Nas telonas, o Brasil e seus problemas sociais

arte e diversidade - Edição 16 - Arte e Diversidade

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Produções audiovisuais premiadas promovem reencontro do país com suas mazelas

 

Artur Miranda, Marina Toledo e Priscila Antunes

 

Cartaz do premiado Bacurau. Foto: Divulgação

A indústria audiovisual brasileira é um dos setores que mais se desenvolvem no país, com uma taxa média anual de 8,8%, segundo a Brasil Audiovisual Independente (Bravi), que representa as produtoras independentes de televisão. São R$ 25 bilhões agregados à economia nacional, 13 mil empresas de inúmeros tamanhos e mais de 300 mil empregados vinculados. No entanto, após o congelamento de todos os repasses de recursos realizado pela Agência Nacional do Cinema (Ancine), em abril deste ano, é difícil prever como será o futuro do mercado no país.

Há dois séculos, o cinema encanta as pessoas com diferentes histórias, tanto reais quanto fictícias, que constroem ou reformulam as opiniões do público. “Uma coisa que não mudou, desde que o cinema foi criado no século XIX, foi a questão da mensagem que o cinema sempre tenta passar. Um meio de transmissão de mensagem que pode ser transformadora, ou não”, comenta o jornalista e crítico de cinema Marcos Petrucelli.

No cenário brasileiro, essa reflexão tem vindo cada vez mais da abordagem de problemas sociais nas produções audiovisuais brasileiras. Dramaturgos buscam, na medida do possível, trazer às telas a nossa realidade, quase sempre com um tom crítico. Dados coletados pelo jornal O Globo indicam que temas como violência urbana, preservação do meio ambiente e ditadura militar aparecem em pelo menos 12% dos lançamentos.

Na visão de Pedro Sotero, diretor de fotografia dos filmes internacionalmente premiados Aquarius (2016) e, o mais recente, Bacurau (2019), dirigidos por Kleber Mendonça Filho, ainda existem graves problemas sociais no Brasil que foram relegados por gerações passadas, como o racismo e classismo estrutural. “Acredito que é função dos artistas do país expor e gerar reflexões sobre essas feridas históricas que ainda estão bem abertas em pleno 2019”, diz.

Bacurau, ganhador do Prêmio do Júri no Festival de Cannes, já atingiu mais de 650 mil espectadores. O filme gira em torno de uma cidade do interior em busca de justiça, e procura reproduzir diversas esferas sociais para chegar à uma resposta. Sotero conta que a produção tem sido recebida de forma impressionante. “Acredito que furamos a bolha. O filme está sendo visto por pessoas de classes sociais distintas e percepções muito diversas sobre a obra. Para um realizador isso é um grande privilégio. O longa está gerando muitas críticas, debates, eventos, e até podcasts para debater.”

E são os temas sociais que vêm levando o Brasil a premiações, tanto nacionais quanto internacionais. Pela primeira vez na história, um filme brasileiro (Bacurau) ganhou dois prêmios no Festival de Cannes. O filme Aquarius passou por diversos festivais pelo mundo, sendo indicado para vários prêmios e ganhando alguns deles, como no Festival de Lima e de Sydney.

Alguns outros exemplos são os filmes Que Horas Ela Volta (2015) e Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014), reconhecidos internacionalmente e indicados a diversos prêmios em festivais como Berlim e Sundance. Nos anos 1990, o Brasil esteve presente em três indicações de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar, com O Quatrilho (1995), protagonizado por Glória Pires, O Que é Isso Companheiro (1997), com a participação de Selton Mello e Pedro Cardoso, e Central do Brasil (1998). O último, estrelado por Fernanda Montenegro e Vinícius de Oliveira, rendeu mais de 25 indicações a prêmios ao redor do mundo, incluindo o de Melhor Atriz no Oscar, em que Montenegro perdeu para a atriz estadunidense Gwyneth Paltrow.

