 35% dos adolescentes entrevistados afirmaram não usarem filtros para impedir que suas informações sejam acessadas por qualquer pessoa, e aproximadamente 7% abrem a webcam para estranhos. Nesse contexto, a prevenção contra os abusos e o fortalecimento dos canais de denúncia são essenciais no combate ao crime virtual e aliados na proteção das meninas.

Violência

A violência está presente na vida das meninas desde quando são pequenas. De acordo com o Ministério da Saúde, do total de vítimas de estupro no Brasil, 89% são do sexo feminino. Na faixa de idade entre 14 e 17 anos, essa taxa aumenta para 94%, e dentre as vítimas mais novas, com 13 anos, chega a 81%.

A violência sexual em adolescentes gera consequências a longo prazo e pode acarretar em efeitos físicos e psicológicos permanentes para as jovens, que podem desenvolver ansiedade, fobias, depressão, síndromes de estresse pós-traumático e sentimentos de autoculpabilização que em casos extremos levam ao suicídio.

Entre os principais problemas relacionados à violência física, sexual e psicológica praticada contra as jovens brasileiras está a ausência de denúncias. Estima-se que apenas 10% dos casos de estupro sejam notificados no país. Esse dado alarmante revela outro lado obscuro da realidade das meninas no Brasil. A sociedade, devido ao machismo estrutural, não só culpa a vítima como trata a menina que sofreu abuso como se fosse adulta, desestimulando o registro de queixas.

Para lidar com esse cenário, muitas iniciativas de órgãos públicos e organizações não governamentais vêm sendo testadas nos últimos anos para combater a violência contra as mulheres e meninas no mundo todo.

Foi assim que surgiu no Brasil o Dia Laranja, em que todo dia 25 de cada mês, a equipe da Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS) no país se veste de laranja para marcar sua adesão à iniciativa global “Torne o Mundo Laranja”, da campanha do secretário-geral da ONU “Una-se Pelo Fim da Violência Contra as Mulheres”. O projeto busca celebrar o compromisso pela igualdade de gênero, bem como promover o empoderamento das mulheres e a eliminação da violência, que são questões centrais para o desenvolvimento sustentável dos países.

Criando protagonistas

O fortalecimento da consciência coletiva e das ações para promover as mulheres e desenvolver a equidade de gênero, consequências dos esforços do movimento feminista nas últimas décadas, traz esperança de que as futuras gerações de meninas conquistem maior autonomia e confiança e se sintam menos pressionadas em seus cotidianos.

O papel das redes sociais, nesse caso, possui outra característica, mais favorável. Para Luiza Travassos, jovem jogadora de futebol feminino, a internet pode ser uma forte aliada na luta pelo empoderamento feminino, ao incentivar as meninas de diferentes formas. Com apenas 14 anos, Luiza já figura na lista da BBC das 100 mulheres mais inspiradoras e influentes do mundo, é blogueira da ESPN no Brasil e mantém a página Futblog - A Menina que Joga Futebol, onde posta situações do seu dia a dia como esportista e fala sobre preconceitos que já sofreu, para servir como exemplo de superação.

A atleta acredita no poder da influência digital, que pode levar as meninas a se tornarem mais confiantes para perseguirem seus sonhos. “Existe aquele lado, principalmente no caso do Instagram, de tudo parecer ser perfeito e que de certa forma pode acabar prejudicando as garotas, mas eu vejo muitos movimentos nas redes sociais para tentar mudar o pensamento das pessoas, para tentar influenciar as meninas de forma positiva, então eu acho que as redes podem ser benéficas para elas”, afirma Luiza.

Aumentar a confiança das meninas é, efetivamente, uma das formas mais práticas de amenizar as consequências da distinção de gênero na vida das meninas, aumentando a performance escolar delas e até impulsionando a entrada delas no mercado de trabalho futuramente, como mostra um estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico. Dizer para as jovens “acredite em si mesma”, segundo a instituição, é uma estratégia muito eficaz, já que “atitude não conhece gênero”.

Luiza defende que atitudes simples como essa são cruciais na educação das jovens. “Qualquer movimento hoje que a gente faça, seja ele um pequeno passinho em relação ao empoderamento feminino, pode contribuir muito e causar um grande impacto em todas as meninas. As meninas vendo mulheres inspiradoras e convivendo com elas podem aprender desde cedo que não é por que elas são meninas que não podem ser protagonistas”, ressalta a jogadora.

Foi nesse contexto que surgiram globalmente nos últimos anos escolas de liderança para garotas, que buscam reunir meninas em ambientes transformadores, conectando elas a mulheres inspiradoras e promovendo a conscientização de pais e educadores para o desenvolvimento saudável das jovens. No Brasil, a ONG Força Meninas, da jornalista e pesquisadora Deborah de Mari, é um dos grandes exemplos de ensino e capacitação de meninas, a partir do desenvolvimento de habilidades que ajudam as pequenas a expressar todo o seu potencial.

Assim, encorajar as meninas a serem mais autoconfiantes, a possuírem maior tolerância consigo mesmas, a terem controle emocional e a desenvolverem o pensamento crítico e a mentalidade de crescimento são os melhores meios de promover a liderança infantil, e determinantes para criar jovens com autonomia e protagonismo.

Deborah defende que apoiar as meninas desde cedo é fundamental. “No Força Meninas, frequentemente recebemos mensagens de pais preocupados com suas filhas de opiniões fortes que são hostilizadas na escola e às vezes até por amigos ou familiares”, conta a jornalista. “Nos nossos programas, ressaltamos a importância do fortalecimento dessas vozes. O pensamento crítico da sua menina não é um problema, é uma qualidade que a ajudará ao longo da vida. Auxilie-a a lapidar a comunicação e com sua força e apoio ela irá em frente”, conclui ela.

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