O filme Cidade de Deus (2002) foi indicado ao Globo de Ouro na categoria Melhor Filme Estrangeiro e participou de diversas premiações, como o Oscar, Bafta, Havana, entre outros. Tropa de Elite (2007) foi premiado em dois festivais, em Berlim com o Urso de Ouro e no Festival Hola Lisboa. Outro filme recente que obteve bastante reconhecimento internacional foi a animação O Menino e O Mundo, dirigido por Alê Abreu. O longa concorreu ao prêmio de Melhor Filme de Animação no Oscar de 2016.

 

Espaço pedagógico

O cinema, além do entretenimento, é um importante espaço pedagógico fora das escolas, principalmente por auxiliar a formação das pessoas intelectualmente e politicamente. Países desenvolvidos na área da educação normalmente possuem um setor cinematográfico também desenvolvido, que aborda temas  sociais, políticos e culturais. Eduardo Benzatti, professor da ESPM-SP e antropólogo, acredita que a educação por meio do cinema está diretamente ligada à forma de resistência que ele deve representar. “Aquarius, Bacurau e até a série Sintonia mostram simbolicamente ou metaforicamente a situação atual do Brasil. Críticas políticas são muito comuns no audiovisual nacional e têm uma grande relevância para o público”, afirma.

Hoje em dia, o audiovisual não é apenas cinema ou televisão. Com o desenvolvimento de novos meios de comunicação, outras formas de disseminar cultura e propor uma diversidade maior na educação, como é o caso do Instagram e do YouTube. “As pessoas estão tendo um acesso mais rápido às produções. Cada vez mais, a indústria audiovisual fica menos verticalizada, e com isso, mais pessoas conseguem ter acesso e tudo fica mais democrático”, explica Karinna de Simone, formada em cinema e assistente de direção.

O audiovisual fornece contribuições fundamentais para a educação de uma sociedade. A partir de imagens previamente selecionadas e bem articuladas, uma produção audiovisual pode ser eficaz na veiculação de informações científicas para um público grande. O professor do departamento de antropologia da Universidade de São Paulo Julio Simões acredita que a condensação de ideias que estimulam raciocínios por meio de afetos e emoções é uma importante função do audiovisual. “É claro que não basta apenas uma recepção isolada e passiva. Sempre deve ser acompanhada de oportunidades de interação, reflexão e diálogo”, defende.

Em agosto deste ano, Sintonia, série criada e dirigida por KondZilla, dono da maior produtora de funk no mundo e o canal do YouTube com mais inscritos do Brasil, estreou na Netflix, a maior plataforma global de streaming. A produção explora as vertentes da música, crime e religião em São Paulo e é narrada a partir do ponto de vista de três personagens principais: Doni, Nando e Rita.

Apesar de inicialmente ser um entretenimento, a série é também uma forma de dar voz  e explorar a realidade das pessoas da periferia. Com o aumento da abordagem de diversos temas no audiovisual brasileiro, a reflexão sobre a realidade dessas pessoas é fomentada. Além de mostrar como a periferia é esquecida pelo Estado e isolada da sociedade, Sintonia também abriu portas para muitas pessoas que nunca haviam atuado antes.

Leonardo Campos, de 34 anos, interpreta o traficante Lindão na série. Porém, apesar do sucesso recente com o papel, a vida do ator nunca foi fácil. Foi condenado após roubar um carro em 2014 e passou quatro anos preso. Enquanto estava detido, participou de oficinas de teatro e, assim, pôde explorar o seu talento para as artes, além de escrever livros e letras de músicas, tanto gospel quanto funk.

Três meses após sair do presídio Adriano Marrey, em Guarulhos, Leonardo foi indicado para fazer o teste de Sintonia, que retrata a realidade de uma parte da sociedade que muitas vezes é marginalizada. Para ele, interpretar o Lindão não foi tão diferente da realidade que já estava vivendo antes de passar no teste. “Foi como se tivesse que interpretar uma pessoa que eu já vi. Claro, não era nenhum conhecido. Mas eu sei o jeito do traficante, o que ele faz”, conta.

Mesmo dando aulas de teatro para os detentos e já ter sido figurante em dois filmes antes de ser preso, Leonardo nunca tinha atuado com falas. Interpretar o Lindão na produção da Netflix fez com que ele construísse uma visão mais madura e consciente da realidade das favelas. Na opinião do ator, o importante da série não era abordar somente o tráfico de drogas, mas o que ele causa na comunidade. “Pessoas vão presas, destroem famílias, destroem a vida. Uns são vítimas das drogas, outros são vítimas do desemprego, outros são vítimas do sistema. Então é preciso abordar o que a droga faz, não o que ela é”, defende.

Para o futuro, Leonardo pretende realizar mais projetos profissionais, buscar maior qualificação e não descarta morar fora do país algum dia. Além disso, sonha em ter a oportunidade de ajudar as pessoas da sua comunidade que compartilham do mesmo sonho. “Eu consegui depois de anos tentando. Se eu tivesse conseguido no começo, talvez eu estaria melhor, mais qualificado e mais longe, teria mais outras séries gravadas”, disse o ator, que já afirmou ter tido a vida salva pelo teatro. “Meu desejo é proporcionar isso para as pessoas da comunidade, porque eu sei que tem muito talento lá”, resume.

As diversas obras que retratam a realidade brasileira contribuem para a educação e a reflexão crítica. “A nossa realidade é plural, diversa e desigual. Por isso, é fundamental abordar temas sociais que levem em conta esses aspectos. Não devemos nos fixar numa visão uniforme e cristalizada de identidade nacional a ser refletida pelo audiovisual, mas antes mostrar os vários aspectos de sua riqueza e complexidade”, defende o antropólogo Julio Simões.

Segundo Karinna de Simone, um país sem educação é um país sem cultura, e além de consequentes são também reflexos uma da outra. Por isso, a presença de meios audiovisuais é essencial para a formação do indivíduo. “O audiovisual é usado na educação há pelo menos 40 anos na França. Lá, eles tiveram um modelo de incentivo público que foi usado para que crianças voltassem a inserir o cinema mais clássico no dia a dia deles”, comenta a profissional.

Apesar de ter ocorrido um desenvolvimento bem estruturado da indústria audiovisual em diversos países, no Brasil a tentativa foi frustrada. Mas, mesmo assim, é e tende a continuar sendo uma maneira de contribuir com a educação. “O audiovisual é uma ferramenta muito poderosa para passar informações para as pessoas. Documentários, biografias ou filmes baseados em histórias reais facilitam a transmissão de informações e de valores mais modernos”, completa Karinna.

A abordagem de temas sociais é uma tônica no audiovisual brasileiro, porém as expectativas para o mercado não são tão positivas. Para Pedro Sotero, a luta pela independência ideológica do cinema brasileiro ocorre há mais de 15 anos, mas o  crescimento da representação da realidade brasileira no audiovisual não depende somente de artistas ou diretores. “As expectativas são baixas justamente por conta do ataque constante do governo atual à ciência, cultura e educação, que tenham qualquer interesse de informar e emancipar sujeitos”, explica.

Com o congelamento dos repasses de recursos pela Agência Nacional de Cinema, a situação do audiovisual é imprevisível. Nos últimos meses, diversas reportagens mostram como o atual poder tenta controlar o audiovisual no Brasil, já que é um instrumento de resistência política no país. “O governo não quer mais financiar temas polêmicos e sociais, seja qual for. Como é o caso de Marighella, que não consegue estrear aqui, mas já lançou em diversos outros países”, lembra Sotero. Segundo ele, os políticos querem liberar verba apenas para filmes que estimulem a moral da família ou a religião, por exemplo. “Me preocupa o futuro do audiovisual e a resistência que ele representa”, finaliza.

